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quarta-feira, março 16, 2016

conCHA

A minha concha tem paredes feitas de giz. Brancas como a cal, pintam-me as mãos quando as tento afastar.

A minha concha tem paredes de vidro. Levo-a comigo onde quer que vá e, escondo-me nelas sempre que o vento norte me arrepia. 

Boneca de loiça a dançar a valsa que eu própria canto. É dentro do búzio que me protejo dos barcos fantasma que, "a noite, ao seu costume transfigura". 

Desenho vestidos madrepérola cosidos nas abas da minha concha. Enfeito-me com eles e mergulho num cenário colorido à força dos sonhos que guardo na palma da mão. 

Oculto a concha até de mim, escondo-a quando sorrio e abafo-a sempre que falo. Se não te mostro que a tenho é porque nem eu a vejo ao espelho. 

Vou-me enrolando nas margens em caracol e quando me encontro é bem no fundo do coração que estou. Espreito a cada alvorada mas recolho-me ao nascer do Sol. 

A minha concha é feita de recortes dos dias que se dizem nossos. Colo-os na parede que me rodeia e embalo-me com as ondas do mar. 

A minha concha tem paredes feitas de nuvens. Voo no branco-cinzento da sua forma desenhada sobre os azuis do céu primaveril. Afago os verdes das copas das árvores que se reflectem nos meus olhos e, nua de medos, acordo nos castanho-esverdeado dos teus. 

Liliana 





domingo, março 06, 2016

tornEIRA

Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito. 
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.

Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?

Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?

Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?

Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?

Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?

Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?

Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...

Liliana


quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Saber.às?!

Do silêncio que grita, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto
Da mordaça fria, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto
Da distância sombria, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto 
Da ausência que me agita, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto 

Liliana Lima


quarta-feira, janeiro 27, 2016

Terra do NUNCA

Onde foi que tropecei e deixei cair o xaile, ficando com os ombros ao frio?

Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?

Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?

Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.

Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser

Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos

Ajuda-me, sem medo.


Liliana


domingo, dezembro 13, 2015

DIZ-me

Diz-me, porque me manténs aqui, encostada à palma da tua mão que pensava aberta e afinal sangra a cada toque da minha pele?
Diz-me, porque me deixas deitar-me ao teu lado todas as noites que achava de luar e afinal  sem nenhuma lua, nem nova, a iluminar o teu lado da cama?
Diz-me, porque me permites esta proximidade tão nossa se afinal, não estás aqui estando, sentado ao meu lado?
Diz-me, porque me manténs inteira no abraço que me dás, pensava, enroscado em mim e afinal com o corpo tenso, dorido à força de, não estando estar?
Diz-me, porque me dizes de ti sabendo que de mim ponho tudo o que tenho, pensando que te apoiando e afinal apenas mais um peso no pesar das horas?
Diz-me, porque me sorris quando olho para os teus olhos que sempre me pareceram tão meigos, e afinal numa fuga?
Diz-me, porque deixas que o meu corpo no teu se dilua no que achava um tango a dois, se afinal uma viagem disfarçada com os fantasmas com que, afinal danças?

Diz-me, porquê dizer-me que sangras sem luar, não estando no passar das horas, mas sim numa fuga, num disfarce?

Liliana 


domingo, novembro 29, 2015

siLÊNcio

Esfrego o tacho e a frigideira do jantar de ontem com a esperança de lavar os fantasmas duma noite que passou, mas que teima em arrastar-se pela manhã e sentar-se a meu lado na mesa do almoço. 
Arrumo os pratos na máquina e encaixo os talheres no cesto, de acordo com os seus tamanhos e feitios. Tento com eles organizar as ideias que aperto nas mãos mas que me fogem, como a água do lava-loiças que escorre pelo armário e molha o tapete colorido.

Procuro a organização exterior no caos interno que me leva sempre aos mesmos locais, tão gastos como 'as palavras pela rua' e a ti, tão inalcansável como os 'peixes verdes' que os meus olhos nunca chegar(am)ão a ser.

Ponho a mesa num ritual cénico, que uso como guarda-chuva para me equilibrar nos movimentos caóticos escondidos em cada gesto dançado.
As horas exponenciam esta tentativa de fuga à onda que sinto formar-se dentro do meu peito e que tenta, a todo o custo, soltar-se no meu corpo. 
Às vezes tenho a sensação que posso ruir a qualquer momento, como um castelo de cartas que desmorona com o simples movimento do passar dos minutos. E por isso me pesam tanto, os segundos que agarro e guardo no armário, junto aos copos, virados para baixo para não se encherem de pó, o pó do passar do tempo.

Tiro a carne e a farinha, as batatas e o açúcar, as cebolas e a canela. Poiso tudo na mesa onde junto a batedeira, o tabuleiro e a forma. E o tacho e a frigideira que esfrego mesmo antes de usar, com a esperança de lavar os medos que acordam aqui mesmo, ao meu lado na mesa do almoço.

Procuro na paz exterior uma canção de embalar que adormeça o caos e a inquietação que nunca deixar(am)ão de habitar o silêncio que, por muito que tente, nunca se gasta(rá).

Liliana



terça-feira, junho 02, 2015

Como é uma "Pessoa" tranquila, Fernando?!

(Há coisas que não mudam...)




Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:
"Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água."

Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, "não me peças colo", digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!




Liliana Lima
26-01-2009



Aprendendo a florescer/ Agnes-Cecile


"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "



"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

terça-feira, novembro 27, 2012

Máscaras...

Sou actriz duma peça pobre onde, sozinha desempenho todos os papeis. Os cenários são os próprios locais e luz é a que a cidade me oferece.

Camaleão por entre as emoções, visto mais depressa uma gargalhada do que dispo uma lágrima.

Depois, há os dias em que me perco no guarda-roupa onde os ténis se equilibram nos sapatos de salto, e os vestidos concorrem com as calças justas pelo melhor cabide. 

Hoje foi um desses dias. Abri a porta à procura da vestimenta certa para condizer com um sorriso leve, mas existente e um mundo de falsas emoções, estados de espírito, recordações reprimidas, lágrimas engolidas e sorrisos fingidos à custa da dor, olhava para mim pedindo para ser escolhido.

Assustada com tantos sentimentos à solta fugi para longe e sentei-me no chão, tentando perceber o que acontecera. Perdi-me, no meio deste teatro pobre, dentro desta carapaça de camaleão.

O que sou está cá, porque dói numa dor fininha que não se deixa esquecer. O que sinto vive em mim porque baloiça cá dentro o mar inteiro à espera para sair.

Mas estou tão colada à carapaça e habituada às roupas que já não me sei ver sem elas. Não me consigo despir, tornei-me refém das minhas próprias protecções.

Terei acaso de aprender a viver a realidade através das máscaras?!

Liliana



terça-feira, novembro 06, 2012

Ausência

Espreito pela janela do meu mundo 
e, lá fora, não vejo ninguém.
Brinco com o espelho numa dança 
a dois e perco-me em mim.

Oiço o amolador percorrendo as ruas em vão, 
mais em vão que as horas que passam no meu mundo.

Espreito-te, espero-te, desespero 
pela ausência que não consigo combater.

Chegas e entras, sentas-se comigo 
e abraças-me na noite, 
não estou sozinha, mas estou só.

A luz da lua leva-me de volta à janela, por onde espreito 
para fora do meu mundo.
Mil luzinhas acesas 
dizem-me que há vida ali, 
mas não chego a ninguém e ninguém chega a mim.

Liliana





'Espelho' de Suzy Lee


sábado, outubro 27, 2012

Corpo

Enrolo-me em volta dos joelhos

Procuro-me no quarto onde nada fala de mim
nem os livros, nem a cama, nem mesmo o espelho em cima da cómoda

Tu olhas através do meu corpo encostado à parede fria
um dia conseguiste ver-me apesar do escuro da noite

Estou aqui, à espera que a lua me embale no seu canto leve
sou só, profunda e verdadeiramente só
enrolada em volta dos joelhos

Liliana




quarta-feira, outubro 24, 2012

Vamos lá Geni!

Agora vou tomar um calmante, vestir um sorriso e servir o jantar. Disse ela em frente ao espelho, mal iluminado e já descascado como o tronco duma velha árvore, da casa de banho.

Não era a primeira vez que se vestia de alegria, de paz, de confiança, de fé apenas para embalar os outros numa dança onde cada passo era cautelosamente conduzido por ela mesma.

Ali, em frente ao espelho que tão bem a conhecia que já não a conseguia enganar, procurava a força para se despir de si e enfeitar-se com os restos dum mundo que desde cedo lhe mostrara a face estranha de palhaço pobre.

Abriu o pequeno frasquinho com comprimidos cor-de-rosa e tirou um que engoliu sem água e sem cerimónia. Suspirou fundo, tão fundo que, a casa de banho com loiças antigas e um poliban de canto, quase ficou sem ar. Abanou a cabeça, penteou o cabelo e tentou até sorrir ao espelho que se recusava a reflectir uma falsa imagem.

Abriu a porta decidida e dirigiu-se à sala onde o mundo ficara suspenso à sua espera. Entrou, fez uma festa ao filho mais novo e, com um sorriso, serviu o jantar.

Liliana




De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

http://www.youtube.com/watch?v=jsB--twZgng&feature

sexta-feira, outubro 05, 2012

Caminhos

Cansada de procurar bifurcações no decurso da estrada, 
sento-me na beira e recuso-me a avançar.

Não vou, 
mas não fujo para dentro da sala em forma de concha com o mar a embalar os sonhos.
Não vou, 
mas não conto a história de pernas para o ar para agitar o chão e mudar o caminho.
Não vou, 
mas não minto a mim própria, olho para a frente e sei que caminhas longe das estradas, por entre as dunas, onde o vento te sussurra e o sol te aquece.

Cansada de tropeçar nas bifurcações da estrada,
olho para o caminho que fiz.

A cada passo uma curva.
A cada passo um desvio.
A cada passo um precipício.

Sento-me à beira da estrada cansada,
e olho o vazio que se me apresenta.

Procuro no bolso as migalhas dos sonhos impossíveis com que vou marcando no chão o caminho de regresso.

Para se um dia conseguir voltar.


Liliana



sexta-feira, setembro 14, 2012

Alice

Estou a cair... e a rodar... sinto o peso do corpo assente num colchão de passados presentes nas horas da noite.


Caí novamente? Escorreguei. Tropecei na pedra. Sempre a aquela pedra Drummond. Eu caí nela e ela lá continua, "no meio do caminho"... Sempre no "meio do caminho", porque havias tu de a inventar? Porquê escrevê-la e deixar que ela exista ali, no MEU caminho? Porra para ti e para a tua pedra, Drummond!

Escorrego, embato, desco rápidamente sem conseguir ver onde estou. Está escuro... vejo imagens deformadas. Que querem?! Quem são vocês?!... Só me faltava o coelho para ser Alice. Mas Alice não sou! Já me deixei de crenças, que o arco-íris, esse, é um mero reflexo da luz na humidade dos desejos vãos.

Os desejos... os verdadeiros, aqueles que nos fazem subir e não cair nos buracos, onde estão Simone? Ficaram lá em cima que aqui é só o escuro e os fantasmas que nascem do "medo até de ter medo". 

Ah! Qual medo! O medo é para os fracos "meu irmão". E eu, não quero este buraco escuro de onde não sei sair e para onde, tantas vezes me deixo levar. Quero lá saber das horas e das marés! Eu quero é respirar sem este aperto. Eu quero é olhar para o pôr-do-sol sem esta inquietação que tu me ensinas desde que nasci Zé Mário!


Já não sei se caio se me atiro. Se me afogo ou se mergulho, porque o agora e o aqui são conceitos indefinidos que, por mais que queira, não consigo lembrar-me onde os deixei. Perdi a conta às horas e não me vejo em nenhuma manhã. Esta invontade voluntária de me ajudar a amparar a queda deixou-me paralizada.


Agora quero mesmo cair! Preciso de embater no chão e partir-me em mil cacos! Quero saltar! 

...Mas quero ficar. Lá fora não sei como sou... Aqui bebo o chá das cinco com meus fantasmas e faço corridas com os medos... "Que força é esta"?!  Porra! "Que força é esta"?!

Vou saltar!

...vou-me enroscar...

Partir tudo, recomeçar!

...tenho medo...

Tem de ser!

...não consigo...
...estou só, posso gritar que ninguém me ouve, dentro de mim não há mais ninguém... 

...e lá fora? Quem me entenderia?!
Ninguém... 

Não, não posso sair deste casulo...

Fico.

Só.

Liliana


sexta-feira, setembro 07, 2012

Esse rio

A sala é pequena e desnudada. 

Um caos sentado à secretária separa-me das palavras que embatem a uma velocidade que, a mim, parece vertiginosa. Limpo as feridas e os arranhões mas o tempo não me deixa sarar os medos que acordam, ali naquele caos que olha fixamente da secretária e me remete para um mundo interno a que não quero chegar.

O ar simpático, quase coloquial, de toda a conversa raspa uma peça de teatro mal ensaiado onde os actores improvisam nos silêncios e se calam nas pausas. Tudo é dito e nada é devidamente entendido. Já sei que o meu lugar será aquele, que me sentarei naquela cadeira e que a postura terá de ser aquela. 


Não sei quem é o "eu" sentado na cadeira para onde olha o caos, cada vez mais intensamente. 

Sou mar revolto, sou vulcão, força de mim que inrrompe pelos céus e se entrega à terra feita raio, energia pura, em me dou sem medida e sem restrição.

Sou

Sou a criança ferida enrolada em si, num embalo de choro que não consigo sarar e que ecoa em mim e me inquieta as horas num deserto onde não deixo mais ninguém entrar.

Sou

Acredito no arco-íris e num mundo mais feliz, onde damos flores em forma de sonhos que consigo visualizar tão mais nitidamente do que esta pequena e desnudada sala, onde um caos em cima da mesa me desconcentra.

Luto com as armas da imaginação numa guerra onde, um dia, me chamaram naïf, e procuro o fumo que me levará a "esse rio" onde, aí sim, me confundirei com as águas até nelas desaparecer.


A conversa acaba onde começou e o peso dos nomes e dos rótulos, dos medos e dos receios, dos riscos e das prescrições, dos medos e dos receios, das indicações e contra-indicações e dos medos... Caem-me aos pés prendendo-me ao chão para onde, sem me ter apercebido, o caos da mesa se espalhou.

Mais uma vez, não sei quem é o "eu" que luta para se levantar e andar e sair pela porta e entrar na "realidade".

Liliana


sexta-feira, junho 29, 2012

Estás?

Aqui estou.
Não sou nem existo sequer, para além do meu ser físico.
Estou.
Apenas.

Nada de mim sai.
Não dou absolutamente nada que, por reflexo, não seja oferecido ou, por ausência, me seja exigido.
Estou.
Somente.

Não me entrego porque não sei de mim. Não há mar em mim onde algum navio possa viajar. Estou seca.
Estou aqui, como poderia não estar.

Sei-me ao teu lado porque te cheiro. E a tua voz me diz onde estou.
Misturo a noite com os dias que correm sem içar as velas, como quem agita o gelo num copo duma qualquer bebida áspera.
Às vezes duvido se sonho ou se os sonhos me inventam a mim.

Só sei que estou...
Só.

Liliana


quinta-feira, junho 14, 2012

Suspiro...

Aperta-se-me o peito quando inspiro.

Procuro, vasculho no subconsciente um recorte que me ajude a entender esse espartilho que me prende.
As janelas não me mostram nada de novo e as palavras só me descrevem imagens conhecidas. 
Pergunto ao espelho se  a onda que me molha vem do mar que corre dentro de mim. Sorri para mim e confirma com a cabeça sem nada dizer.
Procuro a paz num suspiro profundo. Mas os músculos estão tensos e o corpo em alerta. Rodo o pescoço enquanto percorro o teclado com a ponta dos dedos. Nada me tranquiliza, nem a certeza de que o mundo continua sem mim, nem a força de te querer feliz, não tenho vontade de sonhar.
Levanto-me todas as manhãs apenas para vos dar a mão. Para manter este cenário onde estendo o arco-íris na corda da roupa e penduro o sol no varão das toalhas. Os meus sorrisos procuram encantar-te a ti, tanto quanto a mim. E a minha canção queria ser o embalo da minha alma.

Aperta-se-me o peito quando respiro. 

Luto comigo para soltar as minhas asas, mas sou eu própria quem as prendem e enlaça com cordas de mágoas. 
Saberei encontrar a ponta do fio com que me enrolo a cada madrugada e libertar a vontade e silenciar os medos e alegrar o pensamento?

Olho para a porta da ponta de cá do corredor. Puxo as cordas para esticar o arco-íris, mas não consigo fazê-lo voar.

Aperta-se-me o peito enquanto suspiro...

Liliana







quarta-feira, junho 06, 2012

És forte?

"És mais forte do que pensas", disseram-lhe. "Abre as asas e voa!"

Sou forte? Perguntou a si mesma. Eu sei que sou forte! Sou forte demais! 
Carrego o mundo às costas, à força de me prender com todos os males e não perdoar o mais pequeno erro que cometo no rodar dos ponteiros. 
Não duvido que sou forte. Reinvento-me a cada manhã para começar a andar e procuro na almofada a coragem para recomeçar, de novo, ao nascer do dia.
Duvido é que consiga sair dos dias cinzentos em que não encontro o arco-íris. Entrei neste nevoeiro por engano, mas sentei-me num canto, cansada de tanta correria, e agora não encontro a saída.
Não fora tão forte e podia baixar os braços, gritar bem alto e dizer-te que não consigo avançar.
Não fora tão forte e conseguia olhar ao espelho e ver com ternura alguém que precisa apenas da minha ajuda.
Não fora tão forte e saberia pedir-te ajuda.

Abanou afirmativamente com a cabeça, apenas para não continuar uma conversa que, já percebera, não iria a lado algum. Despediu-se e desligou o telefone, daqueles antigos, pretos, que mantivera contra os avançados aparelhos de hoje em dia. Sabia-lhe bem aquele conforto ultrapassado de casa da avó.

Sou, forte, sou forte... Murmurava ao mesmo tempo que se sentava em frente ao computador, esse já novo, moderno, pequeno. Ficou ali sentada a olhar o ecrã, alternando entre fotos e frases feitas que não via. Remoía a conversa passada na cabeça como uma discussão entre ela e ela mesma.

Fossem vocês tão fortes como eu e entenderiam o peso de me me ver, reflectida no rio, e não encontrar a vida em que me reconheço.
Fossem vocês tão fortes como eu e perceberiam que sem essa luz interna não vejo o caminho para mim mesma e, sem mim, não tenho vontade de me levantar desta cadeira.

Sim, sou forte.
Antes não fosse...
Liliana




sexta-feira, maio 04, 2012

Casulo

Abriu a janela e o ar quente invadiu a sala sem pedir licença. Uma luz forte varria as ruas, e toda a cidade sorria, primaveril. Sentou-se em cima da cama e deixou-se vestir pelo sol, enquanto recordava o espelho do rio nas janelas dos avós, embalando as estações num corropio de barcos. Tinha de sair do casulo, abrir as asas, romper as amarras.

Forçou-se a arranjar-se, inventando razões para se despachar, mas sempre que se aproximava da porta perdia a vontade. Combinou um almoço, marcou um passeio, prometeu uma visita. A proximidade da entrada empurrava todos os compromissos borda fora. Estava dentro duma bolha insuflada por fantasmas tão subtis que, quase, invisíveis. A casa era uma protecção por oposição ao desagasalho da rua. Era um colo, uma fuga sem corrida, um risco anulado. Despiu-se e voltou à cama.

O sol avançava lentamente pelo horizonte enquanto, no tecto, a cidade projectava a sua vida, indiferente ao quarto e à casa e à reclusão voluntária que, por lá, se mantinha. Inspirou profundamente, não havia sinal visível de inquietude, o ar estava calmo, pacífico e tranquilo. Não estava infeliz, nem o contrário, limitava-se a estar, na sua luta interior para não sair para o exterior.

A necessidade, normal, de sobrevivência forçou a saída. Dançando com a roupa e com as desistências foi-se aproximando da porta, até que a chave acabou por girar. Já na rua sentiu-se mergulhar numa onda de tranquilidade, sorria aos canteiros e cumprimentava os vizinhos. Afinal nada lhe parecia perigoso, quanto mais avançava mais lhe apetecia avançar. Mas atrás de todos os sons e barulhos de fundo, lá mesmo atrás de tudo e de todos, escondido debaixo do cenário, um qualquer e incompreensível medo sussurrava-lhe que voltasse para casa.

Fez as compras, bebeu um café, comprou o jornal e começou a sentir-se impaciente. Tinha pensado que, depois de sair, ia ver o rio, lembrar o espelho da cidade e as suas ondas. Mas aos poucos tudo lhe começava a parecer tão longe, tão difícil, tão inacessível que a única coisa que queria era voltar para casa, para o seu canto, recanto do mundo, do seu mundo. A caixa dos medos ficara aberta.

Recuando no caminho percorrido, tentava perceber o porquê deste desalinho. Já em casa, depois de se despir, com a tranquilidade reposta e de novo na cama, olhava pela janela aberta para uma realidade tão distante como a margem sul do Tejo. Arrastava os móveis vezes sem conta como encaixando legos à toa e, arrumava as gavetas e as prateleiras com uma ansiedade despropositada, como que tentando desesperadamente uma organização interna que sustentasse o castelo de cartas das vontades e processos que conduzem à estabilidade.

Não, não era normal que só se sentisse bem estando em casa. De que fugia? Que medo lhe assombrava o céu que o tornava tão impenetrável? Que força estabilizadora procurava na rotina do quotidiano, que tantas vezes achara monótono e asfixiante?

Liliana


sexta-feira, março 02, 2012

Dentro da concha...

Estou dentro da concha. Enrolada, encolhida neste espiral côncavo salgado dos meus olhos.

Escondo-me do mundo para fintar a realidade, brinco ao faz-de-conta com os medos e fujo dos fantasmas. Aqui, dentro do búzio onde me deito, o mar está sempre calmo e as ondas não inundam o chão.

Não me perguntes quando entrei, não me questiones porque aqui estou. Dá-me apenas a tua mão. O teu ombro. E diz-me baixinho que tudo vai correr bem.

Estou dentro da concha. Fechada. Fora do mundo. Fora dos dias e das horas que correm em busca dos ponteiros. Escondida. Enfrentando o vazio com um grito mudo.

As palavras não dizem o seu significado e eu falo numa língua estranha que me empurra para fora das conversas. Encosto-me nas curvas do chão e embalo-me com os joelhos encostados ao peito, estou cansada... de tudo até de mim.

Estou dentro da concha e brinco com as horas que passam devagar sem olhar para mim. Peço licença para fechar os olhos (é tão mais fácil ver o mundo assim!) e deixo-me levar pelo barulho do vento que sopra de mansinho e ecoa nas espirais.

A maré balança numa canção de embalar tranquila, mas falsa, que dura apenas até ao nascer do Sol. A luz acorda-me e mostra-me a rua pelas rachas laterais. Volto a ouvir os ponteiros e os carros e as crianças que gritam. Encolho-me o mais que posso e tapo os ouvidos com força.

Estou dentro da concha...




Liliana

domingo, dezembro 25, 2011

O natal das palavras...

Há já muito que as minhas palavras se acumulam presas, como velhas caixas esquecidas no sótão, como embrulhos por abrir num armazém esquecido. Os dias, embora de Sol, estão frios por dentro e os doces, luzidios, estão secos e sem sabor.

Procuro nas luzes que brilham, alternando os ritmos, no quarto dos miúdos a forma certa de as soltar. No outro dia escrevi uma num balão iluminado de azul, "Felicidade" dizia, mas preferi guardá-lo para lhos oferecer do que lançá-lo aos céus estrelados. Anda pelo chão, ainda iluminado como uma vela esquecida, no meio dos brinquedos que se amontoam como as minhas palavras, presas como pássaros a quem cortaram as asas.

Cada hora que passa tem o peso que nós próprios lhe atribuímos. Sei-o. Esforço-me por carregar de valor os momentos realmente importantes, sem me perder no meio do barulho dos carros que passam atrasados das crianças que choram com sono da roupa que tenho para estender das estradas que escolho percorrer do frio das noites em branco dos rios que teimam em pingar dos carros que passam atrasados e das crianças que choram de sono...

Amontoam-se-me as palavras que sinto no peito aprisionado entre emoções e receios. Como gostava de as soltar, se as libertasse uma a uma!

Os dias passam acorrentados aos ponteiros dum relógio que não pede licença para avançar, e que corre como uma criança em busca da bola que foge pelo campo. Também os dias têm o valor que nós lhes damos. E a cada um deveríamos ser capazes de validar momento a momento, sem o peso dos nomes das expectativas dos modelos dos medos das formas certas e das receitas dos nossos avós.

Assim são também as palavras, as minhas palavras, presas em âncoras que, mergulhadas num mar tão profundo e escuro, nem com a iluminação de Natal se mostram ou se deixam levar com a corrente até à areia branca duma qualquer praia, quem sabe escritas num papel enrolado dentro duma garrafa de vidro com uma rolha de cortiça ressequida... como nos filmes... de Natal!

Liliana