As palavras têm dias, são de Luas e têm vida própria... O poder de uma palavra depende muito mais do seu humor no momento em que é dita, do que do sentido literal com que foi utilizada. Quantos "nãos" são ditos que, na verdade, significam "claro que sim"?!
O teu "adeus" naquele dia de chuva, por entre as gaivotas que, alvoraçadas, rondavam o Tejo em vôos circulares... Podia jurar que me estavas a dizer "até logo" e, no entanto, os teus lábios secos e ríspidos "adeus", virando as costas e avançando sem hesitar. À noite, quando cheguei a casa, procurei-te nos lençóis ainda quentes, tinha certeza que te tinha entendido bem e, foi no meio dos livros, sorrindo, à espera do meu abraço entre os "desculpa" e os "fui tonto" que te reencontrei.
Mais tarde, depois dos teus muitos outros "adeus" a que se sucederam os sempre iguais "descupa", eu disse-te "sim"... Um "sim" com véu e vestido branco, um "sim" embrulhado num ramo de rosas cor de chá e folhas verdes... Fizeram a pergunta e eu, orgulhosa do meu "sim", disse-o sorrindo. Projectei a voz para que não se perdesse no jardim, mas no momento em que o disse de facto, senti que o sentido estava trocado. Como num filme mal dobrado, os meus lábios articularam o "sim" mas ao fundo ouvi um "isto vai correr mal"... Por isso, quando chegou o dia, não do teu mas do meu "adeus", foi esse "sim" trocado que tive de explicar.
As palavras têm vida própria... soubessemos nós respeitar as suas Luas! Hoje tenho muito mais atenção aos seus humores. Oiço-as, mesmo antes de as dizer, na esperança de conseguir escolher a palavra certa que exprima a minha ideia. E, de cada vez que digo "sim", ou "não", ou mesmo "adeus", fico muito atenta à espera de lhe ouvir o eco e perceber se, é mesmo essa, a palavra que quero dizer.
Liliana Lima

"Há palavras que nos beijamComo se tivessem boca,Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca.Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto,Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto.De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas, inesperadasComo a poesia ou o amor.(O nome de quem se amaLetra a letra reveladoNo mármore distraído,No papel abandonado)Palavras que nos transportamAonde a noite é mais forte,Ao silêncio dos amantesAbraçados contra a morte.""Há palavras que nos beijam" de Alexandre O’Neill
in 'No Reino da Dinamarca'