quarta-feira, novembro 12, 2008

A invenção do Amor

"Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor



Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana



Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado



Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo



Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo


É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

(...)"

Daniel Filipe
Editorial Presença



Precisamos (re)inventar o amor, como quem inventa um novo sentido para uma palavra tantas vezes pronunciada, como quem descobre uma nova cor no arco-íris do céu, como quem se apercebe dum novo ritmo na canção já gasta, como quem se permite um novo olhar para o espelho que, de repente, nos devolve um piscar de olhos...

terça-feira, novembro 11, 2008

Lisboa não é a cidade perfeita

Porque, por muitas voltas que demos, por muitos caminhos que encontremos e percorramos, ainda que, por vezes, nos percamos... voltamos sempre a casa. Voltamos sempre à nossa casa...

E quando voltamos, entramos devagar, olhamos em volta e reconhecemo-nos em cada canto desarrumado, em cada esquina esbatida, em cada ruga esquecida, em cada mágoa sentida, em cada sorriso deixado ao acaso em cima de uma prateleira...

Entramos devagar para nos reconhecermos, para sentirmos que estamos em nossa casa, aconchegamo-nos e sorrimos, aqui somos sempre bem-vindos!

Voltei à casa das letras que me levam pela mão, me fazem sonhar, me embalam, mas que não cabem noutro lugar senão aqui, na casa da curva das minhas letras...

Por agora, deixo aqui um poema cantado pelos Deolinda, em que no outro dia tropecei e que desde aí não mais me largou, porque tantas vezes me apetece "um dia juntar-me a ela"...

"Ainda bem
que o tempo passou
e o amor que acabou
não saiu ...
Ainda bem
que há um fado qualquer
que diz tudo o que vida
não diz ...
Ainda bem
que Lisboa não é
a cidade perfeita
para nós ...
Ainda bem
que há um beco qualquer
que dá eco
a quem nunca tem voz...
Ainda agora vi a louca
sozinha a cantar
do alto daquela janela ...
Há noites em que a saudade
me deixa a pensar
um dia juntar-me a ela,
um dia cantar como ela ...
Ainda bem
que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela
a seguir ...
Ainda bem
que o Tejo é lilás
e os peixes não param
de rir...
Ainda bem
que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta
do meu ...
Ainda bem ...
Se o destino quiser
esta trágica história
sou eu."
Pedro da Silva Martins

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

José Afonso - Textos e Canções



"Textos e Canções", 1988 (Assírio & Alvim)


Esta é uma referência que hoje não podia deixar de fazer. Com ela festejo Abril e a liberdade de ler, publicar ou tão pouco comentar e presto a minha homenagem ao criador da Utopia no dia em faz 20 anos da sua morte (23 de Fevereiro de 1987).

Este livro é uma compilação da obra poética de José Afonso organizada cronologicamente (por Elfriede Engelmayer) que nos presenteia, não só com os poemas que nos povoam o imaginário colectivo das Canções de Intervenção, mas com tantos outros textos/poemas 'não musicados' e, por isso desconhecidos.


A leitura destes últimos, permite um olhar muito mais profundo, mais íntimo e a descoberta do poeta para além do cantor. "A possibilidade de acesso à obra de um artista é a condição «material» para que elenos seja presente(...)" (Nota Prévia - Pág. 8)


Aqui deixo um cheirinho de alecrim :



A palavra gatinha

Sem nada por cima

A palavra rompe investe perfura

Comprida a palavra perde-se

Em redor da mesa reveste-se e organiza-se

A palavra precisa de ternura


(A Palavra - Pág. 151)