segunda-feira, outubro 16, 2006

Mudam-se os tempos - José Mário Branco


A todos os que têm coragem para mudar:



"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança.
Tomando sempre novas qualidades.

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades.
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança.
E do bem, se algum houve, as saudades

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

0 tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
e em mim converte em choro e doce canto

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

E afora este mudar-se cada dia.
Outra mudança faz de mor espanto.
Que não se muda já como sola

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança"

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES
Soneto: Luis de Camões / Adaptação: José Mário Branco

quarta-feira, outubro 11, 2006

Lisboa que Amanhece - Sérgio Godinho

Já vos aconteceu querer adormecer e ter à volta da cabeça uma série de dúvidas, questões, medos e inseguranças que, por mais que nos esforcemos por diluir no lusco-fusco de Lisboa, teimam em não desaparecer? Que fazer quando a meio da noite Lisboa nos sussurra ou ouvidp, de mansinho, perguntas que nos tiram o sono e alteram a imagem do outro lado do espelho?!

Ás vezes é assim, às vezes pergunto-me se estarei a cumprir o papel que me está reservado com a força de quem sabe que temos de nos superar todos os dias, em todas as situações...

Mas é assim mesmo, depois o dia nasce e já tudo volta a ser “tudo aquilo que parece, na Lisboa que amanhece”...




"Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se more
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e ventures

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigure

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece"


Lisboa que Amanhece – Sérgio Godinho

sexta-feira, outubro 06, 2006

Embalar os sonhos - Pessoa versus Almada Negreiros

Maternidade - Almada Negreiros

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”

Fernando Pessoa – O Marinheiro