segunda-feira, novembro 15, 2010

O teu jardim neva para ti, António?!


Todos os anos, o meu jardim, neva para mim. Um dia como os outros, sem aviso prévio ou chamada de atenção, saio de casa e, ao entrar no jardim, ele brinda-me com uma cascata de flocos disformes que caem descompassados e vestem o chão com um enorme manto amarelo raiado de verde.

Ninguém pára ou elogia o seu nevão. É para mim que caem as folhas e é para mim o tapete que, sorrindo, atravesso cheia de vontade de brincar com as árvores que dançam enquanto se despedem da roupa de verão e deixam mais leves as copas para, o sol tímido de inverno, alegrar as minhas janelas.

No dia em que o meu jardim neva, percebo que nem todos vemos a mesma realidade. Há um manto de folhas que me pedem para dançar enquanto dezenas de pessoas passam por mim sem lhes ligar, sem ver o jardim que as quer cumprimentar e sem sentir a brisa que ajuda as árvores a brincar.

Há anos em que a neve me abraça e aquece como uma manta quente e alegre que me faz sorrir, outros em que, tenho a certeza, são lágrimas das árvores que se compadecem de mim, escondida do outro lado da janela. Mas todos os anos me percebo só nesta conversa com o jardim, com as árvores, com as folhas e com o vento que as faz voar.

Talvez se um dia tu no meu jardim... Mas não, não te quero no jardim num dia de neve, porque talvez não... e então prefiro pensar que, quem sabe, talvez tu o visses, se calhar até o ouvisses e então o conseguisses entender, a ele... e com ele a mim.
Liliana




"Na região de Chiang-Shih, no estado de Song, há lindas florestas de plátanos, amoreiras e ciprestes. Acontece que, quando atingem dois ou três palmos de altura, algumas dessas árvores são cortadas para servir de poleiros; das que medem quatro ou cinco palmos, há algumas que são cortadas para fazer estacas, e, das que chegam aos sete e oito palmos, muitas são serradas para tábuas de caixões. Assim, nenhuma destas chegou ao termo natural da sua vida, nem pôde desfrutar, do alto do seu cume, a imagem do mundo para a qual tinham sido criada e, a meio do seu destino, caiu sob os golpes do machado. Este é o perigo de ser útil…

Ichonang-Tseu"

In "O riso de Deus" de António Alçada Baptista

quinta-feira, outubro 28, 2010

O que te falta, Ricardo?

Não chega, sabias?! Não vens num cavalo branco nem corres para mim com um beijo para me acordar do sonho mau.

A noite é de um inverno branco e eu, sentada numa jangada de tábuas amarrada com esperança, procuro o calor dos teus olhos que tarda em chegar.

O fundo do corredor está vazio, de um escuro silencioso onde tenho medo de entrar. Procuro a tua mão que se estende, indiferente, ao lado do teu corpo e quase recusa o meu toque.

Afogo-me numa banheira de águas revoltas e olho-te em busca de âncora mas afastas o olhar, como quem dança uma valsa "á mil temps" enquanto te afastas numa prancha de certezas.

Nos dias luminosos de pequenas cores salpintados, dás-me a mão e ris-te para mim quando me entendes perdida. Fazes-me um mapa e ouves-me com carinho, até que chegam as nuvens, minhas ou tuas, e deixas de me ver.

Não chega, sabias?
Nem para mim, nem para ti...

Nunca te encontro nas esquinas das tuas manhãs. Foges como um balão solto no meio dum jardim infantil. Escondes-te atrás das árvores com folhas escuras e copas largas. Não me deixas chegar a ti e, por isso, também nunca chegas até mim. Ficas nessa margem do rio de onde não me consegues tocar e nunca te chegas a mostrar.

Não chega, sabias?


Sim, tu até sabes. Vês o silêncio que me magoa e ouves a barreira que me assusta. Só não compreendes que saltar o muro ou abrir a porta, me faz tanta falta a mim, como a ti. Porque assim não chega, sabias?!

Liliana


"Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece. "

Ricardo Reis, in "Odes"

domingo, outubro 24, 2010

Confias em mim, Carlos?!

Disse mesmo o que penso, ou será que fui eu que me enganei e conjuguei as palavras duma forma absurda? Não procuro essa resposta, terá sido a minha pergunta mal elaborada?
Recomeço.

Espere. Não me olhe assim, não me quero reflectida nesse olhar. Há aqui um engano, não o olhei desse prisma, nem tenciono vê-lo aí. Não me está a entender, devo-me ter explicado mal, peço desculpa.
Recomeço.

Não entendo esse sorriso, não é de alegria nem de amizade... Estou engana. Só posso. Conheço-o há tantos anos...
Recomeço mais uma vez, baralhada.

Não quero ouvir essas palavras que ecoam a azedo, e me ferem tanto como o olhar que choca com o meu e me faz embater na mão que está pousada no meu ombro. Não conjugo os verbos, nem equaciono as consequências. Afasto-me apenas, sem a coragem de me debater, impor ou sequer reconhecer que sei.

Engano-me.
Afasto-me, mas mais minuto menos minuto tudo há-de cair em cima de mim, como uma chuva repentina. Afasto-me para fugir, mas na verdade trago comigo as palavras, os olhares, as insinuações coladas ao corpo. Apago as memórias tapando com a mesma areia que atiro aos meus olhos.

Engano-me a mim própria.
Recomeço sem ter, verdadeiramente, acabado. Avanço com a urgência de não ficar aqui, abandonada neste limbo.

Liliana




"Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos."

"Os velhos" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Boitempo'