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quarta-feira, agosto 06, 2014

Auroras

Faz-me falta o teu sorriso
ainda que por um dia só
As horas arrastadas que passam
nas horas de estar só,
comigo, no fundo
mais fundo do fundo
da minha concha

Olho o horizonte com os olhos
semi-cerrados à procura dos teus,
aconchegados ao lado de uma ternura,
que me ofereces, mesmo sem saber,
na luz que sabes acender

Em mim,
no fundo
mais fundo
do fundo,
da minha
concha

Faz-me falta o teu sorriso,
nas horas que passam
à procura, aconchegadas,
do horizonte das auroras criadas
no colo da tua ternura.


Liliana


quarta-feira, julho 30, 2014

madrepérola AZUL

Sim, é verdade que os ventos do oriente me balançam e me embalam quando estou contigo. Mesmo que, quando olho para ti o sorriso se agarre à face e, teimoso, não se deixe mostrar.

Sim, é verdade que quando as tuas mãos, ao cruzarem-se com as minhas, ocasionalmente se tocam, as minhas tremem por dentro. Ainda que demorem o dia inteiro a ganhar coragem para, às tuas, responder.

Sim, é verdade que fujo do teu olhar, desenhando voos de gaivotas no céu por mais longe que estejamos do mar. Mesmo que, fugindo, te espere encontrar num virar de face.

Sim, é verdade que te espero numa praia com pedras e um mar disfarçado de rio, para que me encontres dentro duma madrepérola perdida na areia. Ainda que pareça que enterro os pés e olho o pôr do Sol com toda a calma do mundo.

Num sonho de verão sentámo-nos na areia, com a ponte de um lado e o mar a nascer do outro e, sem carros nem telefones nem pessoas nem barcos nem aviões, saí da concha e olhei-te sorrindo.

Num sonho de verão em que o Sol me aqueceu a pele e me ajudou a entrelaçar os dedos nos teus, chegar-me a ti e, sem medos, deixar que os meus lábios muito lentamente tocassem os teus.

Num sonho de verão, em que as palavras e as intenções e as expressões e... os silêncios, eram apenas aquilo que pareciam ser. E nada mais fazia falta.

Num sonho, num daqueles sonhos de verão que, de tão organizados, mesmo depois de acordada consegui lembrar uma madrepérola azul que me protegia do mundo.


Liliana



sábado, maio 03, 2014

Mastro despido

Navego à deriva com um mastro despido, num Tejo sem margens para aportar. Foste tu que me ensinaste a navegar com a força dos humores do vento.

Mas sozinha no barco, rasguei as velas onde bordei histórias de dias claros. Dias num Tejo meu, ou nosso, onde as palavras rodopiavam na água baralhando as gaivotas.

Agora, parada sem maré que me embale, espero por ti numa estrela cadente. Não estás ou não te vejo no céu, nesta noite de lua nova. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota. Foi esse o nosso compromisso, acaso um faltar, o combinado é zarpar.

Navego, ainda, à deriva neste barco instável que, sem vela não me deixa avançar, neste rio parado que não me permite aproximar. 'A noite, que a seu costume tudo transfigura' traz-me à memória outros céus de outros mundos e, em menos de nada, sentada no chão agarro os joelhos com força para afastar os medos.

Sob o céu escuro e o rio cinzento vejo uma figura recortada na margem que me puxa como se um peixe fosse. Encontro o teu sorriso e enrosco-me no teu abraço, este é o nosso Tejo e nele nos encontramos. Enrolo as pernas à tua volta e fundimo-nos num mergulho urgente que agita as àguas e acorda as estrelas. Sou o teu corpo e tu no meu, os braços que se perdem, os corpos que se tocam e se apertam e se dão até que, feito Tejo, desaguas em mim. A ondulação abranda ao ritmo do nosso respirar e toda a cidade se retira para o acordar dos corpos, enquanto a mãos ainda aninhadas nos mantêm seguros num Tejo que é nosso.

O clarear das águas denuncia o amanhecer e os nossos corpos, cansados, voltam a si. Deixo-me embalar mais um pouco no teu sorriso enquanto me ajudas a levantar a vela, uma nova vela que fizeste para mim. Entro para o barco e despeço-me de ti. Sorris e partes pelas ruas da cidade. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota.

Navego nas águas cristalinas do Tejo, baixo a vela e rasgo-a em pedacinhos onde bordo histórias de noites claras. A maré embala-me e os dias sorriem. Até que um dia sem ventos nem marés me veja sozinha à deriva com um mastro despido...


Liliana




segunda-feira, abril 23, 2012

Mar sonhado

Espreito-me por baixo dos medos que me assaltam os sonhos nas noites de lua nova e escurecem as ruas e apagam as sombras. Levanto a cabeça e vejo o sol que brilha naquele horizonte onde, ainda ontem, me via em contra-luz.

Estendo a mão para proteger os olhos da claridade e os fios do sorriso sobem com ela. Quanto mais alto a levanto, mais a minha expressão se abre... Testo os movimentos, no meio de fios que me prendem as pernas e levantam o corpo, e aprendo a mover-me com a maré.

Um final de tarde dourado levanta-se ao mesmo tempo que eu e procuramos o ritmo comum nesta estranha dança que iniciamos. 

Pergunto às ondas porque devolvem à praia, desfigurado, aquilo que antes levaram, perfeito, num rodopio de espuma. Porque engolem nas suas águas revoltas retratos e pinturas que depois, secam desfigurados na areia como um desfile de roupa velha que já ninguém quer.

O mar responde-me num ondular brilhante que o seu trabalho é lavar a praia de cada um de nós. Leva o que adornamos, embelezamos, retocamos ou até remodelamos, e devolve apenas e só aquilo que é verdadeiro e real.

- Levas-me os sonhos... "apenas as ilusões".
- Roubas-me as fantasias... "somente as mágoas".
- Magoas-me... "tu é que te enganas, eu só te mostro a verdade vista com olhos lavados".

Esperneio e grito a um sol que se esconde. E o mar... olha-me, sereno e liso como um espelho, e devolve-me a imagem duma marioneta, refém da minha zanga. Sento-me à beira-mar e deixo que se inundam os olhos.

Apanho as memórias espalhadas pela areia e guardo-as no coração. 

A noite está a nascer e com ela a lua que me fala de mundos que nunca vi. Abeiro-me dum velho barco e deixo que o vento me embale na esperança dum novo olhar. Os remos são pesados e a noite arrefece. Deito-me na madeira e sinto o luar que me beija e embala os sonhos. 

Acordo com uma melodia suave que vem do areal, espreito a medo e vejo ao fundo um corpo recortado na sombra da areia. Aproximo-me da praia e estendo a mão. Retoco os seus traços, amacio-lhe o canto e adoço os seus gestos. Uma nova dança começa.

Até que um dia o mar me invada os sonhos...

Liliana


"O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.
"

Mar-Poesia, 2001 de Sophia M.B. Andresen

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Andar... Lembras-te?!

Andar, andar... Lembras-te de andar até ao farol nos dias de nevoeiro? Quando as nuvens eram tantas que nem a força do Sol era suficiente para as afastar e mostrar o azul-claro do céu. Lembras-te? Lá íamos nós, saltitando, em frente à avó que, sempre muito bem apresentada com a sua saia às riscas e a uma blusa branca imaculada muito bem engomada e "encorpada", nos seguia atenta e desperta.

Olhar o mar ao fundo, as marés vivas batendo nas rochas e, de manhã, "quem se lixa é o mexilhão" dizia ela ao descer até à praia, os destroços duma noite agitada espalhados pela areia em forma de conchas e algas, com que brincávamos aos restaurantes na eterna espera pela bandeira verde, que nunca chegava.

Correr pelas ruas subindo até à pensão São Pedro onde o avô, pontualíssimo, esperava por nós já sentado à mesa para o almoço. Depois as esperas, tempo que pingava tão devagar na ampulheta das férias realmente grandes. Esperas pela sesta, pela hora menos quente, numa terra tão pouco quente, pela volta à praia. Esperas feitas lanches no hall, com os pãezinhos e os bolos da padaria e as manteigas do pequeno-almoço. A criatividade meiga dela. A sua forma de nos abraçar sem enlaçar os braços à nossa volta, mas amparando a ansiedade e tornando o tempo num aliado.

Voltar à praia, sempre fresca e de bandeira quase sempre vermelha, sozinhas, num inspirar de liberdade misturada maresia e um chapéu-de-Sol às flores. Voltar à praia ao nosso ritmo, à nossa responsabilidade de quase-adolescentes conquistada a ferros por muitos "por favor!!!!" e "qual é o problema?!?!?" choramingados aos ouvidos dela....

Os jantares, com os primos do Porto e os vestidos aprovados pelo seu olhar exigente e o casaco, claro, sempre acompanhado de muitas resmunguices e alguns ralhetes. A noite ainda tão criança, e os passeios com o mar ao fundo e os concertos de verão. Lembras-te? Andar pelas ruas ao luar, comendo colares de pinhões e cantando os gingles da rádio...

Andar... Andar, pela estrada à beira-mar, sair da vila e correr com o sal do oceano na cara e o Sol filtrado pela neblina. Andar até ao farol com a avó que inventava lanches e super-visionava vestidos... Lembras-te?

Liliana