sexta-feira, novembro 14, 2008

Mudemos de assunto, sim?!

"Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que tece as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?"

Sérgio Godinho
(cantado pelo Sérgio e o Palma no Irmão do Meio)

Às vezes precisamos de mudar de assunto, alterar o registo, criar uma nova narrativa, virar o bico ao prego...

O problema é quando, depois de o fazermos, chegamos à conclusão que "isto está tudo ligado" como dizia o outro (que neste caso até é o mesmo...) e por muitas mudanças que façamos, a nossa história joga-se sempre no mesmo campo. Por muito esforço de mudança o mais que se altera são paisagens, porque o que realmente importa joga-se dentro de nós, da nossa essência e essa, se não muda com cantigas... (E ainda bem, diria eu!)

O que é importante então? Ter a capacidade de "inventar uma outra narrativa" sem perdermos aquilo que nos define, o fio condutor que faz de nós pessoas únicas e irrepetíveis e fazê-lo com amor, carinho e muita coragem!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Ele há dias...

"Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas
Há dias
Em que cada passo é mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus
À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro
Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti
Arranca
Da cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz
Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo."
João Monge
(cantado pelos Ala dos Namorados)
Há dias em que precisava de um colo daqueles que nos parecem dizer que por mais borradas que fizermos estarão sempre lá para nos acolher.
Há dias em que gostava de não ser mais do que o me é esperado ser.
Há dias em que preferia ter mais confiança em mim e ser eu própria sem ter de pedir licença.
Há dias em que gostava que as vidas não fossem complicadas e os sentimentos pudessem ser genuínos.
Porque há dias em que sinto uma enorme necessidade de falar de forma genuína, sem medos, sem amarras, sem máscaras, nem julgamentos.
E há alguns dias em que tento, outros em que até consigo, outros em que nada parece funcionar...
Enfim, nada de novo a leste do paraíso...

quarta-feira, novembro 12, 2008

A invenção do Amor

"Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor



Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana



Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado



Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo



Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo


É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

(...)"

Daniel Filipe
Editorial Presença



Precisamos (re)inventar o amor, como quem inventa um novo sentido para uma palavra tantas vezes pronunciada, como quem descobre uma nova cor no arco-íris do céu, como quem se apercebe dum novo ritmo na canção já gasta, como quem se permite um novo olhar para o espelho que, de repente, nos devolve um piscar de olhos...