quinta-feira, julho 15, 2010

Vamos passear no mar, Vinicius?

Assim floriram naquele dias as flores, vindas de parte nenhuma. Como elas, veio também o vento e a chuva. Sempre quando os outros menos esperavam. Não, não se sabia o porquê daquelas mudanças de maré, tão repentinas como insondáveis para a maioria.

Mas era assim, de quando em vez um botão atrevido espreitava na mais árida estrada. Apenas porque sim? Quem sabe por um sorriso, um cruzar de olhares internos que a mais ninguém interessava, que a qualquer outro seria indiferente. Uma brisa suave, uma memória, um toque ao de leve, pele com pele, que despertava um enorme éden florido só para e dentro de si. Cá fora, apenas uma tímida margarida branca abanando com o vento.

Dias havia em que todas as flores subitamente se fechavam e regressavam à terra sem deixar rasto. De repente? Sem mais nem menos? Quem sabe um enorme vendaval arrasara tudo por dentro, atirando sentimentos e emoções contra o sol, qual Ícaros derretidos escorrendo pelo quadro. Uma palavra, às vezes uma única, com o poder magnífico e assombroso da destruição interna. Cá fora, apenas um agitar repentino, um sobrolho franzido ou um tom mais brusco, às vezes um grito.

Ah! Mas sempre a imensa tranquilidade no rio, que corria para o mar. Apenas as suas tempestades, recolhidas, pareciam repentinas e desmedidas. O seu rio não tinha corrente capaz de as acolher. E os outros, braços de outras águas que se juntavam no decorrer do seu leito, corriam ao seu lado esperando uma constância impossível, sem perceber que o agitar da maré, por vezes, nada mais era que um escape necessário, capaz apenas de fazer rodar o cata-vento em cima do telhado. Por dentro um suspiro, um alívio de tensão, um descontrair de ombros.
Assim se levantaram as marés naquela tarde, sem grandes ondas ou vendavais, apenas um agitar de água, tão repentina e insondável para a maioria.

Liliana


"Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela, a menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
Caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado
É mais que um poema
É a coisa mais linda
Que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo
Se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela, a menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
Caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado
É mais que um poema
É a coisa mais linda
Que eu já vi passar
Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo
Se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor
Por causa do amor
Por causa do amor
Por causa do amor"
"Garota de Ipanema" de Vinicius de Moraes

terça-feira, julho 13, 2010

Vamos brincar com as nuvens, Gilberto?

Veio numa nuvem colorida. Quando pousou ninguém sabia se traria bom ou mau agoiro. A figura alta e pouco definida deixava espaço para todas as leituras, para quaisquer projecções. Em pouco tempo toda a aldeia se viu envolvida naquele laranja-amarelado que desfigurava as árvores e iluminava até os mais recônditos esconderijos.
As crianças juntaram-se na praça, em frente à nuvem, deslumbradas com aquela visão tão estranha e poderosa, capaz de fazer entrar em casa todos os adultos, por maiores, fortes e resmungões que fossem. Na verdade, para eles a aparição era claramente algo de bom, pois viera do céu e enchera a aldeia de cor e, por isso, brincavam com as suas sombras formando imagens novas e criando cenários impensáveis.
A figura dentro da nuvem laranja-amarelada parecia brincar com eles. Girava e dançava no ar ao ritmo das correrias e cantilenas infantis que os pequenos gritavam. Não disse nem uma palavra durante todo o tempo em que ali esteve, mas partilhou um sentimento que se expressou numa narrativa conjunta, uma espécie de peça de teatro improvisada no meio de uma história que se escrevia com as palavras indizíveis de cada um.
O sol brilhou enquanto assistiu a todo o espectáculo que se desenrolava na praça da pequena aldeia. Já os adultos, fechados em casa, projectavam todos os medos que cabiam dentro de uma nuvem vinda do céu com uma figura alta e pouco definida.
Quando o sol finalmente se encostou à linha do horizonte, a nuvem laranja-amarelada desapareceu no céu com a mesma imprevisibilidade com que tinha aparecido naquela manhã. As crianças, exaustas da brincadeira, voltaram a casa enquanto os adultos, ainda desconfiados, se atreviam vagarosamente a sair e espreitar a rua.
Nada disseram as crianças do que se passara ou sobre o que era aquele ser, por mais que pais, tios e avós tentassem saber. Tudo o que se disse e contou pelas aldeias vizinhas foram meras conjecturas criadas por quem não teve a ousadia, a coragem para sair à rua e experimentar a novidade, a diferença, o inesperado...
Liliana



"A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia

Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado"
"A novidade" de Gilberto Gil

domingo, julho 04, 2010

Diz-me o que vês no espelho, Chico?!

Diz-me espelho, diz-me o que vês do lado de cá das águas?
Dias há em que vês a sombra de algo que está para ser ou que já foi um dia, uma sombra sem corpo, sem forma certa, mas que caminha como quem busca o seu Peter Pan.
Nas noites escuras podias jurar que vês brilhar uma luz, pequenina, que te embala e te inspira, como um farol longínquo que guia os barcos perdidos no oceano até bom porto, riscando o caminho seguro pelas ondas e marés.
Nas tardes frias de inverno ofuscam-se as águas e tudo fica baço, pouco definido, inconstante, queres ver quem lá está mas os olhos estão vazios, sem voz e, por isso nada vês neles que valha a pena espelhar.
Mas quando o Sol se levanta nas planícies alentejanas, descobrindo o manto da noite e deixando a nu a enorme linha do horizonte, a luz que te enche é uma força que se faz palavra e intenção e emoção e gesto num só sorriso.

Diz-me espelho, diz-me o que vês do lado de cá das águas?
Verás o castelo de areia em que me refugio durante as tempestades?
E a muralha de dominó que vou erguendo em volta dos meus sonhos para que não caiam das nuvens e se estatelem no chão, também vês?
E estas tintas com que me pinto para cumprir o papel certo, sem sair do guião?
Verás ainda, depois de tudo isto, os olhos que te olham esperando resposta?

Diz-me espelho, diz-me se sou eu quem vês quando espreito do lado de cá das águas?

Liliana


"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida"


"Beatriz" de Chico Buarque