quinta-feira, janeiro 15, 2009

No dia em que 'eu olhei para ti', José Mário...

Um dia olhei para ti
e com espanto, surpresa e pesar
não descobri no teu olhar
a força de vida que conheci
e, em tempos, usei para amparar
as lágrimas que, sozinha, verti.
Um dia olhei para ti, olhei...
mas o teu olhar me traiu
e, como garrafas sem fundo vertendo
as imagens que neles busquei,
nos teus olhos parados fui lendo
as mágoas que em ti projectei.
Perdi-te, no dia em que te olhei
e com um tal manto de mágoas te cobri,
que até do reencontro te culpei.
Acho que só agora entendi
que nessa culpa fui eu que me perdi.

LL Abril-2005 / Janeiro-2009



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"Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou


Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar

Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão


Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou


Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou"



Eu vim de longe - José Mário Branco

domingo, janeiro 11, 2009

Sonho de uma tarde de verão...

Esta noite sonhei com um monte alentejano, pintalgado por ovelhas e cabras com uma casa branca no alto...

Sonhei que estava numa sala ampla com uma lareira, iluminada por um radioso Sol em tons quentes, que respirava imaginação. Um pouco por todo lado, grandes almofadas coloridas estavam povoadas por gente alegre, com vontade de viver e muito espírito criativo. Eu levitava pelo meio de grupos que, mais ou menos organizadamente, vasculhavam nos seus passados, espreitavam os seus sentimentos e, despreocupadamente plagiavam os seus autores preferidos... enfim, penso que inventavam histórias!

Lá fora, num terraço magnífico com vista para um céu estrelado que só o Alentejo nos desvenda, outros (ou os mesmos, não sei bem) grupos de gente bonita abriam, sem pudor, a janela aos seus corpos, deixando-os contar histórias que nem os próprios se lembravam que traziam consigo.

Lembro-me de um pôr-do-sol imenso que, ao contrário de escurecer, encheu de luz todos os personagens dessa tarde. Entre cheiros, sabores, sons e texturas, a brisa quente da terra e o lusco-fusco do fim de tarde deram à luz novos contos partilhados na tranquilidade de uma comunhão serena com o mais íntimo de cada um.

Antes de acordar, peguei cuidadosamente em cada palavra, movimento, sorriso, sentimento, vibração, olhar, partilha, descoberta, gesto, brilho, reflexo... e, com muito cuidado, embrulhei-os num lenço que trazia no cabelo. Aquele era o fruto de um sonho partilhado por quantos os que lá estavam e, por isso, todos fizeram o mesmo. Protegemos e embrulhámos o sonho de cada um e antes de nos virmos embora, temendo que a partida de alguma forma o sufocasse, no alto do monte, largámos amarras e deixámos voar o "pássaro da alma" como se fosse o "último dia das nossas vidas"...


LL Julho/2008

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"Sonhei que estava um dia em Portugal

À toa num Carnaval em Lisboa

Meu sonho voa além da poesia

E encontra o poeta em Pessoa


A língua míngua e a língua Lusitana

Acende a chama e a palavra luzia

Na via pública e em forma música

Lúzia das lusíadas, lúzia!"


"Sonhei que estava um dia em portugal" de Morais Moreira

(Cantado pela Cristina Branco em Ulisses)

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Onde está o corrimão da vida, David?

Sustos em vão

Que nos sonhos flutuam

E sem sabermos a razão

Subimos a escada

E vemos a vida

Descer em corrida pelo corrimão



Sustos em vão que o Sol ilumina

Deixando o coração a secar na ruína

Procuramos a fuga numa escada em espiral

Até nos vermos de volta ao ponto inicial...



LL 14/12/2006


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"É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão."
('Escada sem corrimão' de David Mourão-Ferreira)
(Cantada por Camané no CD Esta Coisa da Alma)