segunda-feira, dezembro 29, 2008

Dia 1 será o primeiro do resto das nossas vidas, Sérgio?

É no fim da festa, quando arrumamos a loiça e apanhamos os papeis de embrulho espalhados pelo chão que fazemos o apanhado do dia, pesamos as perdas e os ganhos e medimos, no barómetro dos sentimentos, onde ficámos no fim de tudo...

É no silêncio da casa vazia, ainda com os risos, as conversas e as correrias dos miúdos bem vivos na memória, que conseguimos olhar o copo (meio cheio? meio vazio?) e nele espelhar o que somos ali, naquele momento, no fim da festa...

É com o respirar profundo dos miúdos, que dormem alegres com as prendas, com os risos e as surpresas, que encontramos a paz interior para descobrir como nos demos à festa que acabou e o que ela nos deu em troca...

É nos sacos cheios papeis rasgados e caixas vazias, que espreitamos as expectativas e descobrimos quais as que encontraram eco e as que, sozinhas abandonaram a festa mesmo antes do fim...

É no fim da festa, quando desligamos as luzes coloridas que piscam no pinheiro, que sentimos o vazio da sala depois da agitação e procuramos o sentido de cada gesto, de cada palavra, e cada entrega em forma de olhar...

É no fim da festa, quando cansados nos deitamos finalmente, que percebemos que ao fundo do corredor se aproxima já outra festa. E as loiças voltarão para a mesa, as crianças voltarão e correr alegres com os brinquedos novos e toda a casa se tornará a encher de sorrisos, palavras e olhares cúmplices. E nós, novamente embrulhados em expectativas (umas com eco, outras sós) tornaremos a sorrir, até porque é só no fim da festa, quando arrumamos a loiça...

LL

"A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"

“O primeiro dia do resto da tua vida” - Sérgio Godinho

sábado, dezembro 27, 2008

O Natal cheira a café, João?

Todos os dias, nas férias de Natal, ele vinha de mansinho, sorrateiro, pelo comprido corredor que separava a cozinha da minha avó do quarto onde eu, ensonada, rebolava ainda no quentinho dos lençóis.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele entrava pelo quarto dentro, decidido, sem pedir licença e, saltitando, enchia a escura divisão com a sua alegria e boa disposição, como que a dizer "levanta-te dorminhoca".

Todos os dias, nas férias de Natal, eu ainda na cama, ronronava "só mais um bocadinho, está frio...", mas a sua agitação e energia acabavam por me contagiar.

Todos os dias, nas férias de Natal, seguindo o seu compasso, como que maquinalmente rodopiava pelo corredor fora, enquanto vestia o roupão, calçava as pantufas e, com as mãos arranjava os cabelos que, teimosamente, voltavam à posição inicial de eriçados e despenteados.

Todos os dias, nas férias de Natal, à porta da cozinha eu abrandava e, mesmo à entrada parava para observar os movimentos coordenados com que a minha avó a preparava a mesa do pequeno-almoço.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele enroscava-se debaixo da mesa da cozinha, enquanto a minha avó, pontual, arranjava a mesa como se de um banquete se tratasse.

Todos os dias, nas férias do Natal, na mesa do pequeno-almoço, com a toalha que ela própria bordara, nada faltava, desde o pão ainda quente, à compota de ginja na tigela, ao leite já quente a fumegar em pequenas fumarolas nas canecas...

Todos os dias, nas férias de Natal, com a mesa do pequeno-almoço já posta, o café invadia a casa e, em completo desdém para com os outros aromas, numa dança de cheiros chamava os que, ensonados, não tivessem percebido que a hora de ir para mesa chegara.

Todos os dias, nas férias do Natal, eu sentada na mesa do pequeno-almoço e ele enrolado aos meus pés, com um festim de cheiros e sabores... são como um carimbo branco que marca subtilmente o papel de embrulho das recordações...

LL Nov/2005


"Uma noite escrevi o teu nome
num café
a cafeteira adormece breve
mesmo ao pé

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Não me enjeites quando te escrevo
o que à memória me vem
contas contadas, contas da história
que a ninguém devo, a ninguém

Já não vejo razão para calar
as múrmures águas na areia
sobre a praia a maré cheia
enche toda antes de vazar

A noite dura para além da tarde
cerveja com levedura
vaga de espuma entre o meio dia
calma a garganta que arde

O tesouro no ventre do mar
não será para quem mareia
como é bom dormir, acordar
preguiçar em branca açoteia

O sentido que eu tive da vida
num café
o que foi certo para mim um dia
já não o é

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Cão vadio, cão sem raça
pela rua a vaguear
candeeiro de luz baça
café moído a exalar

À noite os casais devassam
os enigmas duma luz mansa
os sonhos idos de criança
como farrapos soltos que passam."


Cheiro a café – João Afonso Lima

terça-feira, dezembro 23, 2008

Como se escrevem votos de Natal, David?


Natal à beira-Rio


É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira, Obra Poética


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Não sei escrever votos de Natal.
Não sei fugir das frases que, de tão gastas pelos postais que se amontoam nesta época, já não sabem a nada...
Não sei onde encontrar a frase sentida, que leva alegria a quem a ler...
Não sei escrever votos de Natal.
Escrevo, mas quando leio diluo-me numa tinta branca, àspera, de palhaço pobre...
Escrevo, mas perco-me nos ramos de azevinho com cheiro a canela e as letras, mal desenhadas, perdem-se num borrão de palavras desconexas...
Não sei escrever votos de Natal.
E então, encomendo as palavras dos outros, dos que sabem da alegria, da magia, dos que encontram as palavras... mas depois fico a pensar se essas serão ou não as palavras certas e, sem resposta, não escrevo nada...
Por isso, perdoem-me, mas não sei escrever votos de Natal!

LL