terça-feira, dezembro 09, 2008

"A verdade" segundo Almada Negreiros...

Estavam dois homens, aparentemente amigos, sentados numa mesa de café. Daqueles cafés lisboetas com história de Tertúlias Literárias que, se escutarmos com atenção ao fundo, atrás do barulho da máquina que mói o café, das vozes que entram e saem, das chávenas que se arrumam no balcão, podemos ainda sentir o som das palavras, a força da poesia, a verdade das convicções.


Estavam então dois homens, aparentemente amigos, sentados na segunda mesa, à esquerda quando se entra, com dois cafés já bebidos, uma água das pedras quase cheia e um cálice que tanto podia ser de vinho do Porto como de ginjinha meio vazio. A um canto da mesa, amontoados e sem qualquer ordem aparente, cinco ou seis livros de autores e géneros tão diferentes que podiam ter sido escolhidos ao acaso numa qualquer livraria da moda.


O homem mais velho, alto, magro, com um farto bigode e roupa algo fora de moda, parecia enervado e, rompeu o silêncio energicamente:


-Mas afinal, explique-me lá o que fez com os meus livros?! Diga-me homem! Não espera, com certeza, que depois de lhe confiar a minha colecção das obras de Fernando Pessoa, aceite este monte livros mal amanhados que, além de não serem meus, nada têm em comum com os que lhe emprestei... Vamos homem, explique-se!

O outro homem, mais novo, atarracado e gordinho, com uns óculos quadrados e um certo ar de cientista louco, respondeu ponderada e calmamente, como se alheio ao nervosismo do outro:

-Já lhe disse, a minha filha que tem três anos, encontrou os seus livros na minha mesa-de-cabeceira e, além de os riscar por completo, arrancou quase metade das folhas a cada um. Não se pode culpar uma criança por um erro inocente, mas como o tenho em grande consideração e sei que os seus livros eram peças quase únicas, resolvi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

-Mas... estes livros não são nem parecidos com os meus... Não, desculpe mas não acredito em nada do que disse. Por favor, diga-me a verdade!

O homem do bigode estava notoriamente zangado e a sua postura confirmava-o, virava-se de um lado para o outro sem se conseguir aquietar. Por outro lado, o homem dos óculos quadrados mantinha a calma e acabou por responder:

-Pede-me a verdade, assim o farei. A minha mulher encontrou os seus livros em cima da minha mesa-de-cabeceira, como é muito arrumada e não suporta coisas fora dos sítios, ficou desnorteada com a situação e, ao pegar nos livros para os arrumar numa qualquer prateleira, entornou o copo de água que, infelizmente também estava, desarrumado, na mesa-de-cabeceira... ora os livros ficaram completamente encharcados. Como o tenho em grande estima e sei que os seus livros eram peças quase únicas, embora totalmente inocente do acontecido, decidi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

O homem do farto bigode, cada vez mais exaltado levantou a voz e disse:

-Eu quero saber exactamente o que aconteceu com os livros que lhe confiei. Diga-me a verdade!

Mantendo o aparente alheamento, o homem com ar de cientista louco respondeu suspirando:

-A verdade, diz? Pois bem, então a verdade é que lhe pedi os livros emprestados para cair nas sua boas graças. Fiquei comovido por me ter emprestado exemplares raros das obras de Fernando Pessoa, mas nunca os cheguei sequer a ler. Na verdade, e infelizmente, a minha filha que tem três anos e a minha mulher que é muito arrumada...


LL 12-Abril-2006

"Eu tinha chegado à escola. O mestre quiz por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casatomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... a minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre!quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos annos sem escrever. Ora isso é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lh'o disse!

Fiquei muito tempo calado, de repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida côr-de-rosa! A boneca tinha pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha dedos finos..."


A Verdade - Almada Negreiros in A Invenção do Dia Claro

(versão original)

sábado, dezembro 06, 2008

A janela de Cecília Meireles...




Houve um tempo em que a minha janela dava para o céu, era tão alta, tão alta que não tive tempo de crescer para nela me abeirar e descobrir o que escondia para além das nuvens de Inverno que me diziam de manhã "vamos chover", ou dos nevoeiros Outonais que a empalideciam como a um espelho de casa-de-banho depois de um duche que, ao invés de nos reflectir o corpo nu embirra num sombrio, cinzento e macilento esgar que nada transpõe, ou da luz clara, límpida e forte que me acordava nas manhãs de Verão.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma floresta de prédios, telhados sem telhas bonitas como as que daqui avisto, apenas cinzentos, cobertos de antenas desarrumadas como se bailarinos de dança moderna, daquelas em que cada um se move devagarinho sincronizado com o seu par num palco que se assemelha a um arranjo de entulho, delicadamente embalado pela brisa marinha. Janelas e janelas sem fim, com roupa que parecia também cinzenta, poluída, numa monotonia quebrada aqui e ali por uma ou outra floreira que, timidamente tentava sobreviver no meio do betão.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um mosaico de quintais, alguns bonitos e arranjados com flores, vasos, banquinhos e churrasqueira para os almoços de domingo, em que filhos e netos se iam multiplicando e enchendo todo o mosaico numa azáfama de sons, cheiros e cores. Outros carrancudos, moribundos e sem graça, como os seus donos, senhores de roupão cinzento e senhoras de avental branco imaculado que a eles se abeiravam apenas às segundas de manhã, para a limpeza semanal (longe da azáfama dos almoços de domingo).

Houve um tempo, ainda, em que a minha janela se abria em par para o Tejo e dele sugava a claridade e a vivacidade suficientes para dar cor aos muitos e muitos carros que dela contabilizava enquanto os via passar, num constante frenesim de carreirinho de formigas incansáveis e imparáveis na sua lufa-lufa diária.

Hoje, quando abro a janela, às vezes encontro o canto de um galo tropeçando na buzina de um carro mais apressado. Às vezes, no Verão, quase que me invadem os troncos cobertos de folhas que teimam em atravessar a rua e entrar janela dentro. Outras vezes, no Inverno, os mesmo troncos já despidos fitam-me como que num lamurio de frio, que o cacarejar de outra galinha se apressa a abafar...

LL 16-11-2005


quinta-feira, dezembro 04, 2008

Adeus, Eugénio...

Um entre tantos casamentos falhados. Uma entre tantas divisões de bens, (e os males?! quem fica com os males?) o carro fica para ele, os electrodomésticos com ela, a aparelhagem leva-a ele, os pratos e os tachos abalam com ela.

Tudo se divide, tudo se quantifica, se pesa, se mede... Até que fica apenas o vazio de uma casa assombrada.

Meto a chave à porta e ao girar o canhão da fechadura acordo os sorrisos, as palavras, os amores e os desamores que ali viveram. Sobressaltada volto atrás e afasto-me da porta com a chave na mão.

Que se passa, estás bem?

Sim. Não, não é nada, deixa lá, abre tu a porta.

Dou-lhe a chave e ao estendê-la vejo as memórias dos escassos anos em conjunto projectadas no pequeno buraco da fechadura.

Ele pega na chave, abre a porta num só gesto e entra sem ouvir as gargalhadas ao calor da lareira do primeiro inverno; sem ver os lanches de domingo na mesa pequena da sala; sem se dar conta da cama que geme no quarto do fundo ou dos soluços abafados no canto da cozinha.

Um pouco a medo avanço pela entrada nua e oiço o vazio da casa. Foi tudo pesado, medido, quantificado, falta apenas dividir o pouco que ficou esquecido,

Leva tu este cesto...

Aproveita aquela manta...

Tropeço num riso e choco com um murmúrio,

Este sorriso, levas tu...?!


LL 30-11-2005


"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."




Adeus - Eugénio de Andrade