E de repente a noite baixa, como uma canção antiga que nos embala na madrugada.
Uma tonalidade improvável enche-nos o peito e canta a tranquilidade do Sol que mergulha no mar.
Como se todos os dias de todos os cantos do mundo se fundissem num inesperado requiem.
Como se todas as ondas de todas as praias se calassem para ouvir o canto de cada búzio.
Como se todos anjos de todas as cores em todas as igrejas se juntassem para deixar ecoar a paz.
E, de repente a noite baixasse, meiga, como uma canção antiga que nos embala na madrugada.
Liliana
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segunda-feira, setembro 10, 2018
sábado, setembro 08, 2018
s.AÍ.ste
Vais sair
Ou melhor já saiste
Para dentro daquele tempo
onde não há espaço
Para mim
Saíste novamente
sem avisar que irias entrar
nesse espaço onde não há tempo
Para mim
Vais sair e eu devia perceber
que deixei de estar
Dentro de ti
Devia saber que ao sair te queres
inteiro, vazio, com a possibilidade única
De ti
Vais sair
ou melhor, já saiste
E eu entrei, aqui
Liliana Lima
Ou melhor já saiste
Para dentro daquele tempo
onde não há espaço
Para mim
Saíste novamente
sem avisar que irias entrar
nesse espaço onde não há tempo
Para mim
Vais sair e eu devia perceber
que deixei de estar
Dentro de ti
Devia saber que ao sair te queres
inteiro, vazio, com a possibilidade única
De ti
Vais sair
ou melhor, já saiste
E eu entrei, aqui
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 30, 2018
REdoMA
Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
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sexta-feira, agosto 24, 2018
não CONSIGO
Não consigo dizer que, não consigo
E enrolo-me numa teia de histórias que separo por cores
Não consigo dizer que, não consigo
E afundo-me num pântano escuro onde não vejo nada
Mas a ti, digo
Não sei pintar as palavras sem que as percebas falsas
Não sei fingir o sorriso que conheces de cor
Mas a ti, digo
Que não consigo avançar
Que não consigo (re)começar
Que nem me consigo levantar
Não consigo dizer que, não consigo
Mas a casa por arrumar
E os filhos para almoçar
E as certezas que devo inspirar
E as peças com que devo jogar
E a vida, enfim, por encarar
Levanto-me
Visto o vestido mais leve
Penteio aquele olhar
Reinvento aquele sorriso
E...
Não consigo dizer
O que dentro de mim está a gritar
Não consigo continuar
Liliana Lima
E enrolo-me numa teia de histórias que separo por cores
Não consigo dizer que, não consigo
E afundo-me num pântano escuro onde não vejo nada
Mas a ti, digo
Não sei pintar as palavras sem que as percebas falsas
Não sei fingir o sorriso que conheces de cor
Mas a ti, digo
Que não consigo avançar
Que não consigo (re)começar
Que nem me consigo levantar
Não consigo dizer que, não consigo
Mas a casa por arrumar
E os filhos para almoçar
E as certezas que devo inspirar
E as peças com que devo jogar
E a vida, enfim, por encarar
Levanto-me
Visto o vestido mais leve
Penteio aquele olhar
Reinvento aquele sorriso
E...
Não consigo dizer
O que dentro de mim está a gritar
Não consigo continuar
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 23, 2018
UM dia
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que seja a primeira a saber
Que nada me escondas porque posso chorar
E mo digas, boca-boca,
Que já não gostas de mim
Um dia, quando deixares de me querer
Que me digas o nome que em ti suspira
Que aquece o corpo que ficou marcado em mim
Que o meu lugar, na almofada da tua cama, ocupa
Um dia, quando te libertares de mim
Que eu te veja, pela calçada, a sair
Que te despeças com leve acenar
E te afastes sem desviar olhar
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que eu seja a primeira a sentir
Que deixes a chave de mim, no portão
E que me sejas meigo no despedir
Um dia, quando deixares de me desejar a mim
Liliana Lima
Que seja a primeira a saber
Que nada me escondas porque posso chorar
E mo digas, boca-boca,
Que já não gostas de mim
Um dia, quando deixares de me querer
Que me digas o nome que em ti suspira
Que aquece o corpo que ficou marcado em mim
Que o meu lugar, na almofada da tua cama, ocupa
Um dia, quando te libertares de mim
Que eu te veja, pela calçada, a sair
Que te despeças com leve acenar
E te afastes sem desviar olhar
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que eu seja a primeira a sentir
Que deixes a chave de mim, no portão
E que me sejas meigo no despedir
Um dia, quando deixares de me desejar a mim
Liliana Lima
domingo, agosto 12, 2018
sabias MEU amor?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer?
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir.
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.
Liliana Lima
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer?
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir.
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.
Liliana Lima
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sexta-feira, agosto 10, 2018
os DIAS em que (não) SOMOS
Olho para o jardim
onde a vida (de)corre dentro
da normalidade dos dias quentes.
Lá fora uma leve brisa
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias
e desarruma sentimentos.
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Vês o Sol que anuncia
a sua chegada no alto de cada
alvorada?
Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta
de cada onda?
Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.
Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.
Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?
Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Liliana
onde a vida (de)corre dentro
da normalidade dos dias quentes.
Lá fora uma leve brisa
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias
e desarruma sentimentos.
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Vês o Sol que anuncia
a sua chegada no alto de cada
alvorada?
Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta
de cada onda?
Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.
Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.
Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?
Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Liliana
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quarta-feira, julho 18, 2018
minha vOZ
Solto o meu canto acordado por ti
Canto este sonho tão vivo em mim
Vives na minha voz
Banho-me neste rio que canto contigo
Abraço este canto que fala de nós
Danço este beijo que te chama comigo
Solto o meu canto acordado por ti
Canto este sonho tão vivo em mim
Vives na minha voz
Onde me abraço
Onde te beijo
Banha-te neste rio que cantas comigo
Abraça este canto que fala de nós
Dança este beijo que me chama contigo
Soltas o teu canto acordado por mim
Cantas este sonho que vive por si
Vives na minha voz
Onde te canto
Onde te solto
Liliana Lima
Canto este sonho tão vivo em mim
Vives na minha voz
Banho-me neste rio que canto contigo
Abraço este canto que fala de nós
Danço este beijo que te chama comigo
Solto o meu canto acordado por ti
Canto este sonho tão vivo em mim
Vives na minha voz
Onde me abraço
Onde te beijo
Banha-te neste rio que cantas comigo
Abraça este canto que fala de nós
Dança este beijo que me chama contigo
Soltas o teu canto acordado por mim
Cantas este sonho que vive por si
Vives na minha voz
Onde te canto
Onde te solto
Liliana Lima
sábado, junho 30, 2018
hoRas
Nem todos os dias a maré sobe e me beija os pés
Nem todas as noites a lua brilha no leito do rio
Há horas que se demoram
No sabor acre da tua ausência
No tocar áspero do teu silêncio
Na impensável ideia da tua indiferença
Nem todos os dias o meu rumo me leva ao Tejo
Nem todas as noites me descalço e entro no seu leito
Há horas que se demoram nos caminhos das marés
Liliana Lima
Nem todas as noites a lua brilha no leito do rio
Há horas que se demoram
No sabor acre da tua ausência
No tocar áspero do teu silêncio
Na impensável ideia da tua indiferença
Nem todos os dias o meu rumo me leva ao Tejo
Nem todas as noites me descalço e entro no seu leito
Há horas que se demoram nos caminhos das marés
Liliana Lima
sexta-feira, junho 29, 2018
dispo-ME
Dispo-me para ti
para que lumines o meu corpo
com as cores do teu olhar
E depois de me pintares
abraça-me no nosso mundo
com a cor dos teus olhos
E enrosca-me juntinho a ti
para que adormeça em paz
Lili
para que lumines o meu corpo
com as cores do teu olhar
E depois de me pintares
abraça-me no nosso mundo
com a cor dos teus olhos
E enrosca-me juntinho a ti
para que adormeça em paz
Lili
sábado, junho 16, 2018
c.ASA
A casa da minha avó tem uma arca de Noé, recheada com animais de cristal (daquele que se parte se, nos dias maus, nos apertar o coração).
A casa da minha avó tem a cama para onde eu trepava enquanto repetia, inconsequentemente, a melodia repetitiva da tabuada (sempre seguida do ralhete por a letra não rimar com a conta).
A casa da minha avó tem os dias bons, com os pratos da sala devidamente espalhados na mesa de jantar, desta vez para almoçar.
A casa da minha avó tem as memórias trazidas da frente do Tejo directamente para as molduras espalhadas um pouco por todo o lado.
A casa da minha avó tem uma menina cheia de sonhos, que escrevia com muitos erros e fazia os acentos ao contrário (devidamente vestidos de flores coloridas), para desespero da professora que, sempre zangada, ia tentando desencorajar a escrita, as flores, as cores....
Mas nada disso importava , porque logo a seguir às aulas a menina voltava... para casa da minha avó!Liliana Lima
quarta-feira, junho 13, 2018
promESSA
Quando me ofereceste o vaso com um laço e um beijo, vi que dos quatro pés que trazia plantados, dois eram rosas vermelhas e outros dois eram, redundantemente, cor-de-rosa.
Escolhi um novo vaso, "a sério", de barro para deixar transpirar a terra e juntei fertilizante. E esperei.
Dois dos pés deixaram cair as rosas que traziam ainda por abrir e as outras choveram pétalas em excesso. Tirei todos os ramos mortos e folhas secas. E esperei.
Quando o sol resolveu espreitar reguei e vi que, três dos quatro pés eram habitados por uns estranhos bichos microscópicos que os rodeavam numa espécie de rede quase transparente. A medo, usei o insecticida em toda a planta. E esperei.
Com a mesma teimosia com que o Sol deixou de brilhar os bichos, quase microscópicos, mantiveram-se tecendo redes de comunicação entre folhas e ramos, apesar dos sprays e das lavagens. Cortei os três ramos quase pela raiz. E esperei.
O único pé que não cortei, continuou a crescer, alheio à aridez envolvente. Vi o nascer de uma promessa de botão. E esperei.
Hoje, com o Sol finalmente a banhar o vaso de barro, o botão abriu em rosa e, a toda a volta dos ramos cortados, nasceram pequenas folhas dum verde muito claro.
Olhei para a rosa e para os futuros ramos e para toda a simbologia que ali cresce neste preciso momento e sorri. Tirei uma fotografia, e registei a memória "para mais tarde recordar". E espero.
Liliana Lima
segunda-feira, junho 11, 2018
aqui!
Espreito o Sol que pede licença para me aquecer a alma.
Olho o céu azul, do azul dos dias mais claros.
E deixo-me levar pelo vento suave.Onde estou? Aqui!
É aqui que me encontro, me recomeço e me remendo.
É aqui que sou!sábado, junho 09, 2018
chEIRO
Alguma coisa sem importância fez-me pensar em ti. Pintei-te dentro de mim, bem real, bem claro. Sentado na sala em frente à televisão. Encostado, descontraído.
Alguma coisa sem importância lembrou-me de ti, de forma bem clara e bem real. Com os olhos fechados, num repente, parecia ter-te aqui, na sala, tão perto que o teu cheiro me invadiu os sentidos e baralhou as realidades.
Nunca me tinha acontecido uma memória avivar uma sensação tão real, tão clara. Já te tenho dentro de mim de tal forma vivo que, mesmo sem estares te sinto, te antevejo as reacções e até te cheiro ao meu lado.
Uma coisa qualquer, sem qualquer importância, acendeu no meu corpo o cheiro, único, do teu. Será que, por aí, sentes o meu?...
Liliana Lima
quinta-feira, junho 07, 2018
REALidade
Deixei de te dizer de mim
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar
Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada
Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua
E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim
Liliana Lima
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar
Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada
Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua
E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim
Liliana Lima
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sábado, junho 02, 2018
flor.es
Se um dia eu te der flores,
vai ser num
vaso pronto
a plantar.
Serão rosa-velho,
pequeninas e só te
chamarão pr'ás
regar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser
numa manhã para
lembrar.
Serão muitas,
abertas,
de pétalas brancas
e, no teu
canteiro,
eu mesma
as vou
guardar.
vai ser num
vaso pronto
a plantar.
Serão rosa-velho,
pequeninas e só te
chamarão pr'ás
regar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser
numa manhã para
lembrar.
Serão muitas,
abertas,
de pétalas brancas
e, no teu
canteiro,
eu mesma
as vou
guardar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser ainda
por semear.
Estarão
numa caixinha
fechada
à espera que,
delas,
te decidas
lembrar.
Se um dia eu te der flores,
tenho certeza,
que vais por elas
olhar.
É que,
nos dias em que me deste flores,
em botão, vasos
ou ramos,
plantadas, secas
ou regadas,
por mim,
todas elas
são para
acarinhar.
Liliana Lima
SuSpiro
No silêncio das palavras
Abraço
Vontade
Beijo
Tejo
Abraço
Querer
Tejo
Beijo
Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço
Me perco e nos encontro
Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo
Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço
Me sinto e nos uno
No silêncio das palavras
Liliana Lima
Abraço
Vontade
Beijo
Tejo
Abraço
Querer
Tejo
Beijo
Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço
Me perco e nos encontro
Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo
Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço
Me sinto e nos uno
No silêncio das palavras
Liliana Lima
domingo, maio 20, 2018
pa.REDE
Qualquer dia vou pendurar um jardim na parede. Quero flores lilás em cima para lembrar o céu e muitas folhas verdes a descer numa cascata salpicada de botões amarelos até desaguar num manto branco que lembrará nuvens, sentadas na terra. E sim, também vos quero lá, papoilas de mim, desenhando a vermelho o caminho concêntrico onde te perco e me encontro.
Quando eu tiver um jardim na parede, ficará logo à entrada, para todos o verem e por ele passearem. É que uma parede assim, cheia de vida, olha-nos olhos-nos-olhos a cada encontro e diz-nos tudo o que a vida não diz ou esconde debaixo da terra.
Quando tiver um jardim pendurado, convido-te para um chá. E logo à entrada, antes de qualquer palavra, ficarás a saber tudo o que não te sei contar. É que um jardim assim, com o céu colado ao tecto, alto que é, e uma manta branca a tocar o chão, deixa à vista o sangue que escondemos de cada ferida que se fez cicatriz e que, juntas, desenham o caminho concêntrico onde me perco e te encontro.
Qualquer dia, quando eu tiver um jardim na parede da entrada, deixará de haver entre-linhas, ausências ou silêncios confusos. Porque as flores tudo mostram nas suas pétalas e nada escondem por entre as folhas. E então conseguirei ver, desenhado a vermelho, o caminho concêntrico onde não me perderei e, com certeza, te encontrarei. Quando eu tiver um jardim pendurado na parede...
Lili
quarta-feira, maio 16, 2018
verde, QUE TE QUERO verde....
Vou calcando a terra
semando flores que só
nascem no próximo ano
Afago as folhas verdes
e vou multiplicando os vasos
que arrumo, empilho, penduro
Corto as folhas secas
tiro as flores murchas
E rego, com um regador
azul claro que trago d'outros poemas
Avanço revolvendo a terra
semeando flores que só
nascem no próximo ano
Tiro todas as ervas daninhas
e ajudo as raízes a rasgar a terra
onde se tornarão raízes seguras
E calco a terra, cheirando
o verde que me seduz
E rego, com um regador
azul claro que trouxe d'outros poemas
Lili
semando flores que só
nascem no próximo ano
Afago as folhas verdes
e vou multiplicando os vasos
que arrumo, empilho, penduro
Corto as folhas secas
tiro as flores murchas
E rego, com um regador
azul claro que trago d'outros poemas
Avanço revolvendo a terra
semeando flores que só
nascem no próximo ano
Tiro todas as ervas daninhas
e ajudo as raízes a rasgar a terra
onde se tornarão raízes seguras
E calco a terra, cheirando
o verde que me seduz
E rego, com um regador
azul claro que trouxe d'outros poemas
Lili
domingo, abril 29, 2018
sOMBRA
Não digas que já não vês a sombra,
tem-na colada aos pés e às mãos,
cosida com fio de pesca ao coração.
Não te zangues quando a vejo
à tua procura, atrás das colunas,
por entre as caixas, acordando os medos.
Não esperes que não a oiça chamar-te
à janela, do lado de lá da noite,
em vontades inquietas, amordaçando os sonhos.
A sombra a que estás preso
das mãos aos pés,
tolda-te os sentidos
e traz-nos sempre ao início.
Acende a luz
Levanta-te
Liberta os fantasmas
E deixa-nos voar
Lili
tem-na colada aos pés e às mãos,
cosida com fio de pesca ao coração.
Não te zangues quando a vejo
à tua procura, atrás das colunas,
por entre as caixas, acordando os medos.
Não esperes que não a oiça chamar-te
à janela, do lado de lá da noite,
em vontades inquietas, amordaçando os sonhos.
A sombra a que estás preso
das mãos aos pés,
tolda-te os sentidos
e traz-nos sempre ao início.
Acende a luz
Levanta-te
Liberta os fantasmas
E deixa-nos voar
Lili
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