quinta-feira, janeiro 29, 2009

O que te diz o espelho, David?

Ele olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto, na parede em cima da cómoda. Ela saía do banho e vinha apenas com a toalha amarela com riscas azuis enrolada à cabeça, como um grande cacho de frutas que cantavam "o que é que a baiana tem...".

Ligou o radio em cima da cabeceira empoeirada e, ao ritmo de uma qualquer música da moda, balanceava o corpo enquanto tirava peças de roupa ao acaso de dentro da mala de viagem enchendo a cama num emaranhado de camisolas, soutiens, saias, blusas, cuecas e casacos, que escolhia, experimentava e novamente despia, num frenesim de feira em plena actividade.

Tinha saudades dela! Há quanto tempo não a tinha assim, só para ele, para seu deleite. Olhava para ela e lembrava os dias, anos, em que fora, de facto, o seu companheiro de quarto. Horas que passaram a olhar um para outro, olhos nos olhos, comungando da mais profunda cumplicidade.

Algo mudara durante a sua ausência, estava mais desinibida, já não tinha vergonha de o olhar assim, despida, antes parecia provocá-lo propositadamente com aquele desfile bamboleante em trajes menores.

Ah! Quanto tempo o deixara ali, sozinho. Há quanto tempo não via aquela toalha a cantar "o que é que a baiana tem..."! Há quanto tempo não sentia aquele nervosismo ritmado ao som da música, que parecia aumentar de volume cada vez que ela se aproximava e o olhava tão fixamente, quase através dele...

Havia, no entanto, uma certa amargura na sua expressão, uma mágoa que lhe entristecia o olhar como a névoa que paira sobre o Tejo nas manhãs de Outono. O seu corpo dançava "como sempre, como antes", mas os seus olhos denunciavam uma inquietação nova, que ele desconhecia. Havia nela algo de novo, já não era a rapariga que crescera com ele, era uma mulher decidida, desinibida, desiludida talvez, mas com vontade de viver, de se recriar. Lia-o no seu corpo, nos seus gestos.

O espelho olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto, na parede em cima da cómoda. Estava vestida e continuava a balancear-se ao som da música do rádio enquanto arrumava o caos de roupa em cima da cama. Não ia ficar. Viera de passagem, como o Sol que espreita por entre as nuvens num dia cinzento de inverno. O som do rádio distorcia-se por entre as interferências da sua saudade... Não ia ficar!

Olhou-a com todas as suas forças, tentando vislumbrar até na esquina ao pé da porta que quase não conseguia reflectir. Queria guardar o mais possível dela, marcar a sua imagem dentro de si para os dias repetidos de vazio.

Chegou o momento, a mala estava pronta, o casaco vestido, o cabelo penteado. Aproximou-se dele e olhou-o demoradamente, suspirou, tirou do bolso o baton, pintou os lábios e antes de sair deu-lhe um beijo vermelho vivo que o marcou bem no centro de todas as emoções.


Liliana 29/01/2009




"Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado"


(David Mourão Ferreira)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Como é uma 'Pessoa' tranquila, Fernando?


Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:

Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água.
Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, não me peças colo, digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Liliana Lima 26-01-2009
("Pessoa à janela" - Dali)

"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "

"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

domingo, janeiro 25, 2009

Contas-me um segredo, Júlio?


Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na última prateleira da dispensa? Dei com ela nas arrumações das tralhas, estava atrás das conservas fora de prazo, do arroz com bicho e do garrafão de água já amarelada que, zelosamente, mantinha para o caso de uma catástrofe desabar sobre Lisboa. Quando a tirei tive uma vontade imensa de a abrir e finalmente descobrir os segredos que há tantos anos encerra... mas não o fiz, contive-me. Houve algo que me impediu de o fazer, um sentimento de traição parecia espreitar da tampa da velha caixa.


Decidi esperar por ti. Guardei-a, imaculada, tal e qual como quando a descobri, pronta para desvendar os mistérios que nos povoaram a imaginação infantil e que nos insprirarm nas tardes chuvosas de Inverno e nas noites quentes de Agosto. Tantas histórias inventámos, para justificar os segtredos fechados naquela caixinha azul, desde amores impossíveis, heranças escondidas a herdeiros secretos... Está tudo aqui, nesta caixa metálica muito velha e ferrugenta, agora no meu colo, tão frágil, tão simples, tão banal.


Decidi esperar por ti, afinal os segredos da caixa da avó acompanharam-nos a infância, fazem parte do nosso imaginário. Era-nos quase impossível pensar a avó sem nos lembrarmos da sua misteriosa caixa, escondida, inviolável e inacessível. E agora no meu colo, convidativa, provocadora, quase a dizer-me baixinho "abre-me... desvenda o mistério..."



Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na dispensa? Descobri-a, tive uma vontade enorme de a abrir, mas depois decidi esperar por ti.


Tive-a no meu colo horas, minutos, séculos, nem sei... Olhei-a, virei-a, lembrei as histórias que inventámos em torno do seu conteúdo. Esperei por ti. Mas não vieste a tempo...


Decidi devolvê-la à avó, afinal os seus segredos eram dela e assim devem ficar para sempre, sugestivos, misteriosos, desconhecidos... Só assim permanecerão na nossa memória com a magia das histórias inventadas, onde o importante vai muito além do desvendar da realidade.

Liliana Lima 09-11-2005



"Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já. "


Do fim dos segredos - Júlio Pomar
(in "TRATAdoDITOeFEITO")