quarta-feira, outubro 25, 2006

Correio Azul - Sérgio Godinho


Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viver
repõe-me o sentido nos sentidos
olfactos
ouvidos
à vista
de tactos
do teu paladar

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar esses blues de pacotilha
renega e perfilha
respectivamente
a torpe indiferença
e o amor ardente
amor tão ardente
que dos erros meus
má fortuna se ausente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que me deixe a face roburizada
promete-me a noite fatigada
de termos aberto o nosso nexo
ao sexo
da vida
porção destemida
da nossa emoção

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que branqueie o passado num momento
paixão, é no corpo o sentimento
que faz da razão montanha russa
aguça
o encanto
mas no entretanto
faz estragos mil

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
para eu guardar no castanho dos armários
no meio de testemunhos vários
escritos por letras tão distantes
murmúrios amantes
que a vida me oferece
só por muito amar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente


Ségio Godinho in Domingo no Mundo (1997)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Se cada dia cai - Pablo Neruda


*Moonshine, Jose Marquez

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.


Pablo Neruda
(Últimos Poemas)


segunda-feira, outubro 16, 2006

Mudam-se os tempos - José Mário Branco


A todos os que têm coragem para mudar:



"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança.
Tomando sempre novas qualidades.

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades.
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança.
E do bem, se algum houve, as saudades

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

0 tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
e em mim converte em choro e doce canto

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

E afora este mudar-se cada dia.
Outra mudança faz de mor espanto.
Que não se muda já como sola

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança"

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES
Soneto: Luis de Camões / Adaptação: José Mário Branco