domingo, dezembro 14, 2008

Quem foi Luís...?

"Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Devagar"

Memórias de um beijo – Luís Represas
(in "Terra firme" Trovante 1987)


Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem foi que ofereceu aos céus a força do meu abraço e o deixou embalar o luar?
Quem foi que contou ao vento o que sinto e o deixou gritar ao mar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem abriu as portas aos rios e à corrente para o coração inundar?
Quem mergulhou ao fundo do mar e trouxe o azul que embala o meu sonhar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem baralhou a bússola que nos fez perder norte do mundo?
Quem disse que a verdade é um poço sem fundo?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem disse que o arco-íris não existe? Que o homem não pode voar?
Quem sonhou um caminho novo, com pedras de mil cores, para nos encontrar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Atrás das "chuvas" de Fausto...

A enxurrada começara há já cerca duas horas, aos poucos a rua tornara-se o leito de um rio e a força das águas levara consigo os carros, os caixotes, os papeis e o lixo até esta se tornar límpida e transparente.

As primeiras fotografias passaram quase despercebidas no meio da corrente, mas rapidamente se multiplicaram e a sua presença impôs-se no meio daquele estranho espectáculo.

Fotos antigas, descoradas... Fotos de um bebé (uma menina, seria?!), um bebé banal, com o rabito ao léu em cima de uma almofada no estúdio do fotógrafo; a comer papa ao colo de uma senhora (a mãe?!); a brincar com bonecas (sim, era uma menina!); a primeira comunhão com um vestido de cerimónia branco; no parque infantil a andar de baloiço; num aniversário com os pais e um bolo com 5 velas (seriam os pais?); de bibe num grande pátio escolar com outras crianças... Fotos banais de uma criança banal.

No meio das fotografias as águas, agora mais lentas, traziam cadernos pautados de capa preta, com exercícios de escrita numa letra insegura, outros quadriculados onde a tabuada começava, lentamente, a diluir tornando-se num enorme borrão ilegível.

Apareceu depois, uma boneca já gasta com o cabelo eriçado, uma saia colegial de tecido escocês plissada, um vestido juvenil de cerimónia fora de moda, uma almofada de peluche vermelho em forma de coração, que ficou presa no portão das garagens do último prédio da rua, com a palavra “Amo-te” bordada em letras amarelas, velhas caixas de bombons com grandes laços já esgaçados, brincos, anéis e mais fotografias que, com a corrente, foram lentamente descendo a rua num desfile bizarro de objectos desconexos.

Ao fundo da rua, uma mulher de cabelo branco preso em caracol com um gancho azul turquesa, olhos meigos e profundos e a sabedoria que apenas o passar dos anos oferece; recolhia calmamente as memórias que desaguavam no pequeno largo que ligava à avenida principal. Fazia-o de uma forma terna, quase maternal, sem se preocupar com as roupas molhadas que se lhe colavam ao corpo. Recolhia memórias para depois as guardar no seu colo, protegendo-as da força das águas.

Aos poucos retirou todas as lembranças que a água trouxera e, depois de confirmar que não restava mais nenhuma, embrulhou delicadamente os objectos na saia e subiu a rua, lutando contra a força das águas que teimavam em empurra-la para trás.

Chegada à porta da nascente, subiu as escadas e entrou na casa de onde saíram as lembranças.

Num canto da sala Madalena soluçava ainda, estremecendo o corpo enrolado sobre os joelhos no chão frio de tijoleira vermelha, que lhe conferia um ar frágil e infantil, como se de uma pequena criança se tratasse.

A mãe chegou-se a ela, fez-lhe uma festa a cabeça e, com muito cuidado, retirou uma por uma todas as lembranças boas, desde a primeira fotografia da menina ainda bebé. Em seguida retirou as más, as tristes e amargas. Colocou-as todas seguidas por ordem cronológica e mostrou-lhe que umas não existiriam sem as outras sussurrando-lhe levemente ao ouvido “sabes Madalena? atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão de vir (*)...”

Lá fora, as águas deixaram de correr e a rua voltava, pouco a pouco, à normalidade.



LL - Novembro de 2006











(*)
Atrás dos tempos – Fausto Bordalo Dias

“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeirasUmas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P'ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir “

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Passamos pelas coisas de Andrade...

"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade - As mãos e os frutos


Passamos uns pelos outros, sem nos tocarmos, quase sem nos olharmos.
Passamos uns pelos outros sem nos darmos, sem nos sentirmos.

Se um de nós, em sentido contrário nos chama... passamos sem ouvir, estranhos a um comportamento que desconhecido. Se um de nós, em contramão nos ama... passamos sem sentir, críticos a um comportamento desinibido.

Passamos uns pelos outros correndo, e vamos viviendo sem sabor, envelhecendo, apodrecendo, ficando gastos...

Porque deixámos de sentir? Porque deixámos de responder? Porque deixámos de viver?

Voltemos atrás! Tenhamos a coragem de estrecemer, de viver, de sentir, de chamar, de pedir e de amar!

"É urgente um barco no mar..."

LL 30-03-2008