sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Sabes Sérgio?...

Sabes?...
Do lado de cá do arco-íris os dias são lindos, o sol brilha e a temperatura é, nem quente nem fria, boa para correr pelos campos e mergulhar nos rios, mas também para vestir um casaco macio e enrolar-me numa manta enquanto leio um livro. Os sapatos são todos vermelhos e os caminhos estão todos por descobrir.

É que sabes?...
Do lado de cá do arco-íris tudo é peneirado por um filtro de mil cores e eu, protegida das intempéries, vivo tranquila a paz que me permito e a alegria que a mim mesma ofereço dia-a-dia-a-dia-a-dia pelo meio das noites em que me dou o prazer de ser, simplesmente, eu mesma.

Porque, sabes?...
Do lado de cá do arco-íris conheço bem o desenho da estrada que construo com tijolos amarelos, feitos das emoções, afectos e vivências que me encontram. Entendo-lhe o sentido e não duvido do horizonte para onde caminho, porque ele é claro e está sempre iluminado pelas cores que me pintam a alma.

Por isso, será que sabes?...
Do lado de cá do arco-íris as palavras voam livres e constroem histórias que vivo sempre que me apetece, ou que esqueço se me entristece, ou ainda que guardo se o dia certo não me parece.


E então, sabes?...
Do lado de cá do arco-íris só chegam as mensagens que, dentro de garrafas são atiradas ao mar com muito amor e, (somente) quando a maré o permite apraiam deste lado, rolando pela areia depois de coloridas por um filtro de mil cores. Essas, trazem sempre palavras de paz, alegria, cumplicidade, amor, acolhimento e disponibilidade, que misturam na terra amarela e se tornam tijolos que uso, mais tarde, em forma de contos com que prolongo a minha estrada.

Se eu estivesse desse lado, talvez te dissesse que nem sempre me sentiria no caminho certo, real ou coerente comigo.
Se eu estivesse desse lado, talvez te contasse que algumas palavras que me encontram me poderiam ferir, magoar ou até fazer duvidar de mim mesma.
Se eu estivesse desse lado, talvez te sussurrasse que os dias tristes se seguiam e sucediam sem que encontrasse as minhas histórias para viver.
Se eu estivesse desse lado, talvez até te mostrasse que, por vezes, não encontraria os sapatos vermelhos e me perderia no meio de tantos caminhos já acabados mesmo antes de começados.


Mas sabes?...
Como estou do lado de cá, digo-te apenas que as palavras minhas são também tuas, se tu as quiseres. Que as histórias que vivo podes viver também, se assim o escolheres. Que os tijolos que recolho podes recolher também, se o desejares. Que o caminho que faço podes fazer também, se sentido lhe encontrares.


Mais que tudo, sabes?...
É deste lado que escolho viver, sonhando uma história que conto em forma de tijolos amarelos com que desenho uma de estrada que percorro de sapatos vermelhos e palavras soltas!
Liliana

"Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
Por via das dúvidas saber o que achar

Dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar

Ai, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão
morrendo, vivendo, dormindo,
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar

Sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar

Dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro subir e pousar

Ai, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão
morrendo, vivendo, dormindo,
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar"

"Talvez que sonhando" de Sérgio Godinho

(in Invasões Bárbaras e Domingo no Mundo)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Os teus olhos também vêem?!

No mundo em caracol dos papeis e burocracias do dia-a-dia, entrei numa sala grande cheia de cartazes sorridentes prometendo solução a todos os males, um deles, com uma cara simpática que parecia falar directamente para mim, dizia "Nós reclamamos por si". À minha volta as muitas pessoas conversavam, subiam, desciam, entravam, saiam, perguntavam, passavam... sem nunca chegar a olhar para fora de si.

Tirei a senha e esperei... esperei que me atendessem, que ouvissem a minha história, que me dissessem o que fazer para resolver a questão...

No caracol dos papeis e burocracias disseram-me para subir ao andar de cima. Entrei numa sala pequena com cadeiras a toda a volta, uma televisão pendurada no tecto e um letreiro luminoso onde se seguiam conselhos de bem viver "Controle o colesterol", "Mantenha-se calmo", "Se conduzir não beba", "Aguarde em silêncio" alternando com uns efeitos coloridos que piscavam como foguetes ou chuvas de estrelas.

Tirei a senha e esperei... Esperei que me chamassem, que me deixassem contar a minha história e, já agora, que me explicassem como resolver a questão...

No caracol voltei a descer, depois de me dizerem ali não me podiam ouvir, nem ajudar. Assim parti em busca de um papel que se perdera na burocracia das escadas e das salas e dos cartazes. Na sala grande e barulhenta voltei a tirar uma senha, sem grande convicção de que seria a mais adequada.

Encostei-me à parede e pouco tempo depois descobri os únicos olhos que olhavam para além de si mesmos. Olhei para eles e sorri, perguntei-lhes se, acaso, sabiam o que tinha de fazer para que me atendessem, ouvissem a minha história e me dissessem o que fazer para resolver a questão. Eles sorriram e vieram ter comigo por entre as muitas pessoas que conversavam, subiam, desciam, entravam, saiam, perguntavam, passavam... sem nunca chegar a olhar para fora de si.

Conversámos apenas dois minutos que pareceram duas horas e em que eles, os olhos que olhavam para além de si mesmos, me disseram que já me tinham visto chegar, tirar a senha e esperar, subir e novamente descer. Disseram-me que logo que me viram perceberam que não era dali, ou daqui deste mundo em caracol onde os olhos não vêm para fora de si, que tudo se resolveria, que a senha não era aquela, que a sala certa era mais acima e que não desistisse. Disseram-me que não estava sozinha, que há no mundo mais olhos, desses que quebram barreiras e saltam fronteiras. Respondi-lhes que o meu olhar se sentia perdido e eles lembraram-me que "o essencial é invisível aos olhos" e sussurraram-me que, pelos meus olhos, se via que eu conseguia ver com o coração.

Antes de me ir embora, depois de subir novamente no caracol, encontrar a sala, contar a minha história e, finalmente trazer o papel para resolver a minha questão, os olhos agora meus amigos chamaram-me e contaram-me que no mundo há uma lei universal que diz que o bem que fazes aos outros virá ter contigo, mais cedo ou mais tarde. E que eles já sabiam que, se eu quisesse, o meu olhar podia ser janela para novos horizontes a que outros olhos se puderiam também abrir...

Guardei o papel, abracei aquele olhar e, de olhos bem abertos, sorri enquanto saía do caracol agradecida por me ter apresentado aqueles estranhos, mas sábios, olhos.


Liliana




"Os teus olhos, negros, negros
São gentios, são gentios da Guiné
Ai da Guiné, por serem negros
Da Guiné por serem negros,
Gentios por não ter fé"

Canção popular
(tocada e cantada pelo meu avô em todas as reuniões familiares)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

E se eu fosse às cores, também gostavas de mim?!



"- Mãe, se eu fosse verde às bolinhas azuis... gostavas de mim?" Perguntava a menina enrolada como um gato no colo quente da mãe que, tricotando camisolas dum novelo colorido onde escondia as desilusões, respondia tranquilamente "- Claro filha!"

Mas a menina, que via o novelo rodar à força das agulhas que lhe puxavam a linha e desvendavam as mágoas mesmo antes das enlaçar e enfeitar em casacos e cachecóis e camisolas e coletes, a menina sentia falta de cor nas respostas da mãe. E, enrolada no colo dela, como um gato em frente à lareira nas noites de tempestade, tornava a perguntar "- E se eu fosse... amarela com riscas pretas, ainda gostavas de mim?" A mãe sorria com o esforço das combinações ora fora de moda ora ora criativas das possíveis peles da menina, e com uma festa pelas costas do gato enrolado que ronronava ao toque, dizia sempre com a mesma paz "- Claro que sim, filha!"

A menina cresceu e as camisolas foram deixando de lhe servir, as linhas do novelo que trazia ao pescoço nos lenços e cachecóis foram perdendo a cor e, aos poucos, ela pensou-se cinzenta, ou branca, ou preta ou, quem sabe, amarela, mas de uma cor só, como todos, como os outros que a rodeavam e sorriam e brincavam e, pelo menos, pareciam felizes.

Então a menina vestiu esta pele e entrou na vida contente por ser igual, por se sentir segura, por não estar só como uma gato enrolado em frente à lareira nas noites de tempestade.

Mas havia uma coisa que a intrigava, algo que lhe fazia o coração bater mais forte e as pernas quererem voar e a cabeça, essa, querer imaginar... De quando em vez, sem conhecer bem a razão, a menina olhava para o céu e, por entre um amontoado de nuvens cinzentas, algo mágico cintilava, um arco colorido que unia dois pontos tão distantes como indiferentes, um mundo de cor que acordava nela um resquício de esperança e medo misturados numa tela de incerteza e inquietação.

Um dia a menina, espantada com esta cor que aparentemente a maravilhava só a ela, decidiu despir as roupas que trazia e, em frente ao espelho, foi descobrindo uma a uma as cores do arco-íris estampadas no seu corpo. Em riscas, em bolas, em efeitos estranhos, por toda a pele dela as cores, que tanto temera em pequena, invadiam todo a possibilidade de voltar a ser cinzenta, ou branca, ou preta ou, quem sabe, amarela, mas de uma cor só, como todos, como os outros que a rodeavam e sorriam e brincavam e, pelo menos, pareciam felizes.

Então, numa noite de chuva, a menina já grande já crescida já adulta, enrolou-se no colo da mãe, como um gato em frente à lareira nas noites de tempestade e, enquanto a mãe dobrava as camisolas e os vestidos que ela própria fizera de novelos que coloria com as cores da sua pele, perguntou baixinho "- E agora, que eu sou verde e azul e rosa e lilás e preta e amarela e laranja e vermelha e de tantas outras cores... quem poderá gostar de mim?"

Liliana Lima





"Somewhere over the rainbow"

(Num post já antigo aqui no Curvas... http://acurvadasletras.blogspot.com/2007/01/wizard-of-oz-ao-j.html)