segunda-feira, novembro 17, 2008

Não se deve falar demasiado...

Falamos, falamos, falamos... tantas vezes só para nos ouvirmos falar, para validarmos os nossos pensamentos, as nossas decisões, as nossas opções.

Mas há coisas sobre as quais não se deve falar muito, como os sonhos... antes devemos protegê-los, alimentá-los e mantê-los. Não em segredo, fechados do mundo... Partilhados com quem entenda a língua dos sonhos, mas resguardados dos cépticos, dos calculistas e dos não-crentes (não poucas vezes representados por nós mesmos)...

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre...
Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber...
Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar.
Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração.
Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”
Fernando Pessoa in O Marinheiro

domingo, novembro 16, 2008

E se...

"E se for escorregar
pelo sol até o tombar
E se o mar se escorrer
pelo céu até se afundar
E se a luz romper a noite
e um boi voar
Se a lua for onde eu morar
daqui quero saltar
E se for num momento
para o tempo
eu vou incendiar:
irei ao coração de cada um atear
E se o amor anda a pôr
o mundo de pernas para o ar
E se alguém fora prender
toda a dor só para brincar
E se o céu cair e da Terra
chover granizo doce
E se eu beber as estrelas
e as trincar
E se as flores se pôem a cantar
E se os anjos vierem dançar
É aqui - eu já sei que estou viva-
este é o meu lugar
vou ficar"

Miguel Farias

(cantado pela Filipa Pais em "A porta do mundo")

E se a voz me faltar? E se falar alto demais? E se me esqueço do texto? E se não gostarem de mim? E se for o centro das atenções? E se chover? E se o vento não estiver de feição? E se eu não tiver razão? E se eu tiver razão? E se correr mal? E se correr bem? E se me envolver demais? E se não me conseguir envolver? E se estiver frio? E se estiver calor? E se for a opção errada? E se for a opção certa?

E se pensar menos

E se sentir mais

E se avançar mais

E se ousar mais

e se...

(talvez) viver mais?!

sexta-feira, novembro 14, 2008

Mudemos de assunto, sim?!

"Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que tece as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?"

Sérgio Godinho
(cantado pelo Sérgio e o Palma no Irmão do Meio)

Às vezes precisamos de mudar de assunto, alterar o registo, criar uma nova narrativa, virar o bico ao prego...

O problema é quando, depois de o fazermos, chegamos à conclusão que "isto está tudo ligado" como dizia o outro (que neste caso até é o mesmo...) e por muitas mudanças que façamos, a nossa história joga-se sempre no mesmo campo. Por muito esforço de mudança o mais que se altera são paisagens, porque o que realmente importa joga-se dentro de nós, da nossa essência e essa, se não muda com cantigas... (E ainda bem, diria eu!)

O que é importante então? Ter a capacidade de "inventar uma outra narrativa" sem perdermos aquilo que nos define, o fio condutor que faz de nós pessoas únicas e irrepetíveis e fazê-lo com amor, carinho e muita coragem!