segunda-feira, agosto 07, 2006

Mulher, casa e gato - Herberto Helder



"Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontrampalavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma

a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa

que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
No mundo tão concreto. "

In ‘As Musas Cegas IV’
Herberto Helder

sexta-feira, agosto 04, 2006

É preciso avisar... - Joaõ Apolinário



“É preciso avisar toda a gente
dar notícias informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frent
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores “

João Apolinário
É preciso avisar...

quinta-feira, agosto 03, 2006

O que for, há-de ser - Dulce Pontes

E o que teve ser ser... foi!
As viagens fazem-se de varias maneiras. Isto toda a gente sabe e, é mesmo um lugar comum dizer que, a música tem o poder de nos levar a viajar por “mares nunca antes navegados“.

A verdade é que uma das minhas formas preferidas de viajar é pelo som, não só através do som da música, mas da musicalidade das palavras cantadas ou ditas (como é cada vez mais raro termos o previlégio de ouvir textos, poéticos ou não, bem ditos fico-me, normalmente, pelas entoadas).

Ontem recordei os caminhos de terra calcorreados há tanto tempo (terá passado realmente assim tanto tempo?! ou será um mero artifício subconsciente de nos afastar dos espinhos e empurrar a caminho do horizonte?) e percebi que a estrada que tanto procurei em mapas e constelações, somos nós que fazemos, tijolo amarelo por tijolo amarelo à força de avançar e de acreditar... porque o caminho, esse, é sempre em frente jamais volta atrás.


"Ai seja o que for
que o amor me traga,
sei que é Primavera neste Inverno;
Ver que o olhar
é de pequenas rugas e de flores,
tão terno...
Sonhar seu beijo na fronte,
a luz no horizonte,
como o primeiro raio de sol.
Sentir por dentro da calma
a paz e a alma dos que não estão sós.


Linda ciranda
ciranda linda,
gira que gira e torna a girar;
Quando eu morrer
oh ciranda linda, deixa um luzeiro
para que o possa ver!


E sempre à volta a girar,
sempre em volta, no ar
de alma solta a te amar.
Para sempre girar,
sempre em volta no ar,
meu amor, meu amor,
o que for, há-de ser!"

O que for, há-de ser
Dulce Pontes