sexta-feira, dezembro 15, 2006

Tabacaria - Álvaro de Campos

"(...)
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

(...)"


Tabacaria (15-1-1928)

quarta-feira, novembro 29, 2006

A nossa casa é todo o mundo


Somos de todo o mundo, trazemos na boca todos os credos, todas as línguas no coração.
Somos loucos, amantes, poetas andantes e cavaleiros errantes. Vagabundos e saltibancos; corremos atrás do amor com o céu às cavalitas.

A nossa casa é todo o mundo, falta só pôr o telhado.

Nos quartos lançamos feitiços à lua e lemos a sina às estrelas cadentes.
Pintámos um baloiço na janela para embalar os sonhos ao ritmo das horas que correm da esquerda para a direita.
Lá em baixo uma lareira consome as angústias e o calor que espalha aquece as paixões aos novos visitantes, curiosos, sequiosos da pedra filosofal.

Somos de todo o mundo, vagabundos de amor, saltimbancos de alegria, corremos as cidades cinzentas com o céu às cavalitas e espalhamos poesia em cartas de amor.

Falamos por sinais e qualquer um que nos sorri, entra na nossa casa e come connosco descalço no chão.

Somos loucos, amantes, cavaleiros e soldados numa guerra sem batalhas, avançando com os corpos num confronto irreal.

Somos poetas saltimbancos, percorrendo a vida com o céu às cavalitas.

A nossa casa é todo o mundo, falta só pôr o telhado.


03-11-2006

Com “Casa inacabada com baloiço na janela”* de João Monge no ouvido.
*in O Assobio da Cobra

terça-feira, novembro 21, 2006

O Poeta Teixeira de Pascoaes


Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.


Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.


Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.


Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


Teixeira de Pascoaes in Poesia de Teixeira de Pascoaes
(Editorial Comunicação)