quarta-feira, janeiro 21, 2009

Bora lá fugir à rotina Drummond?

- Peço-te por todos os santinhos... não inspires... Por favor, tem piedade! Não haverá nessa inconsequente saliência, nesse dois orifícios redondos, um pingo de decência?!?!

- Mau... assim não vais longe. Deixa-te lá de melodramas pá, já não te posso aturar! Que queres?
Eu não dou ordens aqui... fala com o gajo lá de cima. Não é a mim que tens de chatear, c'um caneco!
- Sabes que não é verdade... ele é um inconsciente... ele é um "Maria vai com as outras"!
Ele é que manda, ele é que manda... Tretas! Manda tudo e não manda nada! Sabemos bem disso. É um fraco! Não consegue resistir...
É a ti que eu peço. Por favor não inspires...
- Ó pá, és mesmo melga! Que gaita! Já te disse que eu só cumpro ordens, que queres?! Que faça greve? (como os outros?!) E depois, quem é que leva com aquelas porras dos esguichos de água do mar e o caraças, que atordoam um gajo todo e deixam um rasto que até queima? Ah, pois... agora já não te lamentas?!
Bem... Olha, fala com a maluca aqui de baixo, se ela se disponibilizar a inspirar eu até sou capaz de me contrair. Mas é só desta vez, que já não te posso ouvir!
- Obrigado pá, és um querido!
- Querido?! Que é lá isso?! Tem lá juízo, se não acaba já aqui a combinação...
- É pá desculpa... porreiraço, era isso que queria dizer, és um porreiraço!
*****
- Ó querida... ó princesa... ó lindinha... Olá! Isso mesmo, um sorrizo lindo p'ró vizinho aqui de baixo!
Ouviste a conversa, não foi? E então, fazes-me esse favorzinho, linda?
- Que dois chatos! Está bem, está bem, eu inspiro mas ficas-me a dever uma...
- Combinado! Tens uma boca linda, sabias?! Eh, eh...
Ups... Glup... cóf-cóf... Glup...
- Porra!!! Vocês estão doidos?! Ouve lá ó burra, quando é que já se viu inspirar um café?!?!
- Ó traqueia...desculpa... cóf-cóf... A culpa foi minha...
Desculpa lá o mau jeito, mas eu hoje já levei com quatro cafés em cima e não ia suportar o quinto! Ainda estou aqui todo contraído e cheio de dores por causa do último e aquele malandro lá de cima, que deve andar a dormir, não se controla pá!
É que é certinho, cada cheiro que que se aproxima... cada chávena que vê... pumba! Lá vai disto! E "quem se lixa é o mexilhão"! Irra!!!
Lembrei-me, de repente, duma coisa... será que o gajo pensa que é um cão?! É que, se bem me lembro, essa coisa dos reflexos condicionados não era com os homens...
- Enquanto te armas em estômago intelectual, vai-te preparando... café à vista...
- Bolas! Lá vou eu outra vez.
Ó narizinho, preciso de um favor teu... não inspires, não inspires por favor...

Liliana Lima 25/01/2006
Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço... ;)

*****************************************************



"A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.


A bunda é a bunda
redunda."


A bunda, que engraçada - Carlos Drummond de Andrade
(Ilustração de Milton Dacosta)

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Estás aí Manuel?!


Estás aí?!



Pergunto eu baixinho com medo de acordar a lua e precipitar a resposta. Conheço bem o eco da minha voz no silêncio da noite. Abro as portas da varanda em par e repito a pergunta numa teimosia que serve apenas para manter viva a esperança da resposta...



Estás aí?!




Sussurro, articulo as palavras sem deixar sair o som, não quero assustar as estrelas. Sei da cumplicidade da noite e é nela que me envolvo enquanto a minha voz, em silêncio, percorre as ruas até chegar ao Tejo. As luzes reflectem-me nas águas que se agitam em pequenas ondulações e espalham a pergunta até à outra margem.



Estás aí?!... Estás aí?!...



Desde as esquinas apertadas de Alfama até às muralhas altas do Castelo, a brisa embala a minha voz e semeia nas pedras da calçada a pergunta feita em silêncio. O eco de uma árvore acorda as estrelas no escuro da noite e, cúmplices também, replicam em código Morse pelos céus...



Estás aí?!



Encosto-me na varanda banhada pelo luar e escuto a cidade que te chama comigo. Em todas as ruas os candeeiros esforçam-se por iluminar a esperança, e as árvores abanam os seus ramos enquanto perguntam às flores dos canteiros se sabem de ti.



A madrugada acalma o silêncio em que a cidade cantava encoberta pela noite e, aos poucos, as águas do Tejo pintam-se de azul em sinal de um novo dia que nasce.



Na varanda, espreguiço-me e acordo de um sonho agitado. Volto para dentro e, enquanto fecho as portas de vidro, avisto na outra margem uma gaivota que parece perguntar...



Estás aí?!



Liliana - Jan/2009



*********************************************************


"Há muito tempo


era uma vez


um homem que se perdeu


da sua amada


e vagueou


por entre as nuvens do céu.


Perguntou à mais pequenina


se a tinha visto ao passar


depois à nuvem mais carregada


nenhuma o podia ajudar.


E assim passou tanto tempo


tecendo mil planos


em fios de algodão


que se desvaneciam


em nuvens no seu coração.


Todas as nuvens


da sua rua


foram à sua janela


escureceu, adormeceu


ficou a sonhar com ela.


E o mau tempo passou


o sol despontou


numa festa de cor


de manhã todas as flores


sabiam de cor


onde estava o seu amor."


"Pelas Nuvens" de Manuel Paulo

(interpretado por Graça Reis, no álbum Assobio da Cobra)

sábado, janeiro 17, 2009

O que ouves no silêncio, Eugénio?

O que resta depois de ditas as palavras?
O que sobrevive ao olhar silencioso
que se esconde no chão
e se demora num eco mudo?

O que fica por dizer no fim dos segundos,
anos que se parecem, em rota de colisão
num imenso deserto surdo?

O silêncio.
Apenas e só o silêncio.
Em toda a sua vastidão
de lua nova e medo fecundo.

Mas também no silêncio,
e em silêncio
um lamento, uma ternura, um perdão.

Mas também no silêncio,
e em silêncio
um rol de porquês desamparados,
um turbilhão olhares fatigados.

Porque também no silêncio,
e em silêncio
se escondem as palavras não ditas,
cresce a energia dos desejos não confessados,
nascem as respostas às perguntas perdidas.

O que resta, então, depois de gastas as palavras?
Um mar de emoções, uma corrente de sentimentos
que, apesar de amordaçados e escondidos
se mostram vivos, reais e sentidos.

Liliana Lima - Maio/2005




"Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas. "


O Silêncio - Eugénio de Andrade (in "Obscuro Domínio")