domingo, fevereiro 06, 2011

Agarra o arco-íris comigo, David...

O arco-íris brilhou no céu enquanto as nuvens se afastaram abrindo espaço aos pássaros que, em seta, voaram para desocupar o azul do céu e deixar aquecer o sol. Em toda a cidade os carros saíram mais cedo, para as desimpedir as ruas e arejar as praças. Nos jardins todas as flores se pentearam e as árvores, espalhadas por terras e canteiros, sacudiram os troncos e esticaram os ramos tensos para aprimorar a decoração. O rio estava calmo - os barcos deixaram de passar, e as pequenas ondulações espelhavam a luz do sol para adornar a maquilhagem. As crianças nas escolas, os motoristas de táxi, os polícias nas estradas, as pessoas redopiando nos seus afazeres, tornaram-se uma mancha indistinta, indetectável no meio dos prédios para não estragar a pintura.

Eles saíram, despreocupados. Falavam dos nadas que, afinal lhes diziam tudo, um sobre o outro. Saíram e não deram conta do céu limpo, das ruas desertas, dos jardins floreados. Vinham apenas os dois, num mundo só seu onde nunca houvera outros alguéns para além deles.

Chegados ao rio ouviram o silêncio que a cidade, vaidosa, cantava para eles. Um vazio onde nada mais parecia existir se não eles no meio dos seus tudos, nadas afinal, que iam dizendo sem pensar muito.

O sol, em sinal de respeito, retirou-se devagarinho levando os reflexos luzidios e ralhando à lua que, teimosa, insistiu em ficar e espreitar. A noite, embrulhada num enorme vestido de seda escura, dançou com eles. Ali ficaram, acompanhados pelo rio calmo, a lua, a noite e as estrelas, que lhes davam a sensação de imensidão e eternidade dum espaço tão único como íntimo.

Chegada a hora certa, o sol levantou o vestido da noite e espreitou de mansinho, como quem vela o sono de uma criança. A lua, cansada, deitou-se com as estrelas e, aos poucos, o céu foi clareando em sinal de um novo dia que nascia.

Ele, deitado na relva, acordou com a festa duma folha caída da árvore que lhes embalara os sonhos. Olhou em volta e não a viu... esfregou os olhos, levantou-se e chamou-a por entre os barulhos surdos da cidade que já acordara e, a toda a volta, se contorcia para apanhar o tempo "perdido".

Ela não estava, nem ali nem em lado nenhum. Baralhado, chegou a pensar se não passara de um sonho, uma invenção engenhosa para sair da solidão. Olhou mais uma vez para o rio, para o sol, para relva onde dois corpos estavam ainda marcados... ao seu lado, um sapato vermelho. O sapato dela que ficara para trás.

Guardou o sapato vermelho consigo, sem coragem de o experimentar às raparigas da cidade. Mas, de cada vez que arco-íris brilha no ar, enquanto as nuvens se afastam, ele corre até ao rio e, com ela, fica no silêncio que a cidade, vaidosa, canta para eles.

Liliana

"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts

I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away

Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still

I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar

I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away

Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there

Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"

"Hold still" de David Fonseca
(cantado com Rita Red Shoes)

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Vem navegar no silêncio do meu rio, Alberto...

Trago em mim um imenso rio que corre, sempre silenciosamente, em direcção a um mar que desconheço. Sorrio e choro, invento, sempre que coro, se me exponho ou me embrulho, de cada vez que, intencionalmente, me mostro e dispo, é na foz desse silêncio que me encontro, e depois de tanto barulho que luto por não ver, te procuro.

Trago em mim um silêncio que segue nas águas do meu rio. Silêncio gelado que corta e queima no frio absoluto dum abismo que é foz, manhã velada, nevoeiro escuro, onde me perco e grito, sem voz, os medos que ali nadam e, em mim desaguam.

Chegaste um dia, ao entardecer quando o céu está laranja e as nuvens rosadas, vieste numa barca trazida por um vento que falava de mar de sol de praia e, num abraço tranquilo, silenciaste-me os medos.

Ensinas-me a ouvir as águas deste meu rio, e no silêncio do seu leito deixar os medos navegar. Ensinas-me a esperar pelos tempos, que atrás de outros hão-de vir, e nas margens depositam sentimentos histórias momentos, que em forma de palavras poemas e canções pedem para ser vividos.

Procurei uma noz para no rio te acompanhar, e dentro dela me aventurei nas águas, ora revoltas ora calmas, ora sentidas ora esquecidas, ora amedrontadas ora aventureiras... e percebi que os medos me espreitam, de quando em vez me assustam, às vezes me soltam e me deixam voar, planar num mundo feito de tudo e de nada, onde afinal o importante é mesmo, navegar, navegar....

Liliana


Com "O Tejo é o mais belo rio" de Alberto Caeiro como pano de fundo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Onde, José?

Onde nos vamos encontrar? Neste mar de horas marcadas e agendas mais que abusadas? Aquele dia livre que boiava no rio já se afundou com o peso das obrigações. Viste a gaivota que o olhava, desconfiada? Perguntou-lhe "quem és?", "sou o tempo esquecido" respondeu-se o dia, mas logo a sua voz fez vibrar as folhas, escritas riscadas e rabiscadas da agenda e, um segundo o engoliu no meio dos pendentes que ficam sem dia nem hora nem data marcada.

Onde nos vamos encontrar? Se a cidade não pára e as crianças logo de manhã com bibes coloridos e lancheiras recheadas por entre e os carros mal-dispostos e os barcos apressados e os comboios apinhados que não deixam passar os minutos, sem o burburinho de quem já nem procura o sentido do tempo numa maré de afazeres.

Onde nos vamos encontrar? Se o silêncio não tem hora nem dia nem espaço para se fazer ouvir e, calmamente se instalar, manto tranquilo que aconchega e acolhe e embala? Dizemos contrapomos discutimos repetimos defendemos e argumentamos, mas não olhamos, não ouvimos, não sentimos, não tocamos. Não há tempo.

Onde nos vamos encontrar? Para, fora do tempo, nos olharmos sentirmos tocarmos ouvirmos e, provavelmente em silêncio, descobrirmos o tanto que temos para nos dar?!

Liliana


Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo