domingo, maio 10, 2009

O que te diz a intuição, Pepetela?



O telefone tremeu, em cima da mesa pequena da sala, acordando-me de um sono tão leve que nem me sabia encontrar no súbito gemido que avisava a chegada de uma mensagem. No escuro da sala brilhava ainda o pequeno écran, como uma estrela iluminando toda a mesa desarrumada entre garrafas e copos meio-cheios e meio-vazios. Um arrepio varreu-me o espírito, só podia ser ela... Um enjoo, uma pontada no estômago fez-me recuar antes de pegar no telefone. Só podia ser ela sim, mas que teria para me dizer a estas horas? Uma certeza imensa que, finalmente, estávamos em sintonia que, em fim, a ouviria dizer o que tanto esperara para lhe confessar, invadiu-me arrastando a má disposição. Peguei no telefone num gesto brusco e desbloqueei o teclado para, enfim, ler a mensagem que chegara.

Era dela, obviamente. Era ela que estaria ali, na minha frente, em palavras que ela própria escrevera, depois de eu ter ganho coragem, com a ajuda de uma boa garrafa de vinho, mas a verdade é que tinha ganho coragem para lhe dizer o que há tanto tempo ensaiava em frente ao espelho de manhã, no elevador quando saía de casa, dentro do carro a caminho do escritório, à frente do écran do computador enquanto fazia contas, ordenava pagamentos e programava aplicações, à mesa do almoço no meio das conversas dos colegas que não ouvia nem prestava atenção, de novo no carro de volta a casa e enfim no sofá da sala onde acabava sempre por adormecer ao som de um qualquer reality-show. A verdade é que não fosse a garrafa me ter oferecido a coragem para lhe dizer que a cada dia o meu pensamento é cada vez menos meu... que me foge e voa por tudo e por nada e me troca pelos seus olhos, pelo seu rosto redondo, pelo seu corpo... e que nada consigo fazer para o repreender e agarrar a mim... não fosse a garrafa, ou o vinho, ou a noite de lua brilhante e temperatura amena, e eu passaria mais um século abafado nesta incerteza.

Voltei a pousar o telefone. Já não estava certo de nada, passei tempo demais atrás desta cortina, a sofrer sozinho com as garrafas como companheiras para acreditar, assim de repente num milagre... O que seria de mim sem a incerteza de me saber perto do seu coração? Quem seria eu sem a indecisão de entender o que me parecia que os seus olhos diziam? Onde ficaria eu sem o que eu achava que o seu corpo insinuava? E se ela dissesse apenas que era tudo imaginação? Que eu tinha entendido mal os sinais... que me enganara na interpretação dos gestos... Como entender, afinal as mulheres? Será que elas próprias sabem o que querem? Ou viverão num eterno limbo entre o que nós homens entendemos e o que elas querem dizer? Será que eu queria, de facto, entender o que ela queria? Teria capacidade para engolir e manter-me de pé, se acaso estivesse enganado?

Na verdade a dúvida doí quase tanto como a rejeição... ou seria o medo que me roía dentro do peito e fazia voltar o enjoo ao estômago? Era isso, o medo... era o medo que me bloqueava os gestos e me prendia a vontade de tirar o véu e por fim ver a realidade límpida, sem enganos, sem dúvidas... Fechei os olhos e respirei fundo, procurei a certeza do seu sorriso na despedida, da sua mão demorada na minha quando fugi para a segurança de nova garrafa. Fechei os olhos e revi os seus cabelos à luz parda da lua, e a tranquilidade dos seus olhos enquanto lhe dizia das dores do meu coração. Podia jurar que ela corada não de surpresa mas de cumplicidade. Podia jurar que os seus olhos nos meus validando os sentimentos que lhe contava. Podia jurar... E agora era tão fácil confirmar, bastava pegar no telefone e lê-la nas palavras que escrevera depois de eu ter fugido para a segurança de mais uma garrafa... Podia enfim saber a verdade da minha intuição, ou não... E o medo que aumentava, e entrava pela janela sem pedir licença enquanto invadia todo o espaço.

Lancei a mão à mesa pequena da sala desarrumada entre garrafas e copos, e agarrei um como bóia salva-vidas. Bebi, procurando a certeza anterior mas o copo, meio-vazio, não foi suficiente e não encontrei outro meio-cheio que me preenchesse. Levantei-me e, seguido pelo medo, abri nova garrafa que me prometia confiança, tranquilidade e força suficiente para ler a mensagem.

Algumas horas depois e mais uns tantos copos, acordei, agora com a luz do sol que dançava no céu do meio-dia. Procurei o telefone ainda com a memória dos medos e das incertezas que me assombraram a noite. Na caixa de mensagens recebidas lá estava uma não lida. Era dela. Suspirei e, com o medo a espreitar na janela da sala, decidi apagar sem ler. Preferi a ilusão do que poderia ter sido se... do que arriscar viver as consequências do que podia ter acontecido.

Liliana Lima









"(...) Agora a intuição, negada com ferros por medo da desilusão seguinte, se transformou em certeza. Suspeitara de alguma revelação inusitada quando percebi ser ela ao telefone. Apenas não queria acreditar. Sofri demasiados desapontamentos na vida para crer à primeira num milagre. A intuição afinal era verdadeira.

(...)As mulheres são consideradas as intuitivas, mas muitas vezes os homens também adivinham, fingem é que não."
"O Planalto e a Estepe" de Pepetela

quarta-feira, maio 06, 2009

Um tempo e uma palavra, Anderson...


Procuro o sentido do que me digo numa redoma onde guardo as memórias frágeis de séculos passados. A corrente que embala os dias de hoje vem de muito longe... na nascente, encontro uma melodia familiar, ainda longínqua, mas com um leve sabor a casa, a resguardo.

Agarro a melodia que teima esfumar-se em recortes de manhãs pautadas pelo som de tempos idos. Deixo-me envolver e abraço o sentido melódico, o agora assim me pede e eu, obediente, sigo as suas instruções. Rodopio na corrente onde piso sempre as mesmas pedras para não cair, estão gastas à força de tanto as usar. E ainda uma certa palavra cantada numa melodia familiar e repetida, em pequenos círculos que se alargam nas águas...

Nas mãos molhadas descubro sílabas que se juntam e formam uma palavra, de ontem, que afinal é também a de hoje. Uma memória vaga em forma de cadela dá-me uma lambidela e segue correndo sem olhar para trás. Um gira-discos espera que lhe baixe a agulha e, num volume acima do normal, solta palavras familiares que dançam na memória de outros séculos. Ontem e hoje ligados pelos círculos que se alargam nas águas ao som abafado do disco antigo.
Procuro o sentido do que me digo nesta redoma onde protejo as memórias frágeis de séculos passados. E sempre a melodia familiar e repetida, em pequenos círculos que se alargam nas águas e me devolvem a certeza dos meus passos. Como uma bússola, a palavra, sempre a mesma palavra, que ao fundo oiço cantada, e me orienta desde ontem, por hoje dentro e ainda amanhã.
Liliana Lima





"In the morning when you rise,
Do you open up your eyes, see what I see?
Do you see the same things ev'ry day?
Do you think of a way to start the day
Getting things in proportion?
Spread the news and help the world go 'round.

Have you heard of a time that will help us get it together again?
Have you heard of the word that will stop us going wrong?
Well, the time is near and the word you'll hear
When you get things in perspective.
Spread the news and help the word go round.

There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love.

Have you heard of a time that will help get it together again?
Have you heard of the word that will stop us going wrong?
Well, the time is near and the word you'll hear
When you get things in perspective.
Spread the news and help the word go round.

There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love.
There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love."

"A Time and a Word" de Jon Anderson
cantado pelos Yes

domingo, maio 03, 2009

Temos todo o tempo do mundo, Drummod...

Saímos da auto-estrada enquanto o Sol, calmamente, avança a caminho do horizonte. Os campos estão amarelos com tufos de azul que fazem lembrar o Tejo. Ao fundo o céu ganha uma cor incerta que se esbate numa aguarela, rosa, amarelo, lilás. O bebé dorme, numa respiração lenta e profunda. O carro segue o caminho, alheio às palavras que, lentas também, vão ganhando formas no calor que dança sobre o asfalto.

Vivo a duas velocidades. Uma que segue com o carro, atenta ao caminho, ao bebé que dorme, aos outros carros que por nós se cruzam, às refeições, às paragens e às horas que, aqui, passam rápidas, certas, sempre pontuais. Outra, que brinca às escondidas com a Lua enquanto o Sol se esforça ainda por brilhar, que espera pelas estrelas para descobrir a Ursa Maior e que finge não saber ler as horas porque, aqui, o tempo é lento e baralha os ponteiros que rodam ao ritmo das ideias.

Enquanto o carro avança por entre campos e campos que aos poucos se tornam pardos, como os gatos nos telhados das cidades, o meu tempo passa do ponteiro dos minutos para o ponteiro das horas. As palavras movem-se mais lentamente e as ideias não temem demorar tempo a saltar entre uma e outra. Este é o tempo em que consigo perceber o mundo, normalmente tão saltitante e escorregadio que me perco, ou deixo perder, para não me perder realmente nele. Este é o tempo em que me envolvo nas palavras e abraço as ideias, em que descodifico os sinais e leio as mensagens que não tive tempo para entender.
Durante muito tempo evitei olhar este tempo em que tudo gira devagar. Durante muito tempo envergonhei-me do tempo que demoro até ter tempo para me ouvir. É aqui, no intervalo do tempo que corre entre o ponteiro das horas, que me encontro e me permito parar. É aqui que as palavras se encaixam em frases e ideias, em mensagens e recados que o mundo me envia e que, por falta de tempo, faço esperar. Só aqui, consigo descodificar e assimilar o tempo e o que com ele veio.
O bebé dorme. O carro segue o caminho e eu tenho todo o tempo do mundo!
Liliana Lima

"Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver."
"Qualquer tempo" de Carlos Drummond de Andrade
in 'A Falta que Ama'