domingo, outubro 17, 2010

Pelo que esperas, Chico?

Esperando que o amanhecer não caia em cima dela com força demais, capaz de deitar abaixo os sonhos da noite.
Esperando que os ventos não abanem o seu tronco de forma a danificar as raízes que a prendem ao seu solo interno.
Esperando que as estrelas não deixem de iluminar o seu lado mais alegre.
Esperando que a lua mantenha a ligação secreta que sempre a levou para lá do arco-íris.
Esperando acordar com um suspiro sincero, profundo, de respeito por si mesma.
Esperando encontrar-se, um dia, certa de si e das suas convicções, capaz de se pensar longe e inventar outros horizontes.
Esperando conseguir olhar para o copo e vê-lo sempre vazio, pronto a encher-se para novamente se esvaziar, num movimento perpétuo.
Esperando fintar a inquietação e olhar os fantasmas olhos nos olhos até lhes retirar toda a energia.
Esperando adormecer com a tranquilidade dum dia atrás do qual não precisou de correr.
Esperando olhar para o espelho e ver-se sorrir, sem reservas, para e de si mesma.
Esperando esperar...
Esperando apenas...
Esperando por si.
Liliana





"Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"

"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

terça-feira, outubro 12, 2010

Quando te vestes de ti, Álvaro?

Visto o casaco cor-de-rosa e dou um laço na curva da cintura. Entro delicadamente nos escritórios onde oiço o burburinho dos teclados sob uma melodia descontínua de telefones que tocam e conversas rápidas. Entrego os documentos enquanto me endireito nos saltos e sorrio à recepcionista.

Cá fora uma brisa morna leva as pressas que me fizeram chegar e desacelero o passo. O sol de outono ainda aquece e puxo a fita que desabotoa o laço cor-de-rosa do casaco com que, tipo embrulho, estava vestida. Enfio-o amachucado na mala e sigo de óculos de sol e cabelos ao vento. É altura de avançar.

Chego à porta da escola à hora certa. Abro um sorriso do tamanho dos portões enquanto as crianças, nervosas, procuram encontrar as caras conhecidas que os levam a almoçar. Saltito com o mais pequeno por entre tampas de esgoto e riscas de passadeira, cantamos músicas ao calhas entrelaçadas com rimas inventadas. Chegados a casa atiro com a mala para um canto e, ao mesmo tempo procuro o avental. Prendo o cabelo num rolo mal ajeitado e preparo o almoço. Em breve voltaremos ao portão.

Procuro o carro sem a bússola das lembranças, atraso-me pelas ruas onde todos os carros são pardos e o meu se escusa a aparecer. Finalmente apanho-o numa esquina da memória e corro para o consultório. No divã tento desesperadamente despir o avental e a saia, mas os sapatos de salto alto estão presos. Camada sobre camada arranco-me de cima de mim como um sobreiro. Há cascas que não saem completamente e outras que teimam em cair sózinhas no chão sem eu dar conta. Antes da hora certa, à pressa, torno a vestir-me e saio com a sensação de mal-estar de quem tem um casaco apertado demais e umas calças a cair.

Corro para a biblioteca. Levo as malas, os rolos de lã, as purpurinas e os livros. Visto uma camisola com uma borboleta colorida e sigo para a sala onde as crianças já se amontoam à espera. Arrumo o cenário e concentro-me nas palavras. Em breve são elas que me comandam. Descalço os sapatos e conto-me o melhor que consigo, embalada numa história de encantar.

Saio novamente para o carro, desta vez preso à memória de um lugar e volto a casa. Entro no meio de risos e gritos de personagens que não conheço e que vagueiam pela casa saídas da televisão. Tiro a camisola e visto o pijama. O jantar está pronto e ninguém me ouve chamar. A sopa arrefece nos pratos enquanto resmungo e digo o mesmo que nos dias anteriores.

Adormeço os miúdos e deito-me. Dispo o pijama e deixo-me sentir a pele, o respirar e o pulsar que, aos poucos, se conjugam no mesmo compasso. Suspiro antes de adormecer e pergunto-me onde estou no meio das roupas que usarei amanhã.

Liliana




"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato."

("Começo a conhecer-me" in Poesias de Álvaro de Campos)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Tens medo da noite, Sophia?!

Os ponteiros rodam com a impaciência do reflexo da lua nos lençóis amassados da cama. As sombras da rua passam no tecto um filme mudo, onde as figuras humanas se diluem, finas e compridas, como numa dança de bruxas. Viro-me na cama tentando não tocar no teu corpo quente que respira ao ritmo compassado da tranquilidade que precede todos os tremores.

Fecho os olhos e desvio o olhar das memórias que teimam juntar-se ao sonho que me prende. A noite traz consigo os fantasmas para não se sentir só, enquanto a cidade se debate para não os deixar entrar na cama.
Arrefeço. O teu corpo encolhe-se quando me chego a ti. Porque será que adormeces sempre primeiro que eu? Poderias velar o meu sono e afastar os pesadelos com a mão enquanto me descrevias o sonho mais colorido do mundo, se não dormisses sempre antes de mim. Saberia eu que eram tuas as palavras que inspiravam o mundo onde me sonharia, numa realidade sem medos ou constrangimentos?! Acendo o rádio, quem sabe a música me embala a alma e me eleva num sono calmo de criança.
As sombras jogam às escondidas comigo e não consigo dormir. Os ponteiros respondem apenas aos seus impulsos e avançam sem respeito ao meu medo. Estás aqui tão perto e, no entanto, tão inacessível. Conseguira eu estender-te a mão e tu enroscar-te-ias a mim como uma concha que aninha a vida protegendo-me do mundo? Tento chegar-me a esse colo, mas não consigo mexer-me. Fecho novamente os olhos e procuro acompanhar o ritmo a tua respiração. Imagino que me encosto ao teu corpo, que me enrosco e que me abraças com a mesma calma com que respiras, profundamente. O teu calor traz-me a calma e envolve-me num sonho morno onde e a noite se vai dissolvendo com os seus fantasmas e medos e sustos e arrepios.
Inspiro fundo, contigo. Estou longe mas sonho-me perto, tão perto que consigo sentir a tua respiração na minha pele. Cantas-me uma morna para embalar o meu corpo de menina tão frágil nas sombras da noite e deixo-me adormecer ao teu lado, sem chegar a conseguir esticar o braço na tua direcção.


Liliana



Noite das coisas, terror e medo
Na aparente paz dispersa
Sobre as linhas caladas.
Efeitos de luz nas paredes caiadas,
Gestos e murmúrios de conversa
No mundo estranho do arvoredo.


"Noite das coisas"
de Sophia de Mello Breyner Andresen