terça-feira, outubro 12, 2010

Quando te vestes de ti, Álvaro?

Visto o casaco cor-de-rosa e dou um laço na curva da cintura. Entro delicadamente nos escritórios onde oiço o burburinho dos teclados sob uma melodia descontínua de telefones que tocam e conversas rápidas. Entrego os documentos enquanto me endireito nos saltos e sorrio à recepcionista.

Cá fora uma brisa morna leva as pressas que me fizeram chegar e desacelero o passo. O sol de outono ainda aquece e puxo a fita que desabotoa o laço cor-de-rosa do casaco com que, tipo embrulho, estava vestida. Enfio-o amachucado na mala e sigo de óculos de sol e cabelos ao vento. É altura de avançar.

Chego à porta da escola à hora certa. Abro um sorriso do tamanho dos portões enquanto as crianças, nervosas, procuram encontrar as caras conhecidas que os levam a almoçar. Saltito com o mais pequeno por entre tampas de esgoto e riscas de passadeira, cantamos músicas ao calhas entrelaçadas com rimas inventadas. Chegados a casa atiro com a mala para um canto e, ao mesmo tempo procuro o avental. Prendo o cabelo num rolo mal ajeitado e preparo o almoço. Em breve voltaremos ao portão.

Procuro o carro sem a bússola das lembranças, atraso-me pelas ruas onde todos os carros são pardos e o meu se escusa a aparecer. Finalmente apanho-o numa esquina da memória e corro para o consultório. No divã tento desesperadamente despir o avental e a saia, mas os sapatos de salto alto estão presos. Camada sobre camada arranco-me de cima de mim como um sobreiro. Há cascas que não saem completamente e outras que teimam em cair sózinhas no chão sem eu dar conta. Antes da hora certa, à pressa, torno a vestir-me e saio com a sensação de mal-estar de quem tem um casaco apertado demais e umas calças a cair.

Corro para a biblioteca. Levo as malas, os rolos de lã, as purpurinas e os livros. Visto uma camisola com uma borboleta colorida e sigo para a sala onde as crianças já se amontoam à espera. Arrumo o cenário e concentro-me nas palavras. Em breve são elas que me comandam. Descalço os sapatos e conto-me o melhor que consigo, embalada numa história de encantar.

Saio novamente para o carro, desta vez preso à memória de um lugar e volto a casa. Entro no meio de risos e gritos de personagens que não conheço e que vagueiam pela casa saídas da televisão. Tiro a camisola e visto o pijama. O jantar está pronto e ninguém me ouve chamar. A sopa arrefece nos pratos enquanto resmungo e digo o mesmo que nos dias anteriores.

Adormeço os miúdos e deito-me. Dispo o pijama e deixo-me sentir a pele, o respirar e o pulsar que, aos poucos, se conjugam no mesmo compasso. Suspiro antes de adormecer e pergunto-me onde estou no meio das roupas que usarei amanhã.

Liliana




"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato."

("Começo a conhecer-me" in Poesias de Álvaro de Campos)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Tens medo da noite, Sophia?!

Os ponteiros rodam com a impaciência do reflexo da lua nos lençóis amassados da cama. As sombras da rua passam no tecto um filme mudo, onde as figuras humanas se diluem, finas e compridas, como numa dança de bruxas. Viro-me na cama tentando não tocar no teu corpo quente que respira ao ritmo compassado da tranquilidade que precede todos os tremores.

Fecho os olhos e desvio o olhar das memórias que teimam juntar-se ao sonho que me prende. A noite traz consigo os fantasmas para não se sentir só, enquanto a cidade se debate para não os deixar entrar na cama.
Arrefeço. O teu corpo encolhe-se quando me chego a ti. Porque será que adormeces sempre primeiro que eu? Poderias velar o meu sono e afastar os pesadelos com a mão enquanto me descrevias o sonho mais colorido do mundo, se não dormisses sempre antes de mim. Saberia eu que eram tuas as palavras que inspiravam o mundo onde me sonharia, numa realidade sem medos ou constrangimentos?! Acendo o rádio, quem sabe a música me embala a alma e me eleva num sono calmo de criança.
As sombras jogam às escondidas comigo e não consigo dormir. Os ponteiros respondem apenas aos seus impulsos e avançam sem respeito ao meu medo. Estás aqui tão perto e, no entanto, tão inacessível. Conseguira eu estender-te a mão e tu enroscar-te-ias a mim como uma concha que aninha a vida protegendo-me do mundo? Tento chegar-me a esse colo, mas não consigo mexer-me. Fecho novamente os olhos e procuro acompanhar o ritmo a tua respiração. Imagino que me encosto ao teu corpo, que me enrosco e que me abraças com a mesma calma com que respiras, profundamente. O teu calor traz-me a calma e envolve-me num sonho morno onde e a noite se vai dissolvendo com os seus fantasmas e medos e sustos e arrepios.
Inspiro fundo, contigo. Estou longe mas sonho-me perto, tão perto que consigo sentir a tua respiração na minha pele. Cantas-me uma morna para embalar o meu corpo de menina tão frágil nas sombras da noite e deixo-me adormecer ao teu lado, sem chegar a conseguir esticar o braço na tua direcção.


Liliana



Noite das coisas, terror e medo
Na aparente paz dispersa
Sobre as linhas caladas.
Efeitos de luz nas paredes caiadas,
Gestos e murmúrios de conversa
No mundo estranho do arvoredo.


"Noite das coisas"
de Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, setembro 13, 2010

Como sonhas a tua cidade, Zeca?!

Abri a janela, o dia estava lindo, de um azul claro que dançava com o sol matinal ao som de uma leve brisa fresca. No canto da janela, quase imperceptível, uma ponta de papel de cenário parecia querer soltar-se. Fingi não ver e espreguicei-me, sorrindo para o dia lindo que me cumprimentava com o calor de Setembro. Saí ainda com o coração embalado no despertar tranquilo de um dia que se apresentava bem-humorado, penteado e até mesmo elegante.
As ruas espelhavam a boa disposição que o sol inspirava, e as pessoas, sorridentes, andavam calmamente sem atropelos, tropeções ou buzinadelas. Sentei-me na esplanada para tomar café e ao afastar a cadeira ouvi um ruído abafado de papel a rasgar. Olhei devagar para baixo da mesa, como quem tem a certeza que aloja um monstro no fundo da cama. Não havia forma de disfarçar desta vez, estava ali mesmo, um enorme buraco no papel de cenário cuidadosamente pintado a aguarela, e deixava transparecer o dia de chuva que atrás dele estava em cena.
A acção real decorria lá atrás, as personagens sabiam-no e instintivamente romperam o papel que nos vestia dum magnífico dia de verão, deixando a chuva e as nuvens e os sobrolhos franzidos e o trânsito e os atrasos e as correrias e a ansiedade inundar toda a rua. Tentei com todas as minhas forças colar e retocar o cenário que, aqui e ali, se enrolava e amachucava com a água deixando escorrer as tintas que se misturavam num castanho amarelado que escorreu até ao Tejo juntamente comigo.
Deixei-me ir naquela corrente que desde manhã, ao abrir a janela, me parecera existir mas que evitei aceitar. Os homens que tinha pintado como personagens de histórias de encantar começaram a parecer-se apenas com homens de pequenos horizontes, sem carinho, sem esperanças, sem sonhos por que lutar. As ruas que desenhara com mil janelas floridas e pequenos pátios onde todos se cruzavam para conversar, perderam a cor e o tempo esqueceu-se delas, deixando-as apenas envelhecer sujas tristes e sós. A música que escrevera com os pássaros a chilrear e as crianças a rir, foi absorvida pelo caos citadino duma realidade com tanto barulho que abafa qualquer tentativa de melodia.
Mergulhei no Tejo e pensei nadar sem parar, nadar sem sentido, nadar apenas, nadar até mais não conseguir. Mergulhei no Tejo e vi o cenário estranhamente encaixar como pequenas peças de um puzzle colorido. Mergulhei no Tejo e aquela cidade que se formava no fundo do rio era a minha cidade, com todas as cores e a luz que dela saiam e se reflectiam nas águas projectadando-se em alguns prédios e carros e ruas e pessoas.
Sentei-me na outra margem, escorrendo água, cores e sonhos que se misturavam na ondulação e olhei a minha cidade, sem maquilhagem. Conforme o sol se levantava fui-me apercebendo que o cenário no fundo do rio se espelhava em alguns recantos criando um ambiente mágico de história de encantar.
Levantei-me triste e contente, procurando á volta alguma ponta solta dum cenário que parecia estar a mudar. Voltei para casa e podia jurar que por entre as casas sem graça e as pessoas apressadas, encontrei homens de olhos meigos, mulheres com asas de fada, crianças cantando, e até alguma alegria partilhada entre perfeitos desconhecidos.
Preparei-me para me deitar, não sem antes abrir um grande rolo de papel de cenário onde sonhei mais um conto para, de manhã, a cidade encantar...
Liliana




"Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"

"Utopia" de José Afonso