sexta-feira, julho 17, 2009

Regressas no tempo, Casimiro?

Imagino um grande baú onde guardo o que a vida me trás nas ondas que na minha praia adormecem. Apanho os momentos e as lembranças, quais pedras preciosas com que enfeito as janelas.

Sais a correr do tempo que já passou. Sais a correr e paras no agora, mesmo a tempo de me encontrares no tempo que ainda há-de vir. Por pouco não te reconheço... Foi o tempo que passou que te mudou o reflexo, ou foste tu que passaste com o correr dos ponteiros?

Com muito cuidado abro o baú à beira mar e procuro os recortes em que te guardei. Entre risos e entrelinhas, sais num arco-íris de mil cores que falam de sol e do Tejo e me sussurram uma cantiga de embalar.

Passas por mim e olho-te com atenção. Vejo-te reflectindo o tempo que passou, aquele que é agora e o que ainda não começou. Afinal, com o cair da areia fina que marca o virar da ampulheta, também eu mudei.

Sentamo-nos à beira rio e reaprendemos a conversar. Já não precisamos de nos apressar, os ponteiros já não precisam de correr, a urgência perdeu-se no tempo.
Liliana Lima


(Foto de Nuno Lino Martins)


"O tempo a que sempre regressamos

e nos visita um instante

O tempo que depois destruímos

construímos e ali-

mentamos se nos

alimenta

O tempo onde a luz buscamos

e a morte sempre

encontramos"

"Tempo revisitado" de Casimiro de Brito

in "Mesa do Amor"

segunda-feira, julho 13, 2009

Porque fechamos janelas, João?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima




"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"
*(Foto) Janela de Gaudi - Barcelona

terça-feira, julho 07, 2009

Sabes quem sou, Fernando?!

Ela acordou cedo. O dia estava alegre e a luz saltitava pelo quarto, brincando com os cortinados entre-abertos. Espreguiçou-se antes de se levantar e acendeu o rádio enquanto iniciava a delicada tarefa de escolher a indumentaria para o dia que ainda mal começara. Poderia ser um dia igual a tantos outros, mas na verdade, e apesar da aparente tranquilidade atmosférica, tudo naquele dia viria a estar bem longe da normalidade.

Foi ainda no duche, enquanto se ensaboava, que percebeu que lhe faltava algo. Despachou-se a enxaguar o corpo e saiu da banheira numa inquietação crescente. Correu para o quarto e, desdenhando a roupa que escolhera e que cuidadosamente colocara em cima da cama, abriu portas e gavetas, revoltou as prateleiras e o roupeiro e despejou a caixinha dos brincos e dos alfinetes com que reduzia os decotes mais atrevidos. Não encontrando no quarto o que lhe fazia falta, avançou pela casa enrolada apenas na toalha de banho, em busca de algo que tanto procurava debaixo dos sofás, como em cima do frigorífico e até nas malas de inverno, arrumadas na pequena dispensa ao lado da caixa dos medicamentos e dos pensos rápidos.

Chegou à porta da rua ainda sem ter encontrado o que quer que procurava. Estava cansada, os cabelos ainda molhados teimavam em escorregar-lhe cara abaixo e os pés descalços começaram a arrepiá-la. Resolveu voltar ao quarto e vestir a roupa anteriormente escolhida, sem grande entusiasmo. De alguma forma o sol, que há momentos brincava pelo quarto fora, parecia-lhe tristonho e sem força. Uma nuvem de inquietação invadiu o seu sorriso e o dia entristecia com ela.

Perdera-se. Não sabia como nem porquê, mas durante o duche matinal percebeu claramente que se tinha perdido e, por mais que procurasse e revirasse a casa, não se conseguia encontrar. Como poderia sair assim de casa? Um corpo oco e desabitado, percorrendo as ruas da cidade em busca da sua alma... Por outro lado se não era ali, em casa, que se podia encontrar, seria com certeza na rua, perto de quem a conhecia e a queria bem que poderia reaver a sua essência. Sim! Era isso, devia sair o quanto antes e procurar por si no seu círculo de amigos, eles seriam capazes de a encontrar!

Saiu num remoinho deixando para trás a confusão espalhada um pouco por toda a casa. Encontrou-se com todos os que responderam à sua chamada, contou-lhes da sua perda e pediu-lhes ajuda para reaver-se a si própria. Cada um deu o seu contributo, conheciam-na bem e nada mais fácil que lhe contar das suas características, dos seus gostos, das suas paixões e amarguras. Apontou tudo num caderninho como se não pudesse escapar nada de si que mais tarde lhe viesse a fazer falta. Identificou-se com tudo o que diziam a seu respeito, como se aos poucos se lembrasse de um antigo amigo de Liceu. Guardou no caderninho a sua postura confiante e decidida, acarinhou o seu carisma forte e altruísta, abraçou a sua paixão por poesia e cinema, cuidou das feridas dos amores desanimados e apertou a mão às suas opções profissionais.

No fim do dia sentia-se de novo inteira, tinha no seu caderninho tudo o que necessitava para se recuperar. Mas então porque continuava no ar aquele nevoeiro estranho que a impedia de ver a sua imagem completa? Por muito que lhe falassem de si, por mais que lhe explicassem como era, não se sentia dona de si. Por muito que lhe mostrassem o caminho para si, não se conseguia encontrar.

Voltou para casa ao fim do dia, já o sol se escondia atrás do horizonte e o céu preparava a cama para Lua em tons rosa, laranja e azul. Entrou desanimada, pousou a mala e o caderninho no chão e sem acender as luzes do corredor foi até ao quarto, fingindo não ver a desarrumação que em todo o lado lembrava um dia de procura em vão. Sentou-se aos pés da cama, em frente à cómoda escura de onde saiam pontas de soutiens, mangas de uma t-shirt vermelha e metade de umas calças de ganga já gastas, restos da luta matinal em busca do seu "eu" perdido. Em cima da cómoda, o espelho rectangular esforçava-se por lhe devolver o seu reflexo completo.

Olhou em frente e viu-se, estava preocupada e triste no meio de um caos interior muito maior do que o visível à sua volta. Fixou-se durante muito tempo, tentando descodificar os sinais que lhe pareciam inteligíveis. Levantou-se sem tirar os olhos do espelho e perguntou-se onde estava, porque se escondia de si, porque tinha desaparecido, como podia encontrar-se. Ficou muito tempo de pé, em frente ao espelho a falar consigo. Conversou durante tanto tempo como há muito não se lembrava de conversar com alguém. Aos poucos foi-se reconhecendo nos pequenos gestos, nas discretas entrelinhas, nas subjectivas verdades. Deitou-se na cama, cansada mas inteira e dormiu toda noite tranquila e feliz. Encontrara-se no mesmo local onde, afinal, estivera o tempo todo.

Liliana Lima





"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber.
Se acordo Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém. "

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"