terça-feira, março 31, 2009

Como foi a tua noite, João?

Ele voltou tarde para casa, estava cansado e a única coisa que lhe apetecia era tomar um duche, comer qualquer coisa e deitar-se sem grandes sobressaltos pelo caminho.

Ela esperava-o embrulhada em rendas e laços vermelhos em cima da cama, o quarto estava enfeitado com velas e flores, como numa série que tinha visto há uns dias, e no corredor setas feitas de chocolate indicavam o caminho até ela.

Há muito que não se encontravam na cumplicidade dos lençóis, antes cruzavam-se entre os horários dele e o despertador dela, sem tempo nem disponibilidade para mais do que dois dedos de "conversa de ervanária". Naquele dia, e depois de se ter inspirado no óptimo resultado da noite romântica da série que seguia religiosamente, ela decidira que estava na altura de reacender a chama dos tempos de namoro.

Ele abriu a porta distraído, nem viu os bombons até tropeçar neles (por momentos achou que se tinha enganado na porta) foi a voz dela, lá do fundo do corredor, que o fez perceber os planos para aquela noite. Parou na entrada, hesitou e suspirou fundo antes de avançar pelo corredor.

Ela ouviu-o entrar e chamou-o pelo diminutivo que usava quando namoravam, não estranhou a demora dele, nem o ar sério com que se aproximou. Estava entusiasmada e tinha a certeza de que tudo o que o seu casamento precisava para reanimar estava ali, naquela surpresa embrulhada em rendas e laços vermelhos. Quando casaram ela estava tão apaixonada por ele que o coração parecia saltar-lhe do peito cada vez que estavam juntos, depois os anos passaram, os empregos tomaram a dianteira nas prioridades de cada um e a rotina instalara-se mesmo antes que ela percebesse. Na verdade só há pouco tempo, com o divorcio de uns amigos, ela se apercebera o quão distantes estavam.

O rádio da mesa de cabeceira dela tocava, um pouco mais alto do que o normal, os estores estavam corridos, por todo o lado velas coloridas brilhavam e a jarra da cómoda estava repleta de pequenas flores brancas e rosas vermelhas. Ela estava deitada em cima da cama com uma lingerie sexy e olhava para ele como uma gata que ronrona baixinho.

Há quanto tempo ele esperava por um sinal de vida da parte dela... Na verdade, fazia tanto tempo que ele já nem se lembrava da última vez que a vira olhar assim para ele. Tanto tempo... Tempo em que ele tentara aproximar-se... tempo em que ele se sentira perdido e sozinho... Tempo em que ele por fim desistira e aceitara um casamento morno, de faz de conta... Tempo em que ele se cruzara com alguém que o fez sentir, de novo, o coração a saltar do peito...

Ele olhou para ela num misto de carinho e tristeza. Ela tinha tido tanto trabalho a embrulhar aquela noite! E ele esperara tanto tempo por uma noite assim! E no entanto, nada parecia bater certo, tudo estava fora do lugar como se os sapatos que calçava não fossem seus e as roupas que vestia fossem dois números acima do dele. E ela entendeu, aquele olhar disse-lhe tanta coisa que ela, por fim, entendeu.

Naquela noite, apesar de tudo estar fora dos lugares, ou talvez porque tudo estava fora dos lugares, apesar de saberem que a marca do tempo não se pode apagar, ou precisamente porque a marca do tempo não se pode apagar, apesar de terem entendido que o arco-íris já não lhes coloria um caminho conjunto, apesar dos pesares... naquela noite embrulhada em rendas e laços vermelhos, ela ronronou baixinho como uma gata e ele sorriu-lhe como há muito não fazia...

Liliana Lima



Com a canção "Há dias" de João Monje no ouvido (e aqui num post antigo do Curvas).

sábado, março 28, 2009

Que força é essa, Sérgio?

Vagueio pela cidade num fim de dia abafado, misturo-me no meio de tanta gente que passa distraída por mim, mães nervosas com as crianças penduradas numa correria em contra-relógio, homens de fato escuro e olhar cerrado pensando nas muitas coisas que deixaram por fazer, namorados levitando numa alegria de olhares cúmplices, adolescentes em bandos que passam rindo e falando alto sem ligar aos encontrões que fazem tropeçar as velhinhas com sacos de supermercado...
Vagueio pelas ruas sem destino certo nem horário definido, ando apenas, percorrendo as ruas da cidade com o Tejo como pano de fundo. Olho de soslaio para uma montra despida e podia jurar que ele, o reflexo torto e ondulado chama por mim... Olho em volta para me certificar que é a mim que o reflexo chama, não há ninguém ali apenas eu e ele, o reflexo torto numa montra despida. A cidade parou para eu estar à vontade.
Aproximo-me da montra e ele, o reflexo torto que chamava por mim, fica repentinamente mais nítido, mais claro, faz-me sinal e como quem conta um segredo diz-me que as andorinhas já regressaram, o sol brilha quase beijando o Tejo e as árvores vestem-se com as cores da nova estação. "E tu, que força é essa que te põe de bem com outros e de mal contigo?" Afasto-me para o ver melhor mas a montra nua devolve-me somente o meu ar espantado num reflexo torto. As pessoas voltam a passar, distraídas e apressadas e a cidade retoma o seu burburinho de fundo.
Sinto um calor intenso que me aperta o peito e me invade os olhos, enquanto um novo bando de adolescentes invade a rua e encobre a montra abalroando as velhotas que, indignadas, resmungam contra os tempos. Deixo-me levar pela corrente de gente apressada que desce a cidade até chegar ao Tejo. Os comboios e barcos enchem-se e à hora certa levam consigo os relógios e os carros e o burburinho que inquietava a cidade. Aos poucos o Sol esconde-se no Tejo num abraço profundo e as luzes trémulas dos candeeiros acendem-se em pequenas ilhas amareladas que dão às docas um ambiente nostálgico de final de século.
Dói-me a cabeça, e embora o silêncio tenha afogado por completo a cidade, oiço mil vozes que parecem vir do rio e que perguntam em vários tons "Que força é essa que te põe de bem com outros e de mal contigo?" Aproximo-me das águas que me devolvem mil reflexos espelhados na ondulação do rio. Olho para todos eles, reflexos incompletos dançando com a ondulação e revejo-me em cada um.
Sento-me e tiro os sapatos, molho os pés no rio como que procurando um diálogo com as águas. A cidade ficou suspensa, aguardando o meu regresso, não há carros, nem pessoas, nem agitação, nem barulho, apenas o rio, eu e eles, os meus reflexos incompletos. A brisa da noite traz uma música antiga que repete o refrão vezes sem conta, como um disco riscado. As águas olham-me através dos meus olhos reflectidos em mil espelhos.
Respiro fundo, fecho os olhos e sinto novamente um calor intenso que me percorre o corpo e me afoga os olhos. Agarro uma lágrima que tenta cair com a certeza de que, se começar não paro mais. Engulo os soluços e afasto o mar dos olhos. Controlo-me. Recomponho-me. Afasto-me do rio e viro-lhe as costas.
A cidade acorda os carros e as pessoas e o barulho porque me sente a voltar. Misturo-me no meio de tanta gente e tento sorrir às andorinhas que se acalmam nas copas das árvores e se preparam para dormir. Ao fundo oiço o Tejo que me chama, não ligo e recomeço a andar sem olhar para as montras.
Chego a casa e deito-me sem passar pelo espelho na parede ao fundo do quarto. Fecho os olhos e digo baixinho como que sussurrando para alguém ao meu lado "Não é hoje que te vou ouvir". Viro-me de lado e afasto as vozes que ecoam na minha cabeça com a certeza de que, um dia, terei mesmo de lhes responder.


Liliana Lima


Com a canção de Sérgio Godinho "Que força é essa" no ouvido (e aqui, num post antigo do Curvas).

sexta-feira, março 27, 2009

Ajudas-me a segurar o meu castelo, Zeca?

Pego nas cartas espalhadas pela mesa e empilho-as em forma de castelo. Subo e desço as ameias, espreito pelos muros altos e vejo ao fundo o rio que espelha a cidade.

Oiço uma voz que me faz duvidar que existes. Tapo os ouvidos, suspiro e sem querer faço abanar o castelo onde deposito a minha utopia. A minha cidade desafia a alegria quando vista com atenção por dentro e por fora.

Acrescento mais uma carta, apoio-a na crença de que é possível. Uma gaivota voa sobre as águas e rouba o meu pensamento, deixo cair a carta que segurava e desconfio da estrutura que criei à tua volta.

Aproximo-me mais do castelo, olho-te nos olhos e percebo que devo seguir o meu rumo. Uma brisa leve que vem dos lados do oriente recorda-me a utopia em que acento os meus muros e devolve-me ao castelo onde encontro a minha rota, o meu rio, a minha cidade.

Liliana Lima




"Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"
Utopia de Zeca Afonso in "Como se fora seu filho" (1983)