terça-feira, fevereiro 01, 2011

Onde, José?

Onde nos vamos encontrar? Neste mar de horas marcadas e agendas mais que abusadas? Aquele dia livre que boiava no rio já se afundou com o peso das obrigações. Viste a gaivota que o olhava, desconfiada? Perguntou-lhe "quem és?", "sou o tempo esquecido" respondeu-se o dia, mas logo a sua voz fez vibrar as folhas, escritas riscadas e rabiscadas da agenda e, um segundo o engoliu no meio dos pendentes que ficam sem dia nem hora nem data marcada.

Onde nos vamos encontrar? Se a cidade não pára e as crianças logo de manhã com bibes coloridos e lancheiras recheadas por entre e os carros mal-dispostos e os barcos apressados e os comboios apinhados que não deixam passar os minutos, sem o burburinho de quem já nem procura o sentido do tempo numa maré de afazeres.

Onde nos vamos encontrar? Se o silêncio não tem hora nem dia nem espaço para se fazer ouvir e, calmamente se instalar, manto tranquilo que aconchega e acolhe e embala? Dizemos contrapomos discutimos repetimos defendemos e argumentamos, mas não olhamos, não ouvimos, não sentimos, não tocamos. Não há tempo.

Onde nos vamos encontrar? Para, fora do tempo, nos olharmos sentirmos tocarmos ouvirmos e, provavelmente em silêncio, descobrirmos o tanto que temos para nos dar?!

Liliana


Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo

sábado, janeiro 29, 2011

Vem devagar, Sérgio...

Obrigo o tempo a parar e recolho-me no fundo da caixa onde guardo as pérolas do mar futuro que um dia, sem aviso nem fumo nem carta nem anúncio prévio, me trouxeste num cesto de sol.

Aproveito as entre-linhas do relógio para, nesta agitação mansa neste caos calmo nesta noite sonhada, deixar entrar o rio com a lua ondulada e a cidade, ao contrário, que velam pelo silêncio que, letra-a-letra, me ensinas.

Deito a ampulheta de lado e, na areia molhada do tempo parado, visto-me de mil cores para acalmar o futuro que teima em saltar em todas as direcções, fazendo-me tropeçar num presente que quero apressar.

Os segundos abrandam o ritmo e os ponteiros aceitam o convite para dançar com os sonhos que correm, esses sim, livres das horas e dos dias do mundo real. Saio para o meu sonho e, sem pressa deixo-me levar, nesta onda com cheiro e sabor a sorrisos.

Liliana






"Quando/ tu me vires no futebol/
estarei no campo/ cabeça ao sol
a avançar pé ante pé/ para uma bola que está/ à espera dum pontapé
à espera dum penalty/ que eu vou transformar para ti
eu vou/ atirar para ganhar
vou rematar/ e o golo que eu fizer/
ficará sempre na rede/ a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral/ desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos jogar

Quando/ tu me vires no music-hall
estarei no palco/ cabeça ao sol/ ao sol da noite das luzes/ à espera dum outro sol
e que os teus olhos os uses/ como quem usa um farol
não me olhes só dessa frisa lateral/ desce pela cortina e acompanha-me em cena
vamos dar à perna como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos bailar

Quando/ tu me vires na televisão
estarei no écran/ pés assentes no chão
a fazer publicidade/ mas desta vez da verdade/ mas desta vez da alegria
de duas mãos agarradas/ mão a mão no dia a dia
não me olhes só desse maple estofado/ desce pela antena e vem comigo ao programa
vem falar à gente como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos cantar

E quando/ à minha casa fores dar
vem devagar/ e apaga-me a luz/ que a luz destoutra ribalta
às vezes não me seduz/ às vezes não me faz falta
às vezes não me seduz/ às vezes não me faz falta"

"Espectáculo" de Sérgio Godinho

sábado, janeiro 22, 2011

Anda inventar realidades comigo, Clarice...

Escrevo enredos simbólicos, tão subtilmemente enrolados que nada mais transmitem do que a minha imensa necessidade de me ler. As palavras que escolho esvoaçam, flores num campo primaveril que apanho e com as quais enfeito grandes bouquets, na verdade pequenas aparas do espelho onde me procuro rever.

E espalho as palavras ao vento sonhando que, quem sabe, um dia num planeta distante um ser diferente me encontra, por entre os silêncios que afinal grito no desequilíbrio das rimas de que tanto fujo.

Mas, e se acaso numa rede distraída um dos meus mais íntimos silêncios nela se encaixa, em forma de borboleta, e uma mão meiga o afaga e aquece num abraço mudo? Poderia eu conviver com essa peça de um puzzle há tanto esquecido, perdido e desmontado no meio do pó das limitações do possível?

Ah! É que eu sei viver por entre as árvores sonhadas, de ramos fortes e folhas caducas. Eu conheço o mapa dos caminhos amarelos que, eternamente, construo e, continuamente, desaguam no mar. Eu consigo quebrar os muros e respirar um mundo livremente inventado!

Então porque teimo em me ler criatura limitada, confinada e acorrentada numa verdade tão curta que me auto-limita o horizonte à pequenez do estritamente exequível?

Liliana





"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. (...)
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."

in 'A Paixão Segundo G.H.' de Clarice Lispector