domingo, dezembro 21, 2008

São precisos dois para dançar a Valsa, Chico...

(segundo de três ensaios para "Valsinha" de Chico Buarque)


Sinto-me esgotada… há uma sensação de cansaço profundo que me invade desde há dias (ou serão anos?!)... Não é cansaço físico, estou em plena forma, faço exercício todos os dias, alimento-me bem, durmo sete horas por dia, mas... sinto-me desanimada!

Trabalho no Ministério da Justiça, tenho um horário óptimo que me permite sair às 17:00 e fazer o que me apetece. Saio e vou ao Ginásio, faço yoga, pilates, alongamentos, sei lá, faço tudo o que há para fazer. Mas ultimamente sinto-me sem vontade… não sei o que se passa, ando assim há dias (ou serão anos?!)… Tinha outros planos para estes finais de tarde, pensava que ficaria a tomar conta dos filhos, mas eles nunca aconteceram...

O meu marido trabalha num banco, é gerente de balcão, e nunca chega a casa antes das 21:00, acabo sempre por jantar antes dele chegar. Quando casámos fazíamos tudo em conjunto, parecíamos umas lapas! Queríamos ter três filhos, casa de férias e fazer muitas viagens!

Costumo ir ao ginásio ao fim da tarde, adoro descer a Infante Santo e olhar o Tejo! Nos dias de Sol tem um azul cintilante, e nos dias de nevoeiro parece uma passagem para a “Quinta Dimensão” com um manto cinzento que flutua em cima das águas. Nestes dias nem tenho ido ao Ginásio, nem tenho visto o Tejo, ando desanimada, sem vontade de fazer nada…

O meu marido nunca chega cedo, por isso faço o jantar, arranjo-lhe o prato e vou para o sofá com um tabuleiro fazer zapping pelos canais do costume, à procura das séries do costume, sozinha comme d'habitude… Quando casámos íamos ao cinema todas as semanas!

Este cansaço imenso que me invade desde os últimos dias (ou serão anos?!) é que me está a atrapalhar a vida… Já nem ao Ginásio me apetece ir. Quando casei pensava ter três filhos, um é pouco, dois é piroso, três é o número certo! mas nunca aconteceu...

Sinto-me esgotada, não fisicamente, estou em boa forma. Mas não sei o que se passa, tenho andado triste, invade-me uma falta de ânimo a cada minuto (ou será a cada ano?!)…

Quando o meu marido chega, estou tão cansada que muitas vezes já adormeci. Ainda nem lhe consegui falar deste assunto, não tive tempo, ele tem uns horários horríveis… Quando casámos parecíamos duas lapas, fazíamos tudo juntos!

Quem sabe um destes dias lhe telefono e ele vem mais cedo para casa e janta comigo e vamos os dois ver o Tejo à noite espelhar as luzes da cidade… E se ligar hoje?!


LL 19-04-2006

(para não perder de vista a "banda sonora", aqui fica novamente)

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"


Valsinha - Chico Buarque

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Como se dança a Valsa, Chico?!

(primeiro de três ensaios para a "Valsinha" de Chico Buarque)



Não somos um casal diferente dos outros...

Estamos casados há 20 (serão 23?) anos. Conhecemo-nos no último ano do Liceu, ela era linda, alegre, cheia de vida! Casámos cheios de planos, três filhos, casa de férias, muitas viagens.

Não somos um casal diferente dos outros...

Acabámos os cursos já casados, eu Economia, ela Direito. Temos bons empregos, também trabalhámos para isso, a nossa situação económica é muito confortável.

Casámos cheios de planos…

Trabalho num banco, sou Gerente de Balcão, os meus horários são um bocado exigentes. Ela trabalha no Ministério da Justiça, tem horário flexível e um montão de férias.

Era linda, alegre, cheia de vida!

Chego a casa muito tarde e normalmente janto sozinho, ela vai ao ginásio e fica cheia de fome, deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por se deitar e adormecer.

Não somos um casal diferente dos outros…

Acabámos por nunca ter filhos, primeiro os cursos, depois os empregos, depois os novos empregos e acabou por não acontecer, não foi uma opção… simplesmente não aconteceu.

Conhecemo-nos no último ano do liceu, ela era linda!

Hoje temos uma situação económica muito confortável. Costumamos tirar duas semanas de férias juntos em Janeiro, vamos sempre para o Brasil.

Ela tem um montão de dias de férias…

Casámos cheios de planos, ela era alegre, linda e cheia de vida!

Chego a casa muito tarde, ela deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por adormecer. Os meus horários são um bocado exigentes…

Não somos um casal diferente dos outros… Casámos cheios de planos...

Estamos casados há 20 (ou serão 23?) anos. Ela era linda, alegre… cheia de planos!

Não somos um casal diferente dos outros… Chego a casa muito tarde… Ela era linda, alegre…

Se sair agora, será que ainda vou a tempo de não jantar sozinho?!


LL - 23-03-2006














"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Valsinha - Chico Buarque

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Rodopiou, Mário...

Voou, rodopiou no ar, fez uma pirueta e poisou de mansinho aos meus pés...

Baixei-me para lhe pegar - O que és?! O que queres comigo? Afinal não foi um acaso que te trouxe até mim. Não. Voaste, rodopiaste, fizeste uma pirueta no ar e, por fim... poisaste nos meus pés. O que és? Um papel?! Que queres de mim afinal?!

Baixei-me para lhe pegar, para matar a curiosidade que me enchia ao olhar aquele pedaço de papel amarelado que Me escolhera para se dar. Mas as costas discordaram do gesto e, num pequeno estalido, fizeram sentir a sua opinião...

Ai! As cruzes... que raio! Deixem-me baixar mais um bocadinho... A curiosidade a roer-me - O que és tu?! Que queres comigo? E as costas a obrigar um movimento brusco, contrário à minha vontade... a endireitar-me, a esticar-me.... Ai! As cruzes... que raio!

E nesse instante uma leve brisa a soprar e o papel amarelado poisado aos meus pés a ensaiar um novo voo... Não! Espera! És meu... escolheste-me a Mim para te dar... Eu já te apanho, é só curvar-me um bocadinho e... Ai! As cruzes...

E a brisa novamente, a soprar, a embalar o voo rodopiante do Meu pedaço de papel amarelado.

Enquanto acompanhei a sua fuga ao sabor do vento... ainda consegui ler "Lotaria do Natal"...

LL - 29-Março-2006


"Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sois;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lirios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas –
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, paúes, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas –
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!... "

Rodopio - Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'