quinta-feira, outubro 01, 2009

Não tenhas medo, Manuel

Dou voltas sobre mim à procura de uma mão para agarrar antes de saltar, e por fim é também a minha que me toca de mansinho, calma estou aqui, maternal, está tudo bem, meiga, tu consegues. Aperto-a com força e fecho os olhos enquanto me aproximo da linha que divide o aqui do ali, o certo do desconhecido, o seguro do até agora ainda só sonhado e esbarro numa parede de medos e receios.

Eu, que acredito no arco-íris que me aponta a estrada que me mostra a estrela que baloiça as árvores de onde crescem as palavras que voam ao vento que espalha as sementes que acordam os sonhos que acendem o arco-íris... Eu, parada no medo e a parede a avançar... calma estou aqui, aperto ainda mais as mãos e fecho novamente os olhos à procura das cores...

Eu, que me sirvo da palavra sem correntes nem amarras para com ela voar e num esgar de liberdade a multiplicar por mil olhares que valem muito mais que todas as imagens do mundo a rodar num ecran de pano branco... Eu, a esbarrar no medo e na parede... está tudo bem, uma tranquilidade que se impoem e as palavras a dançar à minha volta numa cantiga de roda...

Eu, que sinto as histórias vivas a sussurrar aos meus ouvidos, a pedirem para serem contadas na minha voz e vividas no meu corpo e acreditadas no mais íntimo de mim, obediente, deixando-as tomar o castelo e atacar os moinhos ao mesmo tempo que as conto ao mundo ao abrigo das cumplicidades que nascem dos olhos e se espalham pelo ar... Eu, imobilizada com a ideia do vazio... tu consegues, uma certeza tímida que espreita por trás da chuva e lembra o sol de verão...

E eu, que sei que consigo, a duvidar, calma estou aqui, a hesitar, está tudo bem, a recuar, tu consegues, a parar... Uma brisa suave empurra-me, embala-me e recorda-me que eu sou eu, e que eu acredito no arco-íris, sirvo a palavra livre e sinto as histórias vivas! Dou-me novamente a mão e, com a ajuda do vento, retomo o caminho. Ao fundo, quase imperceptível, um arco-íris brilha sob o céu lisboeta...

Liliana Lima



"Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"

"O Medo" de Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

segunda-feira, setembro 28, 2009

Ajudas-me a traduzir o silêncio, Mia?


Levanta um bocadinho mais o véu, que assim só vejo esgares que nada me dizem.
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não fecharei os olhos para nada fugir na corrente das horas!
Nestas entrelinhas, que de lupa na mão leio e releio tentando descodificar a própria matriz, não te encontro, não te reconheço, não te aprendo. Apenas me perco mais e mais.

E se, decidida por fim a revelares-te-me, aparecesses como o sol que cintila no rio ao cair da tarde em Lisboa?
Conseguiria reconhecer-te no meio de tantos recortes encriptados que envias desse longínquo farol nas noites de lua nova?
Conseguiria sentir-te real, dar-te a mão e, por fim, descobrir-te tão igual?

Como poderia então, assim somente com um mapa de caminhos nunca antes navegados, encontrar-te perdida da tua estrada?
Como poderia então, com apenas uma fotografia de imaginação feita, saber-te do outro lado da rua, cantando cantigas de amigo?

Levanta um bocadinho mais o véu, que os traços misturam-se e não te consigo desenhar o rosto, límpido, nítido, genuíno...
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não respirarei para que o bater do coração não apresse o desenrolar da fita!
Nestas entrelinhas em que me enrolo, já não sei onde acabas e começa a figura que compus de ti, embebida nas linhas que vou tecendo dos silêncios em que penso que te oiço, nos vazios onde, juro! te vejo...
Liliana Lima





Nunca escrevi
sou
apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

de Mia Couto

quarta-feira, setembro 23, 2009

Não chegues tarde Fernando...

Cheguei tarde, mas ainda fui a tempo de não perder espectáculo. Sentei-me numa sala em anfiteatro com uma espécie de palco iluminado ao centro, o efeito das luzes fazia com que tudo o que não estava debaixo do foco se misturasse numa neblina escura onde não se distinguiam as formas de cada um. Subi alguns degraus com dificuldade e acabei por me sentar na cadeira vaga mais próxima. Os pontuais, aqueles que já estavam sentados, deixaram-me passar provocando uma onda à medida que eu avançava em direcção ao meu lugar.

Sentei-me e logo que me encostei pareceu-me ter ficado sozinha na grande sala. O escuro à minha volta como que apagava o rasto de qualquer vida. Respirei fundo e esperei pelo início da acção que tardou. Sem nada para ver para além dum palco vazio e um vazio escuro, perdi-me no meio das palavras que saltitavam no meu pensamento sem me demorar em nenhuma. Flutuei pelo dia que passara, pela semana que ia a meio, pelo mês que acabava de começar, dei um salto aos dias que se avizinhavam cada vez mais próximos e acabei por me perder nos corredores da minha história.

Sentada também sozinha no meio de um pátio estava uma menina de grandes tranças escuras, brincava com outros alguéns que imaginava para se entreter enquanto a banda sonora tocava os fabulosos Yes com um fundo de amargura e desentendimento. Uma figura alta e esguia andava em círculos à volta da menina lendo passagens de livros ao acaso que ia atirando pelo ar como se bolas fossem. Enquanto a menina o seguia divertida, o cenário em que andavam mudava de acordo com o livro que era lido. Ruas desertas em cidades inexistentes e grandes moinhos que se transformavam em baleias que frequentavam colégios internos para onde se ia apenas de balão para seguir até ao espaço e por fim tudo não ser mais do que uma horrível barata deitada numa cama de um pequeno quarto.

No meio do círculo onde a menina, de repente rapariga e novamente sozinha acompanhada de outros alguéns que imaginava para se entreter, continuava desenhando círculos, uma estrada amarela nascia e, em espiral, parecia segui-la. Os passos que dava avançavam e abrandavam ao ritmo da banda sonora, sempre com o fundo de amargura, que cantava agora palavras de ordem e hinos à medida que ela crescia. E crescia avançando à frente da estrada que a seguia. Pequenos arco-íris brilhavam de cada vez que ela se baixava como quem apanha flores invisíveis e as sopra espalhando fagulhas coloridas no ar.

A sala iluminou-se bruscamente e à minha volta as cadeiras e as formas e as pessoas que me rodeavam, como que nasciam envoltas numa nuvem de fumo saída de um cachimbo antigo, de uma garrafa esquecida, de uma fogueira ancestral, onde todos os sonhos se misturam com as memórias e dançam à volta do fogo.

"Já acabou?" Perguntei ainda atordoada com as luzes a uma das pessoas que se levantavam a caminho da saída. "Queria mais? Já foi muito para uma estreia! Na próxima semana traga uma música mais tranquila, pode ser?..."


Liliana Lima



"(...)
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal...
E a música atira com bolas
À minha infância...
E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... "

"Chuva Oblíqua" de Fernando Pessoa