terça-feira, abril 28, 2009

As palavras têm luas, Alexandre?

As palavras têm dias, são de Luas e têm vida própria... O poder de uma palavra depende muito mais do seu humor no momento em que é dita, do que do sentido literal com que foi utilizada. Quantos "nãos" são ditos que, na verdade, significam "claro que sim"?!

O teu "adeus" naquele dia de chuva, por entre as gaivotas que, alvoraçadas, rondavam o Tejo em vôos circulares... Podia jurar que me estavas a dizer "até logo" e, no entanto, os teus lábios secos e ríspidos "adeus", virando as costas e avançando sem hesitar. À noite, quando cheguei a casa, procurei-te nos lençóis ainda quentes, tinha certeza que te tinha entendido bem e, foi no meio dos livros, sorrindo, à espera do meu abraço entre os "desculpa" e os "fui tonto" que te reencontrei.

Mais tarde, depois dos teus muitos outros "adeus" a que se sucederam os sempre iguais "descupa", eu disse-te "sim"... Um "sim" com véu e vestido branco, um "sim" embrulhado num ramo de rosas cor de chá e folhas verdes... Fizeram a pergunta e eu, orgulhosa do meu "sim", disse-o sorrindo. Projectei a voz para que não se perdesse no jardim, mas no momento em que o disse de facto, senti que o sentido estava trocado. Como num filme mal dobrado, os meus lábios articularam o "sim" mas ao fundo ouvi um "isto vai correr mal"... Por isso, quando chegou o dia, não do teu mas do meu "adeus", foi esse "sim" trocado que tive de explicar.

As palavras têm vida própria... soubessemos nós respeitar as suas Luas!
Hoje tenho muito mais atenção aos seus humores. Oiço-as, mesmo antes de as dizer, na esperança de conseguir escolher a palavra certa que exprima a minha ideia. E, de cada vez que digo "sim", ou "não", ou mesmo "adeus", fico muito atenta à espera de lhe ouvir o eco e perceber se, é mesmo essa, a palavra que quero dizer.
Liliana Lima


"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

"Há palavras que nos beijam" de Alexandre O’Neill
in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, abril 25, 2009

É noite de Liberdade, Zeca?

É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...
É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!


Liliana Lima


"Querida Joana:

Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.

Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina.

Muitos beijos do
Zeca Pai"
in "José Afonso Textos e Canções"

quinta-feira, abril 23, 2009

Diz-me então, quem sou eu, Lewis?


Suspirei fundo, com calma procurei a caixa de fósforos e acendi uma vela. Estava escuro e a luz da chama reflectiu no espelho e inundou o quarto de um amarelo baço e ondulante, que parecia jogar às escondidas entre formas e sombras, enchendo a toda a divisão de um estranho movimento.

Virei-me e dirigi-me à porta, ao meu lado eu avançava zangada por entre móveis e tapetes, lutando com os cortinados ao ritmo da chama que dançava em cima da cómoda, atrás de mim. Os meus movimentos na parede denunciavam um mau estar interior que eu própria desconhecia. Parei e observei com atenção a sombra que, claramente se revoltou com a minha curiosidade.
De pé em frente à porta, admirei-me com o que via de mim mesma projectado na parede. Avançada e esticava-me tentando alcançar a porta, recusava aceitar esta paragem a que me obrigava. Gesticulava sem sair do mesmo sítio. Estava notoriamente zangada e frustrada, imersa na escuridão que me inundava o quarto, a alma e o coração não me permitindo ver mais do que a vontade imediata de abrir a porta e sair.
Sentei-me na cama e fixei o olhar na vela e na sua chama ondulante, enquanto tentava perceber como sair, não do quarto, mas daquela sombra zangada e inquieta que me fitava da parede impaciente. Estava escuro, era um facto. E estava atrasada para o encontro que tanto ansiava, tinha o vestido do decote generoso e os sapatos menos cómodos mas mais elegantes, e estava ainda em casa, às escuras, sem encontrar a mala e as chaves do carro. Devia estar zangada e frustrada como aquela sombra que, já sem paciência gesticulava comigo. No entanto, havia algo em mim que me pedia para parar, parar e sair da espiral que me prendia a sombra e encobria o momento, tornando muito mais negro o cenário onde decorria a acção.
O filme projectado na escuridão da parede sou eu? Se sou não saio. Não me levanto nem me me animo. Fico aqui, escondida de mim mesma, à espera da luz que apagará as sombras e me devolverá a tranquilidade.

E fiquei. Sentada na cama, acorrentando a sombra aos meus pés para a ver bem. E foram precisos muitos dias, muitos dias e muitas noites em que a luz que usava para iluminar o quarto vinha de fora e apenas mudava de sítio a sombra que lutava ora com a cómoda, ora com os cortinados. Sentada na cama fui vendo como ela, ao ritmo do Sol e da Lua, me rodeava impaciente e inquieta.

Veio outro dia de escuridão, e mais uma vez o vestido e o decote, os sapatos e a ansiedade, e claro, a caixa de fósforos. Suspirei fundo e, antes mesmo de os acender, o espelho em cima da cómoda reflectiu uma luz, branca e límpida, que inundou o quarto numa aguarela de cores. Procurei-me na parede, mas encontrei-me na luz. Saí sem correr enquanto espreitava o filme que projectava no quarto as cores do meu arco-íris. Já na porta da rua, voltei atrás, agarrei-o e levei-o comigo.

Liliana Lima





"Então quem sou eu?
Digam-me isso primeiro,
e depois,
se eu gostar de ser essa pessoa,
eu subo;
senão,
fico cá em baixo
até ser outra pessoa qualquer."

in "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carrol