sexta-feira, fevereiro 23, 2007

José Afonso - Textos e Canções



"Textos e Canções", 1988 (Assírio & Alvim)


Esta é uma referência que hoje não podia deixar de fazer. Com ela festejo Abril e a liberdade de ler, publicar ou tão pouco comentar e presto a minha homenagem ao criador da Utopia no dia em faz 20 anos da sua morte (23 de Fevereiro de 1987).

Este livro é uma compilação da obra poética de José Afonso organizada cronologicamente (por Elfriede Engelmayer) que nos presenteia, não só com os poemas que nos povoam o imaginário colectivo das Canções de Intervenção, mas com tantos outros textos/poemas 'não musicados' e, por isso desconhecidos.


A leitura destes últimos, permite um olhar muito mais profundo, mais íntimo e a descoberta do poeta para além do cantor. "A possibilidade de acesso à obra de um artista é a condição «material» para que elenos seja presente(...)" (Nota Prévia - Pág. 8)


Aqui deixo um cheirinho de alecrim :



A palavra gatinha

Sem nada por cima

A palavra rompe investe perfura

Comprida a palavra perde-se

Em redor da mesa reveste-se e organiza-se

A palavra precisa de ternura


(A Palavra - Pág. 151)



segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Sou um poeta invertebrado - José Luís Peixoto


Sou um poeta invertebrado

Faço perguntas às minhas próprias dúvidas e lembro-me
De um filme antigo quando percebo que não respondem:
silêncio a preto e branco.

Procuro no meu caderno de linhas direitas. Em tempos,
Andei na escola e tinha a régua mais bonita da terceira
Classe. Era um menino de meias e calções.

Encontro uma esferográfica sem tampa e sei que sou
O último kamikaze antes da derrota. É sempre assim:
Um sentimento trágico oriental sentido a Ocidente.

O meu coração está localizado a oeste. Quero invectivar
Contra a própria rosa dos ventos que me fez nascer:
Multinacional sentimento trágico: milhares de filiais.

Quando começo a anotar as minhas preocupações, tão
Importantes apenas para mim, já me esqueci de tudo:
Os segredos esconderam-se atrás de um muro.

Restam as metáforas, alinhadas por ordem de presumível
Intensidade. Escuto-as no meu walkman tonto e desaprendo
Outra vez de ser infeliz.

José Luís Peixoto

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Casa inacabada com baloiço na janela

Moro numa casa inacabada
Feita de terra molhada
Com o céu às cavalitas
Entra, mas desculpa a confusão;
Anda tudo pelo chão,
Não contava com visitas

Comigo mora gente tão diferente
Que às vezes, pontualmente,
Só falamos por sinais;
Cada um tem na sua bagagem
Um bilhete de passagem
Pelos pontos cardeais

Na sala, uma velha cartomante
Lê ao cavaleiro errante
Um destino vencedor;
As cartas falam de perdas e danos
Para, no correr dos panos,
Encontrar o seu amor

Ao fundo, dorme um soldado sisudo
Com umas botas de faz-tudo
E uma paixão de aluguer;
O bêbado que está no quarto ao lado
Chora sempre em tom de fado
O amor de uma mulher

Aquela que tem o corpo na esquina
Diz que também foi menina
Há-de um dia ser feliz
O homem que a usou pelos quintais,
Como é norma entre iguais,
Compreende o que ela diz

Em cima fica o quarto dos amantes,
Dos poetas, viajantes
E dos loucos sem lugar;
Pintaram um baloiço na janela
Com a luz de uma aguarela
Para a lua baloiçar

Assim somos vizinhos de outras crenças,
De outros livros e sentenças
Outras formas de oração;

Mas quando a noite traz os seus momentos
Escapa destes aposentos
Um bater de coração

Revela-se a verdade nua e crua:
Chove mais do que na rua
Trago o fato ensopado
Aqui qualquer um é vagabundo,
Esta casa é todo o mundo
Falta só pôr o telhado


João Monge

(Música de Manuel Paulo http://www.manuelpaulo.net/)