sexta-feira, dezembro 11, 2009

Vem ver a neve no meu jardim, Al Berto...

Ontem nevou no meu jardim.
Nevou uma neve feita de folhas secas que cobriram o chão e os carros e os escorregas e os jardins, sem deixar nada do lado de fora do manto amarelo escuro.

Ontem nevou no meu jardim.
Até o coreto se vestiu de folhas para dançar ao ritmo do vento que abanou os ramos que soltaram as folhas que voaram até ao lago que enfeitou os peixes.

Ontem nevou no meu jardim.
E as crianças divertiram-se saltitando entre os montes amarelos que um pouco por todo o lado se construíram e desmoronarem num frenesim de risos e saltos.

Ontem nevou no meu jardim.
Das janelas vi chegar a noite que acalmou o vento e deixou assentar as folhas-flocos de neve bordando um tapete amarelo sob a paz das janelas apagadas.

Ontem nevou no meu jardim.
Uma neve que não faz bonecos mas que alegrou a criançada e acordou uma memória nostálgica, e talvez apenas sonhada, de outros invernos com paisagens diferentes e natais enfeitados de um branco que, na verdade, nunca nevou nos meus muitos jardins.

Ontem nevou no meu jardim e a neve amarela pernoitou comigo num sonho de inverno, guardado pelos olhos meigos da lua.

Liliana



"pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes"

"Pernoitas em Mim " de Al Berto,
in 'Rumor dos Fogos'

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Vamos falar de amor, Pedro?!

- Estraguei tudo! Perdi a oportunidade... Pronto, acabou-se! Sou tão ridícula...

Disse-me ela desolada enquanto se derramava no sofá como uma manta estendida ao sol sobre o chão de relva ondulado. Tentei argumentar, "ridículos somos todos, lembras-te do Fernando Pessoa?!", "não há oportunidades perdidas", "vê as coisas como caminhos onde só vamos aprendendo onde pôr os pés conforme avançamos"... Tentei argumentar mas ela nadava em círculos dentro de si, fazendo pouco caso das interferências externas ao seu pensamento.

- Não, estraguei tudo! Essa é que essa. Oportunidades como esta são mínimas e eu faço sempre figuras tristes... Parece que me fecho numa caixa e só deixo de fora um outro personagem que não sou eu... Engasgo-me, digo disparates e sou tudo menos eu própria...

Derramada sobre o sofá remoía as cenas, recuando a película da memória vezes sem conta, arrependendo-se de cada palavra dita e de cada sorriso não dado. Era claro para ela que não havia nada a fazer, o comboio partira e a oportunidade tinha sido desperdiçada pela sua incapacidade de reagir de forma não ridícula... Nadava em círculos nas águas viciadas do rio das suas expectativas.

Como o sol que acorda manhã após manhã convidando a lua a mudar de quarto, assim as oportunidades se seguem, mais ou menos ritmadas, mais ou menos de acordo com os nossos desejos e, de forma mais ou menos inesperada, surpreendem-nos ao virar a esquina de uma qualquer hesitação.

Numa monótona tarde de chuva, entrou num repente pela sala, atirou-se para o sofá como manta estendida ao sol e descreveu-me as suas desventuras... a forma desastrada como o seu corpo se comportara, a quantidade de vezes em que gaguejara no meio duma frase banal, a cor exagerada com que as suas bochechas respondiam aos olhos que com os dela pareciam conversar, a consciência da sua figura ridícula que a invadira desde o primeiro minuto...

- Estraguei tudo! Desta é que foi!

Não tentei argumentar... Antes ouvi-a atenta e dei-lhe o colo que me pedia. Derramada sobre o sofá, nadava em círculos dentro de si, enquanto eu, sentada na margem das águas, sorria para dentro na certeza de que o sol, amanhã, se tornará a levantar convidando a lua a mudar de quarto...

Liliana Lima




"Ó vizinho, ora bom dia
como vai a saudinha?
eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e este tempo?
a chuva dá pouco alento...
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e o carteiro?
que se engana no correio...
e eu não sei falar de amor...

E soubesse eu artifícios
de falar sem o dizer
não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer...

A timidez ata-me a pedras
e afunda-me no rio
quanto mais o amor medra
mais se afoga o desvario...

E retrai-se o atrevimento
a pequenas bolhas de ar
e o querer deste meu corpo
vai sempre parar ao mar

Ó vizinho e a novela?
será que ele ficou com ela?
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e o respeito?
não se leva nada a peito...
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho então Adeus
vou cuidar de sonhos meus
que eu não sei falar de amor..."

"Não sei falar de amor" de Pedro da Silva Martins
(dos Deolinda)

quinta-feira, novembro 19, 2009

Contas-me uma história, Mia?!

Há um Conto que me tem perseguido nestes últimos tempo. Aliás, desde que tropecei nele parece que se me colou à pele, anda atrás de mim como uma sombra que, conforme a orientação do Sol ora me antecede ora me persegue, mas não me deixa esquecer que está ali...

Andei meio perdida, sem perceber muito bem o que ele queria comigo. É que ser "assombrada" por um Conto pode ser muito imcomodativo, principalmente quando ele descobre o caminho para as nossas ideias e as invade com as suas palavras, frustrando qualquer tentativa de pensamento estruturado e aparecendo nas alturas menos apropriadas, como no meio de uma conversa com a velhota do andar de cima que me pedia para apanhar o pano da loiça que lhe caiu quando o estendia e se enrolou, confortavelmente na minha corda da roupa.

Um dia, cansada com a intrusão e já sem saber o que fazer, resolvi sentar-me na sala, abrir o livro na página certa, e olhá-lo olhos nos olhos. Deixei-o sair com calma sem o interromper, e no meio das entrelinhas (porque os contos, os bons contos estão recheados dessas mensagens subliminares que vivem nas entrelinhas e só se mostram aos mais atentos) lá entendi que o me pedia.

Falava tranquila e pausadamente, sentado no sofá em frente de pernas cruzadas. Repetia cada frase de varias formas diferentes, como quem fala com uma criança. Foi-se tornando claro que falava tanto dele como de mim, chamava-me irmã, personagem de um grande conto que, não cumprindo o seu papel, deixara toda a acção suspensa num limbo temporal. (Sabem que a função dos Contadores de Histórias é libertar contos, ajudá-los a seguir caminho - livres, espalhá-los como quem lança sementes ao vento...). E, lançando assim as palavras em forma de bombas que rebentavam dentro de mim e ecoavam pela sala, foi-se deixando apagar, voltando para o livro onde, confortavelmente, se instalava de novo nas imagens e personagens e figuras de estilo de Mia Couto.

Fiquei muito tempo sozinha na sala, com o livro no colo, aberto na página certa, e o conto ao fundo da sala, olhando para mim pelo "rabinho do olho" enquanto se misturava com lembranças de outras histórias que dançavam alegres dentro de mim.

Levantei-me num remoinho de palavras soltas que saltitavam dos fios condutores das muitas histórias que me assaltavam a memória. Peguei em cada uma com muito cuidado para não as magoar, e enrolei cada história num novelo colorido que guardei no baú da imaginação. Tinha pressa, não queria demorar (são assim os Contadores de Histórias, lentos no processo de identificação, mas impacientes assim que sentem um conto "re"nascer em si), tinha um Conto para libertar e o mundo inteiro a quem o contar...
Liliana Lima
"(...)
- Posso pedir uma qualquer coisa?
- Peça.
- Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia.
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
- É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís.
(...)"
"O Homem da Rua" de Mia Couto