quarta-feira, novembro 29, 2006

A nossa casa é todo o mundo


Somos de todo o mundo, trazemos na boca todos os credos, todas as línguas no coração.
Somos loucos, amantes, poetas andantes e cavaleiros errantes. Vagabundos e saltibancos; corremos atrás do amor com o céu às cavalitas.

A nossa casa é todo o mundo, falta só pôr o telhado.

Nos quartos lançamos feitiços à lua e lemos a sina às estrelas cadentes.
Pintámos um baloiço na janela para embalar os sonhos ao ritmo das horas que correm da esquerda para a direita.
Lá em baixo uma lareira consome as angústias e o calor que espalha aquece as paixões aos novos visitantes, curiosos, sequiosos da pedra filosofal.

Somos de todo o mundo, vagabundos de amor, saltimbancos de alegria, corremos as cidades cinzentas com o céu às cavalitas e espalhamos poesia em cartas de amor.

Falamos por sinais e qualquer um que nos sorri, entra na nossa casa e come connosco descalço no chão.

Somos loucos, amantes, cavaleiros e soldados numa guerra sem batalhas, avançando com os corpos num confronto irreal.

Somos poetas saltimbancos, percorrendo a vida com o céu às cavalitas.

A nossa casa é todo o mundo, falta só pôr o telhado.


03-11-2006

Com “Casa inacabada com baloiço na janela”* de João Monge no ouvido.
*in O Assobio da Cobra

terça-feira, novembro 21, 2006

O Poeta Teixeira de Pascoaes


Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.


Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.


Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.


Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


Teixeira de Pascoaes in Poesia de Teixeira de Pascoaes
(Editorial Comunicação)

quinta-feira, novembro 16, 2006

Cuidado com as imitações - Sérgio Godinho

Estimado ouvinte, já que agora estou consigo
Peço apenas dois minutos de atenção
É pra contar a história de um amigo
Casimiro Baltazar da Conceição

O Casimiro, talvez você não conheça
a aldeia donde ele vinha nem vem no mapa
mas lá no burgo, por incrível que pareça
era, mais famoso que no Vaticano o Papa

O Casimiro era assim como um vidente
tinha um olho mesmo no meio da testa
isto pra lá dos outros dois é evidente
por isso façamos que ia dormir a sesta

Ficava de olho aberto
via as coisas de perto
que é uma maneira de melhor pensar
via o que estava mal
e como é natural
tentava sempre não se deixar enganar
(e dizia ele com os seus botões:)

Cuidado, Casimiro
cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Lá na aldeia havia um homem que mandava
toda a gente, um por um, por-se na bicha
e votar nele e se votassem lá lhes dava
um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha

E prometeu que construía um hospital
Uma escola e prédios de habitação
e uma capela maior que uma catedral
pelo menos a julgar pela descrição

Mas... O Casimiro que era fino do ouvido
tinha as orelhas equipadas com radar
ouvia o tipo muito sério e comedido
mas lá por dentro com o rabinho a dar, a dar
E... punha o ouvido atento
via as coisas por dentro
que é uma maneira de melhor pensar
via o que estava mal
e como é natural
tentava sempre não se deixar enganar
(e dizia ele com os seus botões:)

Cuidado, Casimiro
cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Ora o tal tipo que morava lá na aldeia
estava doido, já se vê, com o Casimiro
de cada vez que sorria à plateia
lá se lhe viam os dentes de vampiro

De forma que pra comprar o Casimiro
em vez do insulto, do boicote, da ameaça
disse-lhe: Sabe que no fundo o admiro
Vou erguer-lhe uma estátua aqui na praça

Mas... O Casimiro que era tudo menos burro
tinha um nariz que parecia um elefante
sentiu logo que aquilo cheirava a esturro
ser honesto não é só ser bem falante


A moral deste conto
vou resumi-la e pronto
cada qual faz o que melhor pensar
Não é preciso ser
Casimiro pra ter
sempre cuidado pra não se deixar levar.

Sérgio Godinho in Campolide 1979

Não vos parece terrívelmente actual este aviso?!?!

Para meditar... ;-)