E quando uma noite branca escurece num qualquer chão de cozinha desarrumada?
Quando uma flor aberta murcha num vaso esquecido?
Quando uma cama quente se deixa esfriar num milésimo de segundo?
Quando os lábios que recebem um beijo se não se permitem descongelar?
Quando o abraço que se levanta deixa vazio o corpo que fica deitado?
O que fazer com o branco da noite que nos escorre pelss mãos abertas?
Como semear uma nova flor num vaso sem água nem terra?
Como manter quentes os lençóis de seda azul celeste desmanchados pelo amor que ali se fez?
Como prolongar o beijo para lá dos lábios?
Como deixar um pouco do calor, da paixão, da alegria dum abraço, num corpo que se mantém só ao nosso lado?
Como ser suficiente quando a ferida vai para além dos limites dos mapas estelares que conhecemos?
Como amar alguém que teima em sentir-se abandonado?
Liliana Lima
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quarta-feira, abril 04, 2018
terça-feira, abril 03, 2018
SO.mos
Como sabes que sabes o que sinto?
Onde vais buscar a certeza de que é verdade o que digo?
Porque fazes da minha palavra a minha verdade?
Quando sentes em ti a presença, longínqua, do meu querer?
É assim...
É mesmo aí...
É exactamente por isso...
E, precisamente, nesse momento...
...que somos!
Liliana Lima
Onde vais buscar a certeza de que é verdade o que digo?
Porque fazes da minha palavra a minha verdade?
Quando sentes em ti a presença, longínqua, do meu querer?
É assim...
É mesmo aí...
É exactamente por isso...
E, precisamente, nesse momento...
...que somos!
Liliana Lima
sábado, março 31, 2018
PAR.is
Ela chamou-o para jantar
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
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quinta-feira, março 22, 2018
ó MAR SALgado
Diz ao mar que pare de balançar o barco
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo
A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia
Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto
Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar
Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar
Liliana
21-03-2016
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo
A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia
Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto
Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar
Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar
Liliana
21-03-2016
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sábado, março 17, 2018
bRaNcO
Sei do frio branco que rasga a pele e corta o suspiro, branco e doce que se quer
Sei da estrada cheia de curvas que derrapam com o gelo e fogem do mapa e nos deixam sem ver o caminho para o futuro
Sei do vento que congela o sangue nas veias e proíbe os movimentos e cala as palavras nos lábios fechados, prolongando silêncios enregelados
Sei das árvores cobertas por mantos brancos por baixo dos quais se aquecem as paixões enquanto não chega a Primavera
Sei das flores que se escondem dentro da terra fértil, e germinam devagar os sentimentos que mais à frente, acredito, irão florir em mil cores
Sei do frio branco que rasga a pele e corta o suspiro, branco e doce que se quer...
E tu, sabes?
Sei da estrada cheia de curvas que derrapam com o gelo e fogem do mapa e nos deixam sem ver o caminho para o futuro
Sei do vento que congela o sangue nas veias e proíbe os movimentos e cala as palavras nos lábios fechados, prolongando silêncios enregelados
Sei das árvores cobertas por mantos brancos por baixo dos quais se aquecem as paixões enquanto não chega a Primavera
Sei das flores que se escondem dentro da terra fértil, e germinam devagar os sentimentos que mais à frente, acredito, irão florir em mil cores
Sei do frio branco que rasga a pele e corta o suspiro, branco e doce que se quer...
E tu, sabes?
terça-feira, fevereiro 20, 2018
mi nu tos
Pergunta aos minutos se vêm que as horas não chegam
Pede à vontade que se arrume ao lado do bule que o chá está servido
Senta-te ao meu lado, sem cerimónia, que os bolos não têm de estar inteiros no prato
Tira os ponteiros que correm ao contrário no relógio que o barulho do tempo invade o espaço
Olha para mim e deixa os olhos falar que da boca só saem palavras mudas
Estende o sonho até mim e promete que tudo vai correr bem
Mata o silêncio que o medo invade a saudade
Pergunta aos minutos se os segundos vêm que as horas nunca chegam
Liliana
domingo, janeiro 28, 2018
QUADRAnte
Porque me vieste buscar, boneca de trapos vestida para teu bel prazer
Se não queres coser os remendos?
Porque me vieste buscar, relógio avariado, adiantado ou atrasado, quase nunca acertado com o teu
Sem a disponibilidade de calibrar os ponteiros e olear a engrenagem?
Porque que me vieste buscar, vela enfonada pelos ventos do oriente
Se não trazes contigo o quadrante?
Porquê?
Porque me dizes que queres uma paz que não sabes(emos) construir?
Querêla-às de facto?
Existirà sequer?
Porquê?
Diz-me.
Tu.
Que me vieste buscar...
Liliana
Se não queres coser os remendos?
Porque me vieste buscar, relógio avariado, adiantado ou atrasado, quase nunca acertado com o teu
Sem a disponibilidade de calibrar os ponteiros e olear a engrenagem?
Porque que me vieste buscar, vela enfonada pelos ventos do oriente
Se não trazes contigo o quadrante?
Porquê?
Porque me dizes que queres uma paz que não sabes(emos) construir?
Querêla-às de facto?
Existirà sequer?
Porquê?
Diz-me.
Tu.
Que me vieste buscar...
Liliana
Museu da Electricidade
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segunda-feira, janeiro 08, 2018
de DENTRO para FORA
Gosto que olhes para mim.
Gosto de ver os teus olhos olhar-me. Perto dos meus.
Nua das tantas camadas que trago comigo.
Gosto de olhar para ti.
Gosto de sentir os meus olhos olhar-te. Junto dos teus.
Enquanto te aproximas de mim.
Gosto que me olhes, olhos nos olhos.
De perto.
De tão perto que, quando olho para ti, sinto que me vês, assim, de dentro para fora.
Liliana Lima
(* oferecido e pintado pela minha prima Luísa Bruno)
Gosto de ver os teus olhos olhar-me. Perto dos meus.
Nua das tantas camadas que trago comigo.
Gosto de olhar para ti.
Gosto de sentir os meus olhos olhar-te. Junto dos teus.
Enquanto te aproximas de mim.
Gosto que me olhes, olhos nos olhos.
De perto.
De tão perto que, quando olho para ti, sinto que me vês, assim, de dentro para fora.
Liliana Lima
(* oferecido e pintado pela minha prima Luísa Bruno)
sexta-feira, novembro 10, 2017
pA.cI.êN.cI.A
pa·ci·ên·ci·a
(latim patientia, -ae)
substantivo feminino
1.
Capacidade de tolerar contrariedades, dissabores, infelicidades.
2.
Sossego com que se espera uma coisa desejada.
3.
Perseverança.
4.
Demora nas coisas que se deviam executar prontamente.
5.
Sofrimento em pontos de honra.
6.
Passatempo ou jogo de uma pessoa só.
7.
[Botânica]
Labaça.
interjeição
8.
Designativa de resignação, conformidade.
____________________________________
pA.cI.êN.cI.a
Paciência, pedes-me tu.
Outra vez. Mais uma vez.
Toda a do mundo
digo-te eu. Repito eu.
Quanta paciência o mundo tem?
Pergunto eu a Jó
que me olha com desdém
ao cimo de uma nova subida.
Jogo de cartas, diz minha mãe
sorrindo debaixo de uma libelinha.
Sofrimento, sofrimento, sofrimento...
Procuro o sossego da espera.
Debaixo da almofada
não encontro nada.
As bolinhas brancas deste frasco fechado na gaveta
recusam-se a tolerar
a dor de cabeça que se demora
debaixo de uma libelinha.
Sofrimento, sofrimento, sofrimento...
Paciência, dizes-me tu.
Jogo de cartas, sorri minha mãe.
Peço a Jó que me deixe jogar
a sua resignação
no tabuleiro do meu tempo.
Olha-me com desdém
ao fundo de mais uma hora
que passa a ser dia
e se repete em semanas
que se demoram
nas Damas de copas
que conversam debaixo de uma libelinha.
Resignação, resignação, resignação
Jogo de cartas, repete minha mãe
Liliana Lima
domingo, novembro 05, 2017
chuVA
Não te vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que seguram as palavras que repito.
Lê!
Não te sinto por entre as letras que formam as palavras que repetidamente te explico.
Ouve!
Não te oiço por entre os vocábulos, vazios de tantas vezes repetidos, que me esforço por escrever.
Sente!
Não te encontro por entre os sentimentos que se repetem como a chuva que já me banha muito para além dos olhos.
Entende!
Não te peço outra vez que me entendas, se já to repeti vezes sem conta.
Vê!
Não te explico nem mais uma palavra, destas linhas em que me repito letra após letra após dia após ano (já lá vão quantos?!)
Pára!
Não me vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que, repetidamente, seguram as mesmas palavras que novamente te dirijo.
Olha!
Não me deixa o cansaço desta repetição
Não encontro a saída de outra repetida discussão
Não consigo fugir ao repetir deste sentimento de frustração
Não me deixa o cansaço doutra repetição
Não te encontro no final desta repetida frustração
Não nos vejo por entre a chuva que cai...
Liliana
Lê!
Não te sinto por entre as letras que formam as palavras que repetidamente te explico.
Ouve!
Não te oiço por entre os vocábulos, vazios de tantas vezes repetidos, que me esforço por escrever.
Sente!
Não te encontro por entre os sentimentos que se repetem como a chuva que já me banha muito para além dos olhos.
Entende!
Não te peço outra vez que me entendas, se já to repeti vezes sem conta.
Vê!
Não te explico nem mais uma palavra, destas linhas em que me repito letra após letra após dia após ano (já lá vão quantos?!)
Pára!
Não me vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que, repetidamente, seguram as mesmas palavras que novamente te dirijo.
Olha!
Não me deixa o cansaço desta repetição
Não encontro a saída de outra repetida discussão
Não consigo fugir ao repetir deste sentimento de frustração
Não me deixa o cansaço doutra repetição
Não te encontro no final desta repetida frustração
Não nos vejo por entre a chuva que cai...
Liliana
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sexta-feira, agosto 25, 2017
gAIvotas
Lá fora as gaivotas choram, ou riem (não lhes consigo distinguir a narrativa)
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada
Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade
#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#
Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei
Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico
#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#
No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar
Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite
Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos
#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#
Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera
Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz
Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo
Recebeste?!
Liliana Lima
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada
Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade
#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#
Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei
Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico
#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#
No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar
Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite
Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos
#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#
Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera
Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz
Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo
Recebeste?!
Liliana Lima
quarta-feira, agosto 23, 2017
as VELHAS da praia
Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
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sábado, agosto 19, 2017
INQUIETAção
Das horas que não passam
E da espera
Dos cenários imaginados
E da espera
Das razões que não explicam
E da espera
Da ausência habitada pela vontade
E da espera
Das certezas que se perdem nas horas
E da espera
Da saudade que nunca se cala
E da espera
Do silêncio onde se escrevem os medos
E da espera
Da palavra que não é dita
E da espera
Do mar que não traz a mensagem
E da espera
Da inquietação
E da espera
Liliana Lima
E da espera
Dos cenários imaginados
E da espera
Das razões que não explicam
E da espera
Da ausência habitada pela vontade
E da espera
Das certezas que se perdem nas horas
E da espera
Da saudade que nunca se cala
E da espera
Do silêncio onde se escrevem os medos
E da espera
Da palavra que não é dita
E da espera
Do mar que não traz a mensagem
E da espera
Da inquietação
E da espera
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 17, 2017
admirável mundo NOVO
- Olhos-nos-olhos
Disse ela, assim, tão só, sem mais nada, nem mesmo pontuação, através do teclado do
telefone.
Ela que escrevia tanto, escrevia tudo, o que sentia e como sentia, que descodificava as
figuras de estilo só para ter certeza que era entendida. Dando-se em escrita, como afinal sempre sonhara dar-se. Deixava cair, com grande estrondo, a mensagem. Sem
enquadramento nem explicação.
Ele já a conhecia tão bem! Sabia-lhe o estado de alma às primeiras letras. Ouvia as
entrelinhas, mesmo as que não conseguia interpretar. Saboreava-lhe o humor algo
apimentado. Sentia-lhe a inquietação a subir em flexa. E dispensava explicações ou
esclarecimentos. Lia-a em cada palavra, que sabia ter sido prepositada e muitas vezes
inusitadamente escolhida, para aquela posição naquela frase.
Ele em silêncio sem ter certeza de como a ler. Ele, desta vez, à espera do resto, dos verbos que nem existiam, dos adjectivos, um ponto de interrogação, exclamação, um ponto apenas.
Eles que desde há tanto tempo gastavam as palavras sem nunca as desperdiçar pela rua. Eles que já eram nós. Um nós nascido e criado numa narrativa que era muito mais do que a soma das de cada um. Eles à espera, em silêncio, do ecoar morno a que as suas palavras os habituaram.
Ele pega no telefone e arrisca,
- Olhos-nos-olhos?
E recebe de volta um simples e singelo,
- Sim.
Num segundo um oceano de imagens, construídas por expressões e figuras de estilo, percorreu todo o corpo dele. Recortes dela projectados dentro de si. Do quanto escreveram até a conhecer ao ponto de a saber saborear, intuir, antecipar, alegrar e até entristecer, palavra-a-palavra.
Mas “olhos-nos-olhos” as palavras ganham outras dimensões, vestem-se de outros
significados. E ele sentia-se bem assim. Gostava dela assim. Desejava-a assim. Nesta
narrativa partilhada, em que cada um se escrevia tão mais profundamente do que em qualquer vulgar relação dependente dos sentidos. Aliás, quanto mais olhava para o ecran do telefone, mais certeza tinha que não queria pôr em risco os riscos com que a escrita a desenhara no seu imaginário.
Não, eles que em narrativa se tornaram nós, não precisavam dos olhos para se ver. Esta narrativa escrita ao longo dos anos, e já lá iam quase quatro, estava muito além do estar. Porque o sentir, esse, vivia intinsecamente em cada palavra que se escreviam.
Decidiu, por fim, quebrar o silêncio gélido que os separava, com um simples e singelo,
-Não!
segunda-feira, agosto 07, 2017
PeRtO
Olho-te de tão longe...
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço
Olho-te de tão longe,
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio
Olho-te, assim, de tão longe
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim
Olho-te daqui, onde
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite
Olho-te de tão longe
E sei-te tão perto...
Liliana
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço
Olho-te de tão longe,
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio
Olho-te, assim, de tão longe
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim
Olho-te daqui, onde
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite
Olho-te de tão longe
E sei-te tão perto...
Liliana
segunda-feira, maio 29, 2017
SER.á
E de repente as palavras caem no silêncio e ecoam no mar inesperado dos sentidos
(Percebeste o peso do que disseste?)
E de repente o sorriso aberto rasgando o dique que continha os sentimentos abafados
(Apercebeste-te que o disseste?)
E de repente as memórias guardadas na caixa dos sinais de perigo, a desfocar, a perder a côr, a esconder a dor
(Sabes da fragilidade que, ao conjugar o verbo, desnudaste?)
E uma calma que se instala num querer subitamente, e apesar dos pesares, possível
(Será que o disseste?)
E um medo que se amaina numa vontade que diz real
(Será que o sentes?)
E o silêncio que ecoa no corpo depois do reboliço no coração
(Será que te ouvi dizê-lo?)
E a dúvida que espreita atrás de cada silêncio
(Será que acredito?)
E a espera da confirmação na volta de cada palavra, em busca do sorriso que denuncia a fragilidade e desfoca a dor
(Será que o vais repetir?)
Liliana Lima
segunda-feira, abril 10, 2017
GAveTA
Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.
Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós.
Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.
Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios.
Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.
Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes.
Liliana Lima
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domingo, abril 02, 2017
manter PERTO
Afasto(-me) depois de tantos ameaços gritados no espaço vazio que separa as palavras que (te) continuo a dizer
Afasto(-te) em cada silêncio que continuas a fazer ecoar dentro do meu ser
Afasto(-me) das palavras que já não consigo encaixar no fundo do meu reflexo nas águas
Afasto(-te) com medo das letras que unes e me ofereces em palavras ditas com uma incerteza que se me crava na pele
Afasto(-nos) de todo meu querer, o meu sentir, a mimha vontade, que antes repetia para nos aproximar, mas que hoje retraio com medo de tudo o que não me dizes
Afasto(-nos) das palavras amor, carinho, olhos, mãos, corpo... com receio das palavras fantasma, ainda, quase, acho, não sei
Afasto(-me), porque me parece ser a única forma de me manter perto
Liliana Lima
segunda-feira, março 20, 2017
_ti
Passam os dias pela minha janela sem olhar para mim. Pergunto-lhes para onde vão, dizem-me que apenas sabem que não param aqui, onde, em frente ao espelho, me arranjo para ti.
Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.
Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.
Liliana Lima
Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.
Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.
Liliana Lima
segunda-feira, janeiro 09, 2017
pLuRaL
Como ser plural se sonhamos no singular?
Dias e dias que se tornam meses e acabam, de repente, em anos vividos a par. Numa soma de momentos a dois, isolados numa distorção temporal, e recriados em cenários "pré-vistos" num argumento com a duração máxima de uma semana.
Como multiplicar amor quando uma das suas múltiplas incógnitas é, à partida, igual a zero?
Vivemos um romance ou uma série de contos que, com base nas mesmas personagens, vão avançando, sem rumo nem rota, atrás dos humores duma audiência invisível?
A que aspiram as duas mãos que se enroscam para combater o frio?
Que sentido segue o suor quente das noites brancas, se ao nascer do Sol os corpos arrefecem frios em camas distantes?
Que procuram as perguntas numa narrativa que não aceita dúvidas?
De que sentido tão profundo nasce a inquietação da distância, da ausência, do silêncio?
Para onde correm as lágrimas que teimam em existir numa tentativa amarga de entender o que não se quer explicado?
É possível um amor que não sonha em conjunto?
Liliana Lima
Dias e dias que se tornam meses e acabam, de repente, em anos vividos a par. Numa soma de momentos a dois, isolados numa distorção temporal, e recriados em cenários "pré-vistos" num argumento com a duração máxima de uma semana.
Como multiplicar amor quando uma das suas múltiplas incógnitas é, à partida, igual a zero?
Vivemos um romance ou uma série de contos que, com base nas mesmas personagens, vão avançando, sem rumo nem rota, atrás dos humores duma audiência invisível?
A que aspiram as duas mãos que se enroscam para combater o frio?
Que sentido segue o suor quente das noites brancas, se ao nascer do Sol os corpos arrefecem frios em camas distantes?
Que procuram as perguntas numa narrativa que não aceita dúvidas?
De que sentido tão profundo nasce a inquietação da distância, da ausência, do silêncio?
Para onde correm as lágrimas que teimam em existir numa tentativa amarga de entender o que não se quer explicado?
É possível um amor que não sonha em conjunto?
Liliana Lima
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