quarta-feira, agosto 02, 2006

Esperando - Chico Buarque


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnival
E a sorte grande no bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de sperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)"


Pedro Pedreiro
Chico Buarque/1965

segunda-feira, julho 31, 2006

A arte de ser feliz - Cecília Meireles


"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. "

Cecília Meireles

sexta-feira, julho 28, 2006

Silêncio! Que se cantou o fado...


Foi ontem no Castelo de Monsaraz o início da tournée de Mariza... e que início!
Para quem (como eu) não pôde lá estar a Antena 1 emitiu em directo o concerto numa noite que, segundo Armando Carvalheda, foi "perfeita não fosse o vento que teimou em aparecer" e, mesmo sem convite, se fez notar aqui e ali na transmissão.
Dos músicos "os meus amigos" como a fadista os apresenta, esperamos sempre o melhor e, comme d'habittude, foi com o melhor que nos brindaram. Do público ouvimos vozes afinadas e sempre solícitas às provocações da fadista. Do "alinhamento" cantado, todas as músicas poderiam ser realçadas, todos os poemas deveriam ser escolhidos e assinalados.
A Mariza, não sei se fruto do avançado da hora ou se por pura telepatia, aquela voz poderosíssima, quase irreal, teve o poder de me teletransportar para dentro das muralhas do Castelo de Monsaraz, pois se afirmar que consegui ver claramente a sua figura esguia ondulando pelo palco ao sabor dos ritmos cantados, não estarei de forma alguma a mentir...
Aqui ficam as letras de Fernando Pessoa, com as curvas que Mário Pacheco musicou mas só Mariza sabe entoar:
"Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado –
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!"
Fernando Pessoa
No fim do concerto, ficou a "saudade do futuro" de quem aguarda ansiosamente o lançamento em DVD do Concerto de dia 6 de Setembro de 2005, no Jardim da na Torre de Belém com a presença de Jaques Morelenbaum e a Sinfonieta de Lisboa e aquele gosto acre que o FADO nos deixa na boca.