segunda-feira, março 09, 2009

Quem guarda o teu sorriso, Rui?

Aqui estou à tua espera, ainda à tua espera. A praia está tão deserta sem o teu sorriso! Porque demoras? Porque não chegas?
Combinámos que nos encontraríamos aqui, depois dos caminhos percorridos que, dizíamos, convergiam lá à frente. E, no entanto aqui estou, sozinha na praia... Onde estás, que não chegas? Por onde andas perdido? Tens de andar perdido, depois de nos termos encontrado, só podes estar perdido!

Já passei tantos dias e tantas noites nesta praia que parece tão deserta sem o teu sorriso... Já pisei tantas vezes esta areia sem te avistar... Deves estar perdido, só podes! Não acredito que não vens, não posso!

O sorriso que me davas, não se dá sem ser verdadeiro, era genuíno, era real... (seria?) Quantas vezes te perguntei se os teus olhos nos meus eram reais, se existiam de verdade ou se eu os imaginava. Tu dizias que sim, que eu não era uma ilha perdida que, atrás daquele rochedo, virias ter comigo no fim dos caminhos que, dizíamos, convergiam lá ao fundo. Mas, eu aqui estou, ainda à tua espera nesta praia deserta...

Ainda guardo o teu sorriso fechado na minha mão... Aperto-o com força enquanto viro as costas a esta praia que fica tão deserta sem nós...

Liliana Lima, 09-Mar-2009


"Tenho um sorriso fechado na palma da minha mão.
Sorriso que foi achado caído no meio do chão.
Um sorriso que era vento desenrolado do azul
em que as minhas velas pandas se enfunavam para o Sul,
rumo a qualquer fim do mundo!

Uma ilha tropical onde o meu corpo confundo
com vento suor e sal. Era esse o teu sorriso;
o sorriso que me davas quando os teus olhos nos meus
eram dois potros com asas.

À tua espera na praia fiquei pela tarde fora,
no alto daquele rochedo onde um minuto é uma hora!
E não vi o teu sorriso surgir da areia ou do mar.
Nem tive um porto de abrigo…
Nem foste um barco a chegar.

Se me disseres que morreste não acredito. Não posso!
Andavas sempre comigo e o teu sorriso era o nosso…
Hoje guardo o teu sorriso fechado na minha mão…
A contrastar com o siso que trago no coração."

Sorriso - Rui Represas (música - Luís Represas)

quinta-feira, março 05, 2009

Olá, tu por aqui, Tó?


Há dias em que tenho saudades tuas, não de ti, mas do teu eu meu. Sim, há dias em que, sei lá porquê, olho para o rio e lembro-me de ti, não de ti, mas do teu eu meu.

Sabes dele? Acaso não o terás encontrado por aí?! Se o encontrares, diz-lhe que estou por aqui...
Há dias em que lembro de coisas que me disseste... frases soltas, palavras que dançam a valsa no azul do céu e me aconchegam nos dias frios. Lembro-me que acreditei em ti, não em ti, mas no teu eu meu, enquanto dançava contente ao som do que dizias.

Saberás dele? Se acaso tropeçares nele, diz-lhe que estou por aqui...

Há em dias em que quero recordar-me de não me lembrar de ti, não de ti, mas do do teu eu meu. Mas as horas passam vagarosas nos carros que param nos sinais, nas crianças que brincam no jardim, naquele relógio grande em cima da torre da igreja que teima em não acompanhar o meu pensamento que voa, voa para ti, não para ti, para o teu eu meu.

Será que ainda sabes onde ele está? Se o encontrares, diz-lhe que estou por aqui...

Há dias, em que as noites são longas e me levam num remoinho de lembranças, num turbilhão de sentimentos que me puxa, me acorrenta, me prende e me faz sonhar contigo, não contigo, mas com o teu eu meu.

Ainda o conheces? Se acaso o reconheceres, diz-lhe que estou por aqui...

Há noites em que o dia não me trouxe os teus olhos, em que passei pelo mar sem te avistar numa gaivota que voa baixinho sobre as águas, em que tudo parece estar no sítio certo, tranquilamente pousado como uma toalha estendida num campo verde. Nessas noites, entro na cama, encosto a cabeça na almofada, fecho os olhos e suspiro. Passou mais um dia! Um dia sem ti, não sem ti, mas sem o teu eu meu. E a noite cai devagar sobre os lençóis enquanto a Lua, lá no alto, me diz que te viu por aí...


Liliana Lima, 05 de Março de 2009

"-Ela saiu, não sorriu, mal me olhou, mas deixou ficar

O nosso amor pelo chão para eu arrumar

Deixou a dor a correr e a saudade na nossa mesa

Deixou o amor por fazer e a tristeza no ar


-Quando ela entrou, e sorriu-me, e olhou-me, não deixou ficar

O nosso amor pelo chão para eu arrumar

Pôs a ternura a aquecer toda a noite à lareira

Pôs o amor a correr e a alegria no ar, para eu cantar:


-Olá! Tu por aqui?

-Olá... então como vais?

-Tudo vai bem?

-Olha, tudo vai mal para mim.

-Mas tudo vai mal porquê?

-Foi um amor que eu perdi,

Ela partiu, eu fiquei...

Se a encontrares, diz-lhe que eu estou por aqui

- Se a encontrar, direi.



-Ela saiu, não sorriu, mal me olhou, mas deixou ficar

O nosso amor pelo chão para eu arrumar

Deixou a dor a correr e a saudade na nossa mesa

Deixou o amor por fazer e a tristeza no ar



-Ela voltou, e sorriu-me, e olhou-me, e não quis deixar

O nosso amor pelo chão para eu arrumar

Pôs a ternura a aquecer toda a noite à lareira

Pôs o amor a correr e a alegria no ar, para eu cantar:


-Olá! Tu por aqui? (...)"


'Olá, tu por aqui?' letra e música de Tózé Brito


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Vens por aqui, José?

Entrámos no barco sem dizer palavra, sentámo-nos e pegaste nos remos.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Estás cansado, não era este o caminho pensavas fazer. E no entanto, quando te disse que era por aqui não hesitaste e entraste comigo. Não sei porque tenho esta certeza, mas sei que o caminho certo é este.

O rio está calmo, mas a corrente obriga-nos a um esforço suplementar. Ajudo-te a pegar nos remos, avançamos devagar, mas vamos subindo o rio.

Nas margens há pessoas que nos acenam “vão ao contrário… a paisagem é mais bonita na foz”, acenamos também mas continuamos rio-acima, com calma.

Aproveitamos uma pequena baía e paramos para descansar. O teu olhar diz-me que continuas cansado, mas confiante. Acreditas em mim e eu sei que, contigo o barco está mais estável. Começamos a falar mas as “palavras estão gastas” e não nos falam das coisas importantes. Os teus olhos sim, dizem-me que devemos partir, está a fazer-se tarde, sinto-te inquieto. Achas que a viagem será mais difícil a partir daqui, remar contra a corrente não é fácil, mas eu sei, eu sinto que é lá em cima, perto da nascente que nos vamos encontrar. Acalmo-te com a minha certeza e entramos novamente em silêncio no barco.

Voltar ao ritmo é difícil, avisto na margem um grupo de crianças que brincam na água. Aproximam-se nadando e perguntam-nos porque vamos por ali, porque não subimos pela margem até à nascente como todos os outros. Olhas para mim, entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Inspiro-me nele e não desisto, sei que é este o caminho, não sei porquê, mas sinto que é por ali. Devolvo-te o sorriso e continuamos a remar.

Estamos quase a chegar, já oiço o burburinho da água que cai das pedras lá ao fundo. Os teus olhos estão cansados, mas acompanham-me nesta viagem. Cada vez que duvido de mim é neles que reencontro as certezas que tenho cá dentro.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Não era este o caminho que pensavas fazer e, no entanto, aqui estás, ao meu lado, remando comigo contra a corrente. Estás cansado, mas confortas-me. Estamos quase a chegar!

Não era este o caminho que pensavas fazer mas entraste no barco, sentaste-te ao meu lado e remaste comigo… Pergunto-me porquê… Pergunto-me se o teria conseguido sem ti…

Procuro nas margens, mas já não avisto ninguém. Estamos quase a chegar e, aqui, estamos sozinhos. Agora que as certezas dançam no ar como borboletas coloridas num jardim florido, já posso confessar que houve alturas em que duvidei, que houve alturas em que foste tu que me mantiveste sentada, a remar. Os teus olhos respondem-me com as mesmas palavras, estivemos os dois no mesmo barco, construído de certezas e alimentado pela força dos olhares que trocámos.

Se eu te disse o caminho tu deste-me, sem dúvidas, a força para lá chegar. Foi nesse tabuleiro de compromissos, que jogámos as certezas e as inseguranças, sempre apoiados na confiança dos olhares que trocámos.

Liliana Lima 26/02/2009
(com um abraço ao 'outro' José que me desafiou a escrever este texto)




""Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...


Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!"

Cântico Negro de José Régio