terça-feira, julho 21, 2009

O tempo passa, Vinicius...

Havia três relógios na parede castanha ao fundo da sala, por cima da grande lareira. Um grande, com um aro prateado, fundo branco e os ponteiros finos, brilhantes. Outro robusto, com moldura de madeira e ponteiros largos, precisos. Por fim um mais pequeno, quadrado e fundo vermelho ligeiramente descorado. A sala era ampla, marcada pela lareira ao meio da parede do fundo pintada de castanho, que centralizava toda a atenção como um enorme umbigo. Todos os móveis estavam como que virados para ela e até os relógios, os únicos objectos pendurados a toda a volta, pareciam prestar-lhe homenagem.

Eles entraram na sala subindo os dois degraus de madeira que partiam de uma sala mais pequena à entrada. Escolheram uma mesa recatada, no canto, ao lado de uma janela com vista para o pátio. Ela olhou em volta e os seus olhos pararam na parede castanha com os três relógios. Os três funcionavam, mas estranhamente cada um marcava horas e minutos diferentes. Aquilo intrigou-a e por mais que tentasse, não conseguia abstrair-se dos ponteiros que avançavam aparentemente desordenados.

Conversaram sobre a lista, avaliaram os vários menus e decidiram-se por umas tostas e chá de menta. Pelo canto do olho ela ia espiando os relógios, como se esperasse uma falha ou um atraso por parte de algum. Sem conseguir esconder o interesse, acabou por chamar o empregado, impecavelmente vestido de branco com um avental também castanho e perguntou-lhe o porquê daquele desencontro de horas e minutos que tanto a baralhava. O empregado disse que não fazia ideia, e que tanto quanto sabia estavam assim desde sempre.

A questão parecia ter ficado por ali, ele que ainda nem tinha visto os relógios foi com ela até à lareira admirar os ditos, que alegremente continuavam a somar horas e minutos à desgarrada. Chegaram as tostas e o chá e eles voltaram para a mesa, inventando histórias malucas sobre os três relógios. Embora rindo e brincando com o assunto, a verdade é que ela não se conseguia afastar dos relógios e dos seus ponteiros desorganizados. Na verdade, e desde que entrara na sala, ela não conseguia pensar em mais nada a não ser nas horas e nos minutos que por ela passavam.

Sem saber bem como ou porquê, pareceu-lhe ver imagens de dias passados projectados nos vidros da janela. Conversas que tivera com ele intrometeram-se por entre as chávenas e o bule do chá. Sonhos e promessas que partilhavam saltaram por detrás do sofá jogando às escondidas com ela. Estava tonta, sentia-se baralhada, o tempo dela parecia ter-se soltado com os ponteiros dos três relógios. Aos poucos deixou de saber qual dos tempos era o real, se o que projectado que invocava o seu passado, se o que saltando pela sala lembrava os seus projectos de futuro. Quem era ela ao certo? Aquilo que escolhera, que fizera, que dissera ontem, há dois anos, há dez? Aquilo que, em conjunto com ele ou na paz do seu íntimo, imaginava para os dias que hão-de vir? No meio das horas que dançavam à sua volta, perdeu o seu fio-condutor, aquela linha do horizonte pela qual se alinhava como uma bússola que lhe indicava o norte (o seu norte).

Saiu correndo da sala, como quem precisa de ar para respirar e só passado algum tempo se sentiu novamente dona do seu tempo. Então percebeu que é sempre possível voltar atrás e olhar as escolhas que fizemos, à luz de um momento quiçá tão diferente do actual. Então percebeu que o importante não são os sonhos que projectamos no horizonte como uma meta a alcançar, mas a forma como vamos vivendo os dias que passam até lá chegar. Então percebeu que o tempo não corre atrás de nós, antes segue connosco numa aventura onde o importante é consegirmos ser apenas nós próprios.

Liliana Lima




"Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia"

"O relógio" de Vinicius de Moraes

sexta-feira, julho 17, 2009

Regressas no tempo, Casimiro?

Imagino um grande baú onde guardo o que a vida me trás nas ondas que na minha praia adormecem. Apanho os momentos e as lembranças, quais pedras preciosas com que enfeito as janelas.

Sais a correr do tempo que já passou. Sais a correr e paras no agora, mesmo a tempo de me encontrares no tempo que ainda há-de vir. Por pouco não te reconheço... Foi o tempo que passou que te mudou o reflexo, ou foste tu que passaste com o correr dos ponteiros?

Com muito cuidado abro o baú à beira mar e procuro os recortes em que te guardei. Entre risos e entrelinhas, sais num arco-íris de mil cores que falam de sol e do Tejo e me sussurram uma cantiga de embalar.

Passas por mim e olho-te com atenção. Vejo-te reflectindo o tempo que passou, aquele que é agora e o que ainda não começou. Afinal, com o cair da areia fina que marca o virar da ampulheta, também eu mudei.

Sentamo-nos à beira rio e reaprendemos a conversar. Já não precisamos de nos apressar, os ponteiros já não precisam de correr, a urgência perdeu-se no tempo.
Liliana Lima


(Foto de Nuno Lino Martins)


"O tempo a que sempre regressamos

e nos visita um instante

O tempo que depois destruímos

construímos e ali-

mentamos se nos

alimenta

O tempo onde a luz buscamos

e a morte sempre

encontramos"

"Tempo revisitado" de Casimiro de Brito

in "Mesa do Amor"

segunda-feira, julho 13, 2009

Porque fechamos janelas, João?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima




"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"
*(Foto) Janela de Gaudi - Barcelona