terça-feira, junho 23, 2009

Vamos sonhar à beira mar, Cecília?!


Alimento-me dos olhares alheios. Não de qualquer olhar, mas daqueles que me devolvem paz e alegria quando, com o meu olhar, se cruzam. É com essa paz e alegria que protejo os castelos de areia que construo à beira-mar. E de cada vez que os vejo cair à força das ondas, afasto-me um pouco, sento-me mais acima e recomeço uma nova construção.

Às vezes tenho o privilégio de estar rodeada de gente bonita, que se passeia sorrindo no mesmo cumprimento de onda que eu. Nessas alturas, a energia que recebo é tão positiva que os castelos ganham asas e, sem aviso prévio, vejo-os erguer-se no céu azul como balões que voam para longe, até passarem a linha do horizonte.

Às vezes o olhar é acompanhado de uma palavra. Então, vejo nascer no meio do castelo, verdadeiros moinhos de vento, contra os quais o mar nada pode. Por entre algas e conchas partidas, as suas rodas giram com o vento e espalham no ar um sem número de cores saltitantes, que brincam nas ondas até formarem um arco sobre as águas.

Alimento-me dos olhares alheios, mas também dos sorrisos e das palavras que conseguem sobrepor-se ao barulho do mar e me sussurram ao ouvido velhas cantigas de embalar, como borboletas nas tardes de primavera ou pirilampos nas noites de verão.

Os castelos que derretem e se espalham no mar, não se perdem, são areias que viajam com a maré e que um dia, quando menos esperar, encontrarei na roda de num moinho de vento que, acima da rebentação, espalha palavras, sorrisos e olhares a quem lhe der a devida atenção.


Liliana Lima




"Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

— depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.



O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio..."


"Canção" de Cecília Meireles, in "Viagem"



sexta-feira, junho 19, 2009

Quem escondes debaixo do tapete, Luís?

Ela já já lá estava quando ele entrou. Estava sentada no cadeirão azul a ler um livro. Ele olhou em volta, indeciso sobre onde se sentar, acabou por escolher um sofá pequeno de cor difusa entre o bege e o amarelo, ao lado de uma mesa de canto com um amontoado de revistadas e uma jarra com flores de plástico, em frente a ela. Reparou imediatamente na capa do livro que ela estava a ler, era um dos seus livros preferidos, "História da gaivota e do gato que a ensinou a voar" do Sepúlveda. Sorriu, tinha quase a certeza que iriam passar algumas horas ali e só podia ser um bom presságio.
Ela estava de pernas cruzadas e balançava lentamente o pé enquanto passava as folhas do livro. Estava tão concentrada que praticamente nem levantou os olhos quando ele entrou e disse "bom dia". Foi só quando se levantou para ir buscar um copo de água a uma máquina com um garrafão de pernas para o ar, que o viu e o cumprimentou devidamente. Ele estava sentado em frente a ela e tinha nos olhos a serenidade de um pôr do sol em Agosto. Folheava revistas ao acaso, sem grande interesse e foi ele que deu início à conversa.
A propósito do livro que ela estava a ler, falaram de metáforas e formas de ver o mundo, aos poucos foram-se abrindo e partilhando um pouco de tudo e de nada. Sem se aperceberem já estavam a falar das escolhas e gostos, dos medos e expectativas, dos amores e desamores, como se conhecessem desde sempre. Ele estava entusiasmado, não esperava uma sintonia tão imediata com uma desconhecida, parecia que estavam num filme, ele começava uma frase que ela acabava na intenção exacta com que ele começara. Ao fim de duas horas, que mais pareciam ter sido dois minutos, ele começou a pensar que, se calhar, as almas gémeas não eram, afinal, uma invenção da Disney.
A certa altura ela, sentada no cadeirão azul, agarrou uma resposta que tentava sair, espontânea e genuína, e deu consigo a pesar as consequências que aquela confidência teria na imagem dela que ele estava a desenhar na sua cabeça e que, assim de repente, ela queria preservar. Não a deixou sair, antes respondeu com uma frase redonda e sem grande significado, ou com todos os que se quisessem retirar dela. Devagar, como quem estende as pernas para esticar os músculos, levantou a ponta do tapete colorido que, entre eles se estendia no chão, e empurrou para baixo dele os recortes da sua vida que lhe pareceram menos apropriados ao tal retrato dela que ele estaria a compor a partir daquela conversa e continuou a falar, como quem assobia para o lado.
Conversavam descontraidamente e sem direcção pré-definida, quando ele se engasgou antes de responder a uma questão levantada por ela. A resposta, que se formou ao mesmo ritmo da conversa, enrolou-se na garganta e não saiu quando ele imaginou qual seria a reacção dela ao ouvi-la dita por ele. Ao mesmo tempo que criou um novo diálogo, mais ao gosto do que lhe pareciam ser os parâmetros dela, fingiu apanhar algo do chão e levantou uma ponta do tapete colorido, debaixo da qual, aconchegou tudo o que preferia que ela não ouvisse.
O tapete que os separava era feito de pequenos recortes de tecidos diferentes e formava uma imagem colorida e aberta a quaisquer interpretações que lhe oferecessem. À medida que eles, sentados em frente um do outro, começaram a esgotar os assuntos de conversa, debaixo do tapete as palavras, frases, relatos, deslizes e sonhos que lá tinham sido depositados entravam em relação, encontravam pontos de contacto e estabeleciam sintonias.

Na verdade, ainda que no ar se mantivesse uma luz límpida e alegre, aos poucos, ele pegou numa revista e ela voltou ao livro. O tempo continuou a avançar, ao seu próprio e incontrolável ritmo, até que os dois se despediram. Por baixo do tapete as faces ocultas de cada um foram obrigadas ao afastamento e disseram adeus com a certeza de terem acabado de se despedir da sua cara-metade.

Liliana Lima





"Só pode voar quem se atreve a fazê-lo..."

in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar"
de Luís Sepúlveda

segunda-feira, junho 15, 2009

Anda ver a vista do meu pedestal, Luandino...

A verdade é que me sinto bem aqui, olhando o mundo lá em baixo que corre atrás de outros sonhos, gira em torno de outro sol, procura a luz de outras manhãs.

Aqui do alto do meu pedestal, que vou construindo com os sorrisos em que tropeço, o horizonte está nítido e o caminho claro como o céu nas manhãs de Julho. Na verdade, agora que olho com calma, percebo que é só seguir o instinto, fazer os desvios que me pareçam essenciais e nunca ter medo de voltar atrás sempre que me sinta perdida.

A verdade é que me sinto bem aqui. Tão bem que não me apetece apressar o passo para seguir e frente. Peço licença ao tempo, encosto-me, e deixo-me saborear a maresia. O meu sopro há-de encher as velas da barca onde me sinto em casa. O meu rio há-de correr até desaguar na foz da minha utopia. O meu horizonte há-de reflectir a verdade do que se pode, por fim, transformar em real.
A verdade é que me sinto bem aqui, a confiança de não saber como será o como mas conhecer profundamente o porquê, devolve-me esta vista magistral sobre um mundo de escolhas e opções que sei não serem minhas. As minhas onde estão? Essas hão-de vir com a chuva de Março ou o sol de Inverno. Hão-de vir, instintivamente, ao ritmo de uma música que toca, só para mim, no abrigo de um búzio perdido na areia. Hão-de vir sempre e de cada vez que me sentir alinhada com as estrelas cadentes nas noites quentes de verão. Hão-de vir sussurrar-me ao ouvido, atrevidas, quando as procurar do outro lado do espelho.

As minhas escolhas, vêm e hão-de vir sempre que sentir a tranquilidade que sinto hoje aqui, no alto do meu pedestal, enquanto me encosto e me permito saborear a escolha de ficar apenas aqui, no alto do meu pedestal.


Liliana Lima






"Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:
Rios azuis
da longa estrada

E é fevereiro
sardões ao sol
Cassoalala

Eia Mucoso
tão cheio agora

Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

Não param as colheitas

Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o partoda única flor?

Não param as colheitas!"

"Estrada" de Luandino Vieira