domingo, agosto 09, 2009

Diz-me em que história estou, António...

Diz-me tu em que história estou, que eu assim de repente não me encontro na que pensei que estava a contar. Enrolo-me no fio condutor que desfio só para mim e perco-lhe a ponta. Como contar uma história sem saber onde começa?

Diz-me, diz-me tu que conto é este em que me encontro, que não pareço descobrir-me na personagem que declamo. Ao fundo as ondas morrem mansas na areia e as crianças saltitam indiferentes ao vento que sopra frio arrepiando as conchas esquecidas à beira-mar. Procuro o meu cenário, nesta história que supostamente devia contar. Como dizer uma história sem conhecer os seus personagens?

Diz-me, tu que me olhas como quem lê um livro, que história devia eu estar a contar? Aqui, no alto das dunas que se estendem sobre o horizonte como uma fotografia de um mar dourado, não me pareço com história nenhuma que valha a pena dizer ou explicar. Aqui, ao fundo desta lagoa que se confunde e mistura com o mar, não encontro o real da história que devia contar. Como cantar uma história sem lhe ouvir a harmonia que a sustenta e a mantém inteira?

Diz-me, vá diz-me, tu que me ouves ao fundo de todos como se só para ti falasse, que contos querias que te contasse? Aqui neste búzio partido de onde vejo o mar ao fundo, avançando e recuando como se comigo dançasse a valsa, não me lembro dos contos de embalar, dos contos que ajudam a sonhar. Escorrego numa onda que me embala e pergunto ao mar, afinal que conto devo contar?

Diz-me tu em que história estou, que eu assim de repente parece-me que me esqueci da história que estava a viver.
Liliana Lima





"Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
(...)"

"Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia"
de António Botto in 'Canções'

segunda-feira, agosto 03, 2009

Parabéns Zeca!

Zeca, ajuda-me a dizer-lhes da utopia. Dá-me as palavras certas, para contar-lhes da cidade onde respira, vivo, o sonho e a magia. Ensina-me o cântico verdadeiro para mostrar-lhes que é o nosso coração, com sinais de fumo, que orienta a nossa rota.

Eu sei Zeca, que o partilhar desse sonho é, também, o sentido do meu caminho. Eu sei Zeca, que o contar dessa história é, também, o vôo da minha gaivota. Eu sei Zeca, que o cantar dessa utopia é, também, parte do meu desafio.

Deixa-me dizer-te Zeca, que o meu conto parte de partes do teu canto. Deixa-me contar-te, que a minha história começa algures nas tuas. Deixa-me cantar-te a canção da minha utopia que, no fundo, rima sempre com a tua.

A força do sonho, o acreditar da utopia, o peso da palavra, a liberdade do canto, são pedras com que construo os redondos vocábulos que, a mim, me levam "lá para os lados do oriente"...


Liliana Lima





"Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa."

"Redondo Vocábulo" - Zeca Afonso
in "Venham mais cinco"

(Se fosse vivo, Zeca faria ontem, dia 2 de Agosto, oitenta anos)

segunda-feira, julho 27, 2009

Vem conversar comigo, Carlos...

Vem conversar comigo para que eu me oiça enquanto falamos e me entenda nas palavras que de mim saem.

Senta-te aqui bem pertinho, deixa-me embalar e ganhar confiança para me lançar. Depois conversa comigo, devagar, dando espaço para que eu me oiça bem.

Vem conversar comigo mas não fiques aí, espectador de um monólogo, ajuda-me a fazer as perguntas certas para que oiça as respostas que a mim mesma dou.

Senta-te aqui ao meu lado e fala tu agora, fala para que te oiças, pausadamente e com calma para que nenhuma palavra te fuja.

Vem conversar comigo que eu quero ouvir-te e na volta de cada frase perguntar-te o que perguntarias se contigo falasses.

Senta-te pertinho de mim para que consiga acolher cada palavra tua como se minha fosse, embalá-la e olhá-la de perto que "quem não vê olhos, não vê corações".

Vem conversar comigo para que, dando espaço às minhas palavras, abras caminho às tuas e, em conjunto, as vejamos voar e, por fim, oiçamos o que afinal nos querem dizer.

Senta-te ao meu lado e partilhemos palavras que é isso que os amigos fazem. Aprendamos um com outro a arte de repartir os silêncios certos, onde as palavras de cada um ecoam e se mostram despidas das entrelinhas que no barulho das luzes as deixam desfiguradas.

Liliana Lima




"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre,
e minha procura
ficará sendo minha palavra."
"A Palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'