sexta-feira, novembro 03, 2006

A amiga da Manuela de Freitas...

Ela tinha uma amiga

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que era quem me atendia quando eu telefonava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia para dizer que não estava


E quando eu insistia, e não desligava
Era sempre a Maria
Que me mentia e me consolava
E perguntava o que é que eu lhe queria

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que nunca sabia por onde ela andava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
De quem se servia quando me enganava

E quando eu lá ia, e não a encontrava
Era sempre a Maria
Que me dizia que ela não tardava
Que me jurava que ela voltaria

Quando eu ia buscá-la, e a gente saía
Era sempre a Maria que nos animava
Quando eu a convidava, e ela não queria
Era com a Maria que eu sempre dançava

E quando eu inventava uma melodia
Era sempre a Maria
Que me aplaudia, e ela não ligava
E eu ficava a cantar prá a Maria

No cinema, no escuro, quando eu a beijava
Ela empalidecia, a Maria corava
Ela não me ligava e adormecia
E era com a Maria
Que eu conversava
E que eu ficava quase até ser dia

Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia p'ra dizer que não estava
Até que outro dia ela me telefonou
E eu disse: Maria...
E eu disse: Maria!
E eu disse: "Maria, vai dizer que eu não estou!"




A não perder a versão musicada pelo José Mário Branco e cantada pelo Camané no album “Pela Noite Dentro” de 2001.

terça-feira, outubro 31, 2006

"Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)" - António Lobo Antunes




Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!
mede-me a fibre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes não vales nada!
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de trances
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes que foi aquilo?
não é chuva
no meu postigo
ai Lurdes Lurdes fica comigo!
não é vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes nem dás por nada
faz-me tisanes
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sózinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!


António Lobo Antunes
in Letrinhas de Cantigas



Agora digam lá, se conseguirem, que o homem não tem piada...

segunda-feira, outubro 30, 2006

A "Utopia" que Zeca nos ensinou...


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente

Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


Utopia - José Afonso
in Como se fora seu filho - 1983