terça-feira, dezembro 02, 2008

Porquê, não sei ainda...

"A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda"

Inquietação - José Mário Branco
(cantado no CD "Ser Solidário")

Bem aventurados os que não conhecem esta sensação que, como uma sombra nos segue, nos espera ao virar da esquina, nos surpreende quando olhamos o espelho e nos embala nas noites em branco...

Esta inquietação de saber que, a cada flor que desponta, a cada alvorada que nasce, há sempre alguma coisa que não percebemos, que não compreendemos e que não sabemos como resolver...

quinta-feira, novembro 27, 2008

um sentido p'rá vida...

Não procures a "chave que abre a porta do castelo de Chuchurrumel"(1)

ela não te vai abrir o sentido da vida...

Levanta o tapete debaixo do qual guardas os tesouros de cada dia

é no pó que se espalha a cada suspiro que respira o sentido de tudo o que em ti vive.

"Ó lua faz-me uma trança
P'ra de dia desmanchar
Guarda-me a última dança
Quando o fio se acabar

Gosto de ver o teu rosto
Que a mil caminhos se presta
Para uma noite desgosto
Por uma noite de festa

Voltaria à tua terra
Por um mergulho de mar
Entre a cidade e a serra
Fica algures o meu lugar

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida

Se te fizeres ao caminho
Em horas de arrebol
P'ra fermentar o meu vinho
Traz-me um pedaço de sol

Vamos escrever uma história
Rever um filme a passar
Logo virá à memória
O que eu te queria dar

Será verdade ou mentira
Como um segredo roubado
Sou como a lua que gira
Hei-de dançar ao teu lado

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida"

"À porta do mundo" - João Afonso Lima

(cantado por Filipa Pais no CD - A porta do Mundo)

(1) O castelo de Chuchurrumel - Lenga-lenga tradicional

quarta-feira, novembro 26, 2008

Quantas vezes me deixo levar...

Quantas vezes, me deixo levar
e enganada me vejo
quem me dera estar segura
que tudo o que desejo
apenas no meu conto vai morar
(à minha querida Sofia)

"A cantar, a cantar é que te deixas levar

A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

Lenço branco
Perdeste-te no cais
Pensaste "nunca mais"
Disseram-te "até quando"?
A cantar
Fizeram-te calar
A dor que, para dentro, ias chorando
Tanta vez
Quiseste desistir
E vimos-te partir
Sem norte
A cantar
Fizeram-te rimar
A sorte que te davam com má sorte

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

Tanta vez
Para te enganar a fome
Usaram o teu nome
Nas marchas da Avenida
A cantar
Puseram-te a marchar
Enquanto ias cantando distraída
A cantar
Deixaram-te sonhar
Enquanto foi sonhar à toa
A meu ver
Fizeram-te esquecer
A verdadeira marcha de Lisboa

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tentas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti"

"A cantar" - José Mário Branco

(cantado pelo Camané no CD "Pelo dia Dentro")