domingo, novembro 16, 2008

E se...

"E se for escorregar
pelo sol até o tombar
E se o mar se escorrer
pelo céu até se afundar
E se a luz romper a noite
e um boi voar
Se a lua for onde eu morar
daqui quero saltar
E se for num momento
para o tempo
eu vou incendiar:
irei ao coração de cada um atear
E se o amor anda a pôr
o mundo de pernas para o ar
E se alguém fora prender
toda a dor só para brincar
E se o céu cair e da Terra
chover granizo doce
E se eu beber as estrelas
e as trincar
E se as flores se pôem a cantar
E se os anjos vierem dançar
É aqui - eu já sei que estou viva-
este é o meu lugar
vou ficar"

Miguel Farias

(cantado pela Filipa Pais em "A porta do mundo")

E se a voz me faltar? E se falar alto demais? E se me esqueço do texto? E se não gostarem de mim? E se for o centro das atenções? E se chover? E se o vento não estiver de feição? E se eu não tiver razão? E se eu tiver razão? E se correr mal? E se correr bem? E se me envolver demais? E se não me conseguir envolver? E se estiver frio? E se estiver calor? E se for a opção errada? E se for a opção certa?

E se pensar menos

E se sentir mais

E se avançar mais

E se ousar mais

e se...

(talvez) viver mais?!

sexta-feira, novembro 14, 2008

Mudemos de assunto, sim?!

"Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que tece as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?"

Sérgio Godinho
(cantado pelo Sérgio e o Palma no Irmão do Meio)

Às vezes precisamos de mudar de assunto, alterar o registo, criar uma nova narrativa, virar o bico ao prego...

O problema é quando, depois de o fazermos, chegamos à conclusão que "isto está tudo ligado" como dizia o outro (que neste caso até é o mesmo...) e por muitas mudanças que façamos, a nossa história joga-se sempre no mesmo campo. Por muito esforço de mudança o mais que se altera são paisagens, porque o que realmente importa joga-se dentro de nós, da nossa essência e essa, se não muda com cantigas... (E ainda bem, diria eu!)

O que é importante então? Ter a capacidade de "inventar uma outra narrativa" sem perdermos aquilo que nos define, o fio condutor que faz de nós pessoas únicas e irrepetíveis e fazê-lo com amor, carinho e muita coragem!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Ele há dias...

"Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas
Há dias
Em que cada passo é mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus
À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro
Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti
Arranca
Da cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz
Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo."
João Monge
(cantado pelos Ala dos Namorados)
Há dias em que precisava de um colo daqueles que nos parecem dizer que por mais borradas que fizermos estarão sempre lá para nos acolher.
Há dias em que gostava de não ser mais do que o me é esperado ser.
Há dias em que preferia ter mais confiança em mim e ser eu própria sem ter de pedir licença.
Há dias em que gostava que as vidas não fossem complicadas e os sentimentos pudessem ser genuínos.
Porque há dias em que sinto uma enorme necessidade de falar de forma genuína, sem medos, sem amarras, sem máscaras, nem julgamentos.
E há alguns dias em que tento, outros em que até consigo, outros em que nada parece funcionar...
Enfim, nada de novo a leste do paraíso...