segunda-feira, outubro 12, 2009

E se... Pedro?!

"E se"? pergunto-me a mim própria...

"E se" aquele que vejo fugir e esconder-se de mim, na verdade, mais não estivesse do que a fugir de si mesmo? Procurando as suas respostas numa verdade pouco clara para ele próprio, ou simplesmente escondendo a cabeça na areia para não ver qualquer claridade...

"E se" a voz que oiço arranhar-me e magoar-me num lamento impensável, mais não estivesse que cantando um novo hino, uma nova melodia? Quem sabe na tentativa de acompanhar o meu próprio ritmo, a minha própria canção...

"E se" o silêncio que me assusta, e me escurece as palavras e me isola no canto mais escuro da casa, mais não fosse do que a tentativa desesperada de entender o meu rumo? Esperando assim não criar ainda mais distância duma realidade, talvez, difícil de entender...

"E se" os gritos que ecoam em mim como ameaças desconhecidas com o poder de tudo derrubar, mais não fossem do que chamadas de atenção. Qual cria no ninho que chama os pais do seu voo distante em busca de alimento...

"E se"? pergunto a mim própria...
"E se" conseguíssemos verdadeiramente parar a realidade sempre que a sentimos fria ou triste ou injusta ou estranha ou desconexa? Seriamos capazes de a olhar de fora, recolocar cada adereço, reajustar o volume, rescrever as palavras, refinar a imagem, reorganizar as ideias e redefinir os sentimentos para, por fim, redescobrir a forma de a viver?


Liliana Lima



"Não é preciso que a realidade exista
para acreditarmos nela. Na verdade,
se não existir tudo é mais luminoso.
Mundo, evidência submissa e soberana."

"Não é preciso" de Pedro Mexia
in "Duplo Império"

quinta-feira, outubro 08, 2009

Tu sabes António, não sabes?

Eu não sei se eles sabem, ou mesmo se sonham. Mas eu sinto-o com tanta força em todo o corpo que chega a doer de tantas sirenes que me gritam aos ouvidos cada vez que, por momentos, me afasto desta certeza.

Eu não sei se eles sabem e nem perguntei se sonham. Mas a mim é-me tão claro como o sol do meio dia em plena primavera que mergulha devagar nas águas do Tejo e abraça Lisboa até ao lusco-fusco.

Ah! se eles soubessem, com certeza que sonhariam o mesmo sonho que joga comigo às escondidas por entre as ruas e as escadas e os jardins e as janelas e os pátios de onde se avista o rio, fazendo-me perder o fôlego numa correria infantil atrás do arco-íris que brilha dentro de uma bola de sabão.

Eu não sei se eles sabem e até nem me importa saber se sonham. Mas tu, tu que me lês desse lado da folha, diz-me. Tu sabes não sabes? Tu sentes este movimento perpétuo que avança por nós fora e nos impele e nos inspira e nos empurra e nos revela o que afinal há tanto tempo já sabíamos?

Eu não sei até onde é que eles sabem nem com o que é que sonham. Mas tu, tu que me lês os sonhos escritos onde o sorriso me denuncia e o brilho dos olhos me expõe e o tom de voz me mostra nua de adereços e máscaras, diz-me. Tu também sonhas e te perdes no sonho como se uma onda que te leva a um mundo distante e por lá te deixa numa correria infantil atrás dos arco-íris que brilham dentro das bolas de sabão?

Liliana Lima


"Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem
sonha o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

"Pedra Filosofal" de António Gedeão
in 'Movimento Perpétuo'

quinta-feira, outubro 01, 2009

Não tenhas medo, Manuel

Dou voltas sobre mim à procura de uma mão para agarrar antes de saltar, e por fim é também a minha que me toca de mansinho, calma estou aqui, maternal, está tudo bem, meiga, tu consegues. Aperto-a com força e fecho os olhos enquanto me aproximo da linha que divide o aqui do ali, o certo do desconhecido, o seguro do até agora ainda só sonhado e esbarro numa parede de medos e receios.

Eu, que acredito no arco-íris que me aponta a estrada que me mostra a estrela que baloiça as árvores de onde crescem as palavras que voam ao vento que espalha as sementes que acordam os sonhos que acendem o arco-íris... Eu, parada no medo e a parede a avançar... calma estou aqui, aperto ainda mais as mãos e fecho novamente os olhos à procura das cores...

Eu, que me sirvo da palavra sem correntes nem amarras para com ela voar e num esgar de liberdade a multiplicar por mil olhares que valem muito mais que todas as imagens do mundo a rodar num ecran de pano branco... Eu, a esbarrar no medo e na parede... está tudo bem, uma tranquilidade que se impoem e as palavras a dançar à minha volta numa cantiga de roda...

Eu, que sinto as histórias vivas a sussurrar aos meus ouvidos, a pedirem para serem contadas na minha voz e vividas no meu corpo e acreditadas no mais íntimo de mim, obediente, deixando-as tomar o castelo e atacar os moinhos ao mesmo tempo que as conto ao mundo ao abrigo das cumplicidades que nascem dos olhos e se espalham pelo ar... Eu, imobilizada com a ideia do vazio... tu consegues, uma certeza tímida que espreita por trás da chuva e lembra o sol de verão...

E eu, que sei que consigo, a duvidar, calma estou aqui, a hesitar, está tudo bem, a recuar, tu consegues, a parar... Uma brisa suave empurra-me, embala-me e recorda-me que eu sou eu, e que eu acredito no arco-íris, sirvo a palavra livre e sinto as histórias vivas! Dou-me novamente a mão e, com a ajuda do vento, retomo o caminho. Ao fundo, quase imperceptível, um arco-íris brilha sob o céu lisboeta...

Liliana Lima



"Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"

"O Medo" de Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"