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domingo, abril 17, 2016

paLAVRAS

Dói-me o que trago para te dizer
aperta-se-me a garganta enquanto te canto a canção que embrulhei para te aninhar

Dói-me o que trago para te dar 
queima-me este embrulho que abro minuto - a - minuto para ti

Dói-me o que trago para te entregar 
foge-me este balão que solto no ar para que voes sem mim

Dói-me esta certeza que trago para partilhar 
este saber que recuso mas que se me cola à pele num vestido que, afinal, não é meu

Dói-me! 
Ah! Dói-me esta palavra que tenho de soletrar para que possas voar

Dói-me! 
Ah! Doem-me estas asas
que guardo num frasco de vidro e me gritam para ir, ir ter contigo 

Dói-me! 

Dói-me saber-te quase tão bem como a mim 
e sentir que te doem as palavras que trazes sem me dizer

Liliana 


segunda-feira, janeiro 18, 2016

cAOs

Sento-me no chão da cozinha com a água para a massa a ferver em cacho e a frigideira com o azeite quente à espera da carne. Cá fora nem uma onda a mais no Tejo, nenhum carro a derrapar junto à passadeira, nem uma só criança a chorar pela mãe. Lá dentro um furacão capaz de arasar a cidade e engolir o rio dum só trago.

Sentada no chão da cozinha, com o jantar a chamar por mim, sinto-me perdida entre o que sinto e o que acho que devo sentir. Levanto-me e jogo à apanhada com tudo o que sei que não devia fazer, com todas as palavras que, acho, não devia dizer. Um passo para a frente, um salto para trás e o mundo ao contrário numa sucessão de sentimentos que não consigo controlar e que se espalham à minha volta, na água que ferve e na frigideira quente.

Levanto-me guardando a tempestade num aperto de coração, o mundo cá fora não vê o caos lá dentro. Hesito entre apagar o lume e pôr a massa a cozer, mas o espectáculo não pode parar e os ventos são contidos num novo aperto. Uma leve tontura lembra-me tudo em que, agora, não posso pensar e solta o bater do coração que segue o ritmo frenético interior.

O jantar está pronto e o ritual é cumprido como se um bailado, onde os receios e as inquietações e a dúvida dançam comigo à volta da mesa onde não consigo jantar. Sinto-me perdida entre o ritmo acelerado do coração e a calma aparente com que arrumo a loiça. 

Sento-me no chão da cozinha com os talheres na mão e os pratos arrumados. Cá fora a noite avança tranquilamente com os pijamas e os sacos de água quente e as escovas de dentes. Lá dentro um rufar de tambores descompassados .

O tempo segue o seu rumo, indiferente às minhas dúvidas, e de novo uma tontura que me pede para soltar as emoções que não sei dizer. Procuro as palavras para descrever o que sinto sem espelhar os destroços do marmorto. Não sei o que fazer, mas sei que não posso soltar os ventos que aperto lá dentro, sob pena de deitar por terra as construções que erguemos cá fora.

Sentada no chão da cozinha, com o silêncio do luar que entra pela janela, meço os adjectivos e conto os verbos. Sinto-me perdida entre o que sou lá dentro e o que acho que devo ser cá fora. Digo-me com muito cuidado e espero que me acolhas com todo o carinho.


Liliana


sábado, janeiro 02, 2016

Não te posso abraçar,
os meus braços não chegam a ti,
as minhas mãos
não encontram as tuas

Procuro o teu cheiro na gaveta das memórias
e encontro-me enroscada em ti
numa noite de luar
com a cidade inteira
a dormir

Não te posso abraçar,
o meu colo está vazio
e a cama,
fria,
só me embala a mim

Sei-te aí, aqui, tão longe e tão perto
que, se fechar os olhos com força,
consigo ouvir o teu respirar
calmo,
tranquilo,
de quem se deixa adormecer
devagar

Não te posso abraçar, ainda
que nestas palavras tenha a certeza
de te tocar,
de te sentir,
ao meu lado,
deitado comigo,
aqui,
deitado em mim
abraçado

(será que me sentes aí?)


Liliana


quinta-feira, dezembro 10, 2015

pRoMeSsA

Abro a janela, alta, sob o céu baço de Lisboa. Ao fundo uma promessa de Tejo fala-me de ti. Há dias em que o longe que estamos se torna tão mais longínquo do que a distância que nos divide.

Há uma gaivota pousada em cima da chaminé do telhado em frente. Há uma mágoa que se estende por cima da ponte e apaga o rio. E há um choro, ou um canto, de mar fora do mar. E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.

Abro a janela, alta, e atiro ao vento as palavras que não quero ouvir. Procuro as marcas dos dias claros e pinto o mapa das nossas Primaveras. É sempre mais difícil encontrar o teu norte quando o céu se veste de cinza.

Há uma chaminé e muitos telhados à minha frente. Há ruas e pessoas e carros, que passam, alheios a mim. E há uma promessa dum Tejo, ao fundo, que se esconde de mim.

E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.


Liliana


sexta-feira, julho 31, 2015

Canção

Ligo o rádio do carro e sinto-te sentar ao meu lado na rouquidão de outra voz. Sorrio. Reconhecer-te-ia nessas palavras vagabundas onde quer que estivessem embrulhadas.

Fechas a porta e apertas o cinto, é tempo de te reencontrar num ontem tão longínquo que já só acende a luz do carinho por onde filtro os caminhos que trilhei por ti.

A canção continua, conversando comigo sobre os sentires que apenas os anos conseguem adiar. Apesar de te trazer na memória embalado num sorriso sem fim, perco-me numa ou noutra noite de solidão que, já não doendo, ainda fazem embargar a voz que se quer soltar no refrão da tua. 

Paro o carro à beira-rio e digo às mágoas para saírem.

A canção está no final e eu quero-nos assim, com este sorriso que deixaste em mim.


Liliana

 

sexta-feira, outubro 24, 2014

Astro.Lábio

Embrulhei-me num cesto de palavras doridas, magoadas, desiludidas, e procurei mudar-lhes o significado.

Pintei-as numa tela de algodão, por entre caminhos e possibilidades por onde não avançaram.
Mergulhei-as nas ondas dum mar iluminado pela lua, para que percebessem a beleza do reflexo inconstante nas águas. Mas limitaram-se a deixar-se afundar pelo peso estimado apenas por elas.
Dei-lhes versos de outros olhos para com eles se reinventarem. Mas não os tiraram do papel.
Pronunciei-as com todos os ritmos e entoações que há em mim, mas não as consegui aproximar.
Contei-lhes histórias de outros mundos e baralhei-lhes o sentido, mas nunca as comovi.
Mostrei-lhes o mapa astral, construi-lhes um barco e dei-lhes um astrolábio, para que zarpassem sem medo à descoberta da sua rota. Mas nunca saíram do porto.
Por fim, sentei-me à fogueira e embalei-as com a música dos sonhos. Mas passaram a noite em branco.

Embrulhei-me num cesto de palavras e tentei mudar-lhes o significado com tudo o que tinha para lhes dar, mas na verdade o que pode gerar mudança, não é tanto o que é dado mas sim o que se suspira receber.


Liliana



domingo, dezembro 25, 2011

O natal das palavras...

Há já muito que as minhas palavras se acumulam presas, como velhas caixas esquecidas no sótão, como embrulhos por abrir num armazém esquecido. Os dias, embora de Sol, estão frios por dentro e os doces, luzidios, estão secos e sem sabor.

Procuro nas luzes que brilham, alternando os ritmos, no quarto dos miúdos a forma certa de as soltar. No outro dia escrevi uma num balão iluminado de azul, "Felicidade" dizia, mas preferi guardá-lo para lhos oferecer do que lançá-lo aos céus estrelados. Anda pelo chão, ainda iluminado como uma vela esquecida, no meio dos brinquedos que se amontoam como as minhas palavras, presas como pássaros a quem cortaram as asas.

Cada hora que passa tem o peso que nós próprios lhe atribuímos. Sei-o. Esforço-me por carregar de valor os momentos realmente importantes, sem me perder no meio do barulho dos carros que passam atrasados das crianças que choram com sono da roupa que tenho para estender das estradas que escolho percorrer do frio das noites em branco dos rios que teimam em pingar dos carros que passam atrasados e das crianças que choram de sono...

Amontoam-se-me as palavras que sinto no peito aprisionado entre emoções e receios. Como gostava de as soltar, se as libertasse uma a uma!

Os dias passam acorrentados aos ponteiros dum relógio que não pede licença para avançar, e que corre como uma criança em busca da bola que foge pelo campo. Também os dias têm o valor que nós lhes damos. E a cada um deveríamos ser capazes de validar momento a momento, sem o peso dos nomes das expectativas dos modelos dos medos das formas certas e das receitas dos nossos avós.

Assim são também as palavras, as minhas palavras, presas em âncoras que, mergulhadas num mar tão profundo e escuro, nem com a iluminação de Natal se mostram ou se deixam levar com a corrente até à areia branca duma qualquer praia, quem sabe escritas num papel enrolado dentro duma garrafa de vidro com uma rolha de cortiça ressequida... como nos filmes... de Natal!

Liliana


terça-feira, janeiro 18, 2011

De que cor é a tua palavra, Carlos?


Recorto o tecido azul escuro, ligeiramente ondulado, com a forma de um ovo de... talvez pata, talvez peru (sou filha de Lisboa, o meu contacto com os animais é reduzido). Enfio a linha amarelo-vivo na agulha e coso com pontos largos, contrastando com as calças, o tecido-ovo na perna direita das calças. Seguem-se as gangas, mais espessas e difíceis de coser (nunca aprendi a trabalhar com máquinas, para desgosto das tias e bisavó).

Depois vêm os bibes, com os nomes anteriores e as manchas que já não saem, e os bolsos descosidos. Agora procuro os tecidos de cores vivas e texturas macias, corto-lhes balões, lápis, pincéis e coso um pouco por todo o lado. Os joelhos sorriem, os bibes animam, e os cotovelos inovam.

Pergunto-me se, quando o sol nascer, eles vão querer vestir ou esconder no fundo do armário branco do quarto de dormir.

Procuro outras calças, mais camisolas, bibes, casacos, vestidos, recorto olhos, peixes, balões, nuvens... mas já não tenho onde coser.
Um burburinho obriga-me a continuar a avançar mesmo quando toda a roupa está tratada. Então procuro palavras, junto-lhes as cores e os tecidos que recortei, enfio a linha na agulha e... escrevo.

Escrevo para não me ouvir, a televisão ao fundo é apenas um cenário que me (des)enquadra. Toda a casa, os silêncios do quarto das crianças, o escuro dos corredores, o ressonar no quarto, afasta-se aos poucos para me dar o espaço onde as palavras se encaixam naturalmente, sem esforço.

Às vezes as linhas entrelaçam-se e misturam os sentidos das frases, mas outras são tão lineares que nada mais há a acrescentar, está lá tudo (é só ler).
As cores fazem parte de mim, já não sei ao certo de qual gosto mais, em qual me revejo, com qual me pareço. Então olho para o ecran e sinto as palavras que esvoaçam à minha volta, misturando o azul com o rosa com laranja com o verde e o vermelho, envolvendo as calças e os bibes e os sonos, mais ou menos, silenciosos e os corredores apagados...

Espalhados pelo chão, os tecidos chamam-me para a cama, prometendo uma noite tranquila. Não fujo mais. Coso uma escada com linha castanha-clara e desço por ela até à almofada, esperando adormecer enroscada na palavra sono.
Liliana



"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."

"A palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'

terça-feira, abril 28, 2009

As palavras têm luas, Alexandre?

As palavras têm dias, são de Luas e têm vida própria... O poder de uma palavra depende muito mais do seu humor no momento em que é dita, do que do sentido literal com que foi utilizada. Quantos "nãos" são ditos que, na verdade, significam "claro que sim"?!

O teu "adeus" naquele dia de chuva, por entre as gaivotas que, alvoraçadas, rondavam o Tejo em vôos circulares... Podia jurar que me estavas a dizer "até logo" e, no entanto, os teus lábios secos e ríspidos "adeus", virando as costas e avançando sem hesitar. À noite, quando cheguei a casa, procurei-te nos lençóis ainda quentes, tinha certeza que te tinha entendido bem e, foi no meio dos livros, sorrindo, à espera do meu abraço entre os "desculpa" e os "fui tonto" que te reencontrei.

Mais tarde, depois dos teus muitos outros "adeus" a que se sucederam os sempre iguais "descupa", eu disse-te "sim"... Um "sim" com véu e vestido branco, um "sim" embrulhado num ramo de rosas cor de chá e folhas verdes... Fizeram a pergunta e eu, orgulhosa do meu "sim", disse-o sorrindo. Projectei a voz para que não se perdesse no jardim, mas no momento em que o disse de facto, senti que o sentido estava trocado. Como num filme mal dobrado, os meus lábios articularam o "sim" mas ao fundo ouvi um "isto vai correr mal"... Por isso, quando chegou o dia, não do teu mas do meu "adeus", foi esse "sim" trocado que tive de explicar.

As palavras têm vida própria... soubessemos nós respeitar as suas Luas!
Hoje tenho muito mais atenção aos seus humores. Oiço-as, mesmo antes de as dizer, na esperança de conseguir escolher a palavra certa que exprima a minha ideia. E, de cada vez que digo "sim", ou "não", ou mesmo "adeus", fico muito atenta à espera de lhe ouvir o eco e perceber se, é mesmo essa, a palavra que quero dizer.
Liliana Lima


"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

"Há palavras que nos beijam" de Alexandre O’Neill
in 'No Reino da Dinamarca'