segunda-feira, agosto 23, 2010

Onde guardas os dias que passam, Zeca?

Nem sempre os dias que passam são passado. O vazio que fica de uma madrugada em branco também abafa a manhã que quer nascer num novo dia, escondendo-se atrás de sons, de pequenos nadas, que nos acordam para uma verdade que não queremos ouvir...

Não, nem sempre os dias que passam ficam no passado. Quantos e quantos forçam a entrada numa palavra embrulhada em memórias que nos obrigámos a esquecer quando fechámos a gaveta das águas passadas sem ver que, dos lados, a água fica sempre a escorrer...

Nem sempre os dias que passam ficam no passado. Adormecem, esmorecem, mas um dia normal como tantos os outros, agitam-se num quadro que se rasga e deixa entrar a maré que contínhamos numa praia deserta e invade a realidade como uma onda sem fim...

Nem sempre os dias são dias passados. Revivemos os anos numa espiral de lembranças, recortes de memórias, gritos abafados, que nos chegam duma planície alentejana onde aparentemente nada se passa e, no entanto, tudo se levanta.

Nem sempre os dias são dias passados. Arrumamos o estojo de primeiros socorros de palavras seguras e lugares perfeitos, levamo-lo connosco para tapar as feridas com um penso rápido, mas nem sempre elas ficam no dia que passa...

Liliana


"Nem sempre os dias são dias passados
A ver os restos dum porto de abrigo
Quando era pequenino era soldado
Os cartuchos punha-os dentro do umbigo

Às vezes faço de conta que acredito
Nas cantilenas que ouvi do meu avô
Andava deus menino com um apito
Já o meu avô me aceitava como eu sou

A história não se sente ultrapassada
Por muito menos meu avô era ganhão
A história tem uma gémea malcriada
Só elas são as passageiras do vagão

Era portanto descabida tanta importância
Por muito menos meu avô fazia estrilho
Quando era pequenino era ordenança
Os cartuchos punha-os dentro do umbigo"
José Afonso
"Nem sempre os dias são dias passados"

quarta-feira, agosto 11, 2010

Também tens medo, Sérgio?!


Enrolo novelos com os fios dos dias. Faço-os coloridos e redondos com a ponta solta, caso os queira um dia juntar. Depois arrumo-os na cristaleira da sala, empoleirados uns nos outros como brinquedos numa montra.

Sempre que me foge o fio das mãos assusto-me, pensando nos novelos que vou deixar de fazer. Então, como um felino atrás da presa, procuro por todo o mundo um novo fio que possa enrolar. E acabo sempre os encontrar, numa esquina de um sorriso ou ao fundo de um olhar. Contente, volto a casa e recomeço o meu trabalho enquanto admiro as prateleiras cheias de rolos às cores numa pirâmide mal montada.

À noite sinto-os inquietos, espreito devagar tentando perceber o seus lamurios. Sonham com vidas coloridas e pontas soltas, recordam os dias entrelaçados noutros fios em formas divertidas, choram pelas agulhas que lhes dariam vida... Calem-se! Grito do canto. Que mais querem vocês, se não estar a salvo do mundo, num novelo resguardado, amado e bem enrolado?! Ingratos! Bato com a porta da sala e volto para a cama zangada. Ao fundo a ladainha continua como um murmúrio sem fim. Finjo que durmo, mas não engano nem a mim mesma. Com os olhos abertos no escuro da noite sonho com vidas coloridas, recordo dias entrelaçados noutros braços e choro pelos que me dariam vida.

De manhã, sento-me à janela, olho para o dia que corre já no meio do trânsito e das crianças que saltitam em volta das mães apressadas e procuro o fio do dia. Agarro-o devagar para não o assustar e enrolo-o num novelo colorido do que poderia ser o meu dia vivido...

Um dia, igual a todos os outros, encontrei um fio escondido no vaso da janela da frente. Tentei agarrá-lo mas ele não se deixou apanhar. Também não fugiu como era costume acontecer, ficou suspenso nos troncos da árvore em frente, enquanto me desafiava a descer à rua e passear com ele. Que ideia tão parva! Disse eu. Para quê sair e correr os perigos da rua se podia viver ali enroscada num novelo colorido, espreitando pela janela como uma boneca na montra de uma loja, sempre bonita, sempre penteada, sempre a sorrir...

Nesse dia não enrolei nenhum novelo, mas também não corri o mundo à procura de um novo fio. Fiquei apenas sentada, espreitando o sem número de outros fios que se entrecruzavam, enrolavam, deslizavam, saltavam, rolavam, ali mesmo à minha frente. É verdade que não estavam tão limpinhos como os meus novelos, nem tão pouco a salvo de tristezas ou sobressaltos. Mas pareciam... vivos! Alegres ou tristes, com caminho ou sem ele, depressa ou devagar, eram livres e isso parecia ser-lhes suficiente para afastar o medo.

Olhei para trás, na cristaleira, empoleirados nas prateleiras os meus novelos coloridos pareciam uma triste imitação dos fios que lá fora corriam. Sem pensar bem no que fazia, abri a portas de vidro com moldura de carvalho e, um a um, tirei os novelos cá para fora. Espantados, não choravam nem resmungavam, estavam tão surpreendidos que apenas um silêncio imenso se ouvia em toda a casa. Enrolada num sonho, abri a janela e comecei a atirar os novelos que, como serpentinas de carnaval, se espalharam por toda a rua colorindo a cidade das mais improváveis combinações de cores.

Depois de todos libertos, procurei uma mala onde guardei duas agulhas de tricô, algumas roupas e um caderno em branco. Fechei a porta a tremer de medo, mas lá fora ouvia as vozes dos fios cantando. Foi embalada pelos meus novelos que me atrevi a sair pelo mundo sem medo. E, sem fios de segurança, avancei pela corda bamba no circo da vida.

Liliana



Eh! Meu irmão, o que é que tu tens
que tremes como um chouriço?
Eh, meu irmão que é que tens,
parece que viste bicho!
Um bicho vi, sim senhor
enroscou-se a mim e pediu-me amor
tinha corpo de mulher
cabelo encaracolado
beijou-me, apagou as luzes
e eu então gritei!
Ai, um bicho!

Eh meu irmão, que é que tens
estás branco que nem um nabo!
Eh, meu irmão, que é que tens,
parece que viste o diabo!
Vi mesmo, bateu à porta
disse que o povo estava na rua
e que a rua era do povo
que é p’ra quem ela foi feita
e o povo somos nós todos
e eu, então gritei:
Ai o diabo!

Eh, meu irmão, que é que tu tens
estás branco como o jasmim!
Eh, meu irmão que é que tu tens
o que é que te pôs assim!
Foi o medo da água fria
o medo da vida, o medo da morte
o medo da lua cheia
o medo da lua nova
o medo até de ter medo
que me faz gritar
Ai, que medo!

E assim com medo de tudo
perdeu meu irmão a vida
e assim com medo de tudo
viveu-a e não foi vivida
meteram-no num caixão
às duas por três, num dia de Verão
desceram-no p’ra uma cova
deitaram terra por cima
espetaram-lhe uma cruz
ita missa est
Amen

"Eh! Meu irmão" de Sérgio Godinho

segunda-feira, agosto 02, 2010

Vamos descansar, Zeca?

Congela os mares para que os barcos e as canoas e as lanchas não avancem nem mais um milímetro.
Congela!

Pára as ondas que batem incessantemente nas rochas e trovejam por toda a costa.
Pára!

Cala as crianças que gritam quando riem, quando choram, quando jogam à cabra-cega e quando não querem ir dormir.
Cala!

Não vires a ampulheta para que a areia sossegue e descanse num sonho eterno de deserto.
Não vires!

Arranca os ponteiros do relógio da igreja que não deixa impune a passagem do tempo badalando-o aos sete-ventos.
Arranca!

Apaga as estradas e os caminhos, as pontes e os caminhos-de-ferro para que cada um fique apenas onde está.
Apaga!

Tapa o Sol com um manto de estrelas, trás a lua se quiseres, mas deixa apenas a noite com a paz daquele momento em que estamos quase-a-dormir-acordados, embalados pela tranquilidade de nos sabermos ser/não sendo, apenas estando.
Tapa!

E deixa-me apenas descansar...
Liliana

"Água e pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Água das fontes calai
Ó Ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar"

"Balada do Outono" de José Afonso