sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sábado, fevereiro 09, 2019

estOU AQUI

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do espelho, 
onde te vejo olhar para mim
e para ti 

Estou no reflexo que aparece apenas 
quando te aproximas
de mão dada a mim

E é por existires de verdade deste lado 
onde nos olhamos 
sem nos vermos espelhados,
que eu estou aqui 

Existo de verdade
Sim
Para cá dos arco-íris que procuro
no céu como um sinal
que me levará(ou)
até ti

Entre as cores que escorrem
por todas as ruas da cidade
"em que te procuro",
colorida, estou
aqui

E mesmo quando não vejo os arcos 
que sei nascer a cada momento,
estou na linha onde se deita
o teu mar
no meu céu

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do arco-íris
e por entre as cores do (teu)
espelho


Liliana Lima




segunda-feira, fevereiro 04, 2019

TEjo

Quantos pôres-do-Sol te vi beijar 
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado 

Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos

Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços 
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança 
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces


Liliana Lima 



quarta-feira, janeiro 02, 2019

aNO NOVO

E como ontem, o dia nasce
e vemo-lo passar diante nós
Traz no azul do céu a cor dos sonhos que trazemos nos olhos
Na brisa a suavidade das manhãs grávidas de esperança
No branco das nuvens a pureza do acordar dos amantes
E no Sol a força da utopia

E como ontem, a tarde cai
e sentimo-la descer sobre nós
Carrega no colo os sonhos, os novos e os de sempre
Embala a esperança que se tornou vontade
Faz crescer o amor na pureza dos gestos
E transforma a utopia em horizonte

E como ontem, a noite nasce
e, do alto do luar, olha-nos
Encobre os medos dos sonhos desfeitos
Apaga a inércia e a invontade de quem não crê
Ilumina os lençóis das camas dos amantes
E dentro da lua cheia faz renascer a utopia

E como ontem, o ano começa...


Liliana Lima


quinta-feira, dezembro 27, 2018

O sim foi dado há muito tempo, Haden?

O sim já foi dado há muito tempo

O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência

O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um

O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros

Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.


Liliana Lima



sábado, dezembro 15, 2018

cruzAMEnto

Não há receitas.

Há que estar 
no cruzamento 
certo, 
à hora 
certa.

Depois é preciso 
que o olhar
se cruze
o.l.h.o.s.
n.o.s.
o.l.h.o.s.

Mas é só com
os corações abertos 
que se cria 
ESPAÇO
para a 
NARRAtiva.

E sem NARRAtivas
por muito que nos
cruzemos

olhemos,
não há ESPAÇO 
para o 
novo
para a 
tentativa
para a 
curiosidade
para o 
impulso de saltar.

Só de corações abertos 
podemos 
sentir a vontade 
de nos darmos
n.ú.s.
das camadas de tinta
com que nos pintamos.

Não há receitas.

É estar no cruzamento
certo na hora
certa
e olhar
c.o.r.a.ç.ã.o.
a.
c.o.r.a.ç.ã.o. 
e deixar 
que a NARRAtiva 
se instale e
escreva a história
p.o.r. 
s.i.
m.e.s.m.a.

Não há receitas.


Liliana Lima


sexta-feira, dezembro 14, 2018

ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?

O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é

Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou

Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras

Sei escrever 

A L E G R I A 
ou 
F E L I C I D A D E

Porque também as sei sentir

Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa 
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre   

Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu

Liliana Lima


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
in Ser Solidário 1982

sábado, dezembro 08, 2018

SEMpre TUA, Sérgio

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar te ouvi sussurrar, quando saíste
Foram os dias da tua vida todos juntos num quase mês
que se fizeram tardes e manhãs e noites, algumas 

Foram duas mais duas que se fizeram quatro
na cumplicidade de quem se sente 
igualmente despida, igualmente forte
igualmente fraca sem o mostrar, mostrando

Foram as chuvas que se seguiram ao Sol
que em Lua se fez e a céu cinzento voltou
numa sequência no centro do palco principal
sem intervalos nem cenas fora de cena

Foram as lágrimas, as que ali se choveram 
e as que precisaram da nuvem certa para cair
Os sorrisos e os disparates que dissemos e pensámos
partilhados a oito mãos no piano do teu corpo

Foram as dores e a dormência do nada sentir
enquanto lutavas, uma guerra perdida, até ao último suspiro
Foram as horas que demoraram muitos dias a passar
e o repetir do apitar da morfina a acabar

Foram duas filhas e duas netas 
que em quatro mães se tornaram
à força dum adeus que as fez nascer
e nem a vida jamais irá desfazer 

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar ouvir-te sussurrar, quando saíste

É verdade, vó...
"Este foi o primeiro dia do resto das nossas vidas"

Vês como correu tudo bem?!
Descansa em paz, sem medo
Até logo! 

Beijo com saudade,
Sempre tua,
Liliana



A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida 

Sérgio Godinho
in Pano Cru (1978)

sábado, dezembro 01, 2018

LImbo

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?

Não queres ir?
Ou não sabes como sair?

Seja como for já não te posso ajudar...
Seja como for já não há ajuda que te pudesse dar...

Sento-me aqui, ao fundo da cama, todos os dias
ao entrar arranjo-te o (pouco) cabelo
E lembro-te que não precisas acreditar
   eu acredito por nós duas
   e,sei, podes seguir em paz

Ficas imóvel
olhando o tecto 
ou de olhos cemi-cerrados

Inspiras
Expiras

E continuas imóvel
sem me ver

Falo contigo, digo disparates...
Entramos e saímos 
e todas fazemos o mesmo..

Nada

Velamos a tua luta, estóica,
com um final à vista
e um porto pronto a aportar

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?


Liliana Lima




segunda-feira, novembro 26, 2018

AMAnhecer

Mais um dia que amanhece
Numa luta contra o inevitavelmente inevitável
Mais uma noite velada
Entre dúvidas e sobressaltos mas sobretudo admiração

Sei que tudo vai correr bem
E repito-o repetidamente até que confies
Não precisas acreditar
Eu acredito por mim e por ti

Mais um dia?
Mais uma hora?

Sei que o tempo virá quando tiver de vir
Queria-te calma e serena
Procuro dar-te esse aconchego na voz
Mas já não estás cá todas as vezes que falo contigo

Mais um dia que amanhece
Porquê?...

Sempre tua
Liliana Lima


quarta-feira, novembro 14, 2018

PROmete

Promete, que vais sem dor e sofrimento
     Que levas apenas as histórias bonitas de contar
     Que sabes que não precisas dizer adeus, entre nós há mesmo só Deus
     Que olhas para ti e não te reconheces neste corpo frágil, e isso não te incomoda
     Que me deixas tudo o que preciso para continuar, que é "apenas" o tanto de ti que há em mim
     Que não perdes a esperança, mesmo no que não acreditas, eu creio por nós duas juntas
     Que pedes para te deixarem confortável, mesmo quando eu não estou
     Que me perdoas por cada hora, por todas as noites que não fico aqui, ao teu lado

Mas
     Promete
     Que vais sem dor e sofrimento


Liliana Lima



segunda-feira, novembro 12, 2018

aVÓ

Entro de mansinho e volto atrás
Há protocolos, aventais, luvas, máscaras...
Na porta um aviso "Isolamento de contacto"

Podia jurar que virei apenas os olhos
Adormeci?
E de repente um frasco de plástico que borbulha incessantemente
Uma panela de água a ferver?
Um sem número de tubos
E tu não aqui
Ou tanto quanto possível aqui

Entro de mansinho e volto atrás
Volto atrás nos anos
Volto atrás nas memórias
Volto atrás em nós

Na porta um aviso "Isolamento de contacto"
Então visto o avental, ponho as luvas, mas recuso a máscara
As auxiliares ficam à porta...
As enfermeiras entram de escafandro

Na porta um aviso "Isolamento de contacto"
És a minha avó, porra!
Não há isolamento,
nem luvas
nem máscara
nem mesmo a morte vestida de avental, se entrar de mansinho
Que me separe de ti!

Liliana Lima


sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

terça-feira, novembro 06, 2018

lá FORA está frio, Adelaide!

Está frio, lá fora
Embrulho-me numa folha de papel e procuro o aconchego do bico do lápis de carvão
Procuro, revolto, despejo todas as narrativas que guardo na mala, mas não encontro o apoio incondicional do bico do lápis ao riscar o papel

Está frio, lá fora
Sem alternativas peço ao ecrã do telemóvel que aceite acolher as minhas palavras
Elas procuram-me,as palavras, costumo dizer. Mas quando me sinto perdida, são elas que me encontram e pedem para ser escritas.

Está frio, lá fora
Mas, sei-o, tenho já toda a história contada e resolvida
Ainda que sem o lápis de carvão, mesmo tendo de recorrer ao écran frio do telemóvel. Sinto as palavras coladas ao corpo, como uma manta quente e macia, aconchegando e traçando o caminho de volta, a mim

Lá fora, está frio...

Liliana Lima





Eu sei,
Lá fora a chuva cai
O sono já lá vai
e outra vez eu te amei
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
quando o sol nascer
(penso em ti, penso em ti)
vou ter que perder
o medo de te dizer
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei,
o que estará para vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
que a tristeza vem
(penso em ti, penso em ti)
ao deixar alguém
a quem tanto me dei
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
talvez vá perder
(penso em ti, penso em ti)
doa a quem doer
vou ter que te dizer não
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei,
o que estará pra vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei
o que estará pra vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei... penso em ti

Letra de Adelaide Ferreira e Luís Fernando, música de Tozé Brito e orquestração de José Calvário.

terça-feira, outubro 30, 2018

Dançamos, Chico?...

Os corpos encontram-se no sofá num abraço longo que se estende com a sombra do Sol, que se retira
As mãos encontram-se a meio caminho do quarto onde as ondas já esperam, aconchegando os lençóis
Os olhos fecham-se para ver melhor tudo o que só se consegue ver fora do grande écran

E os lábios levando no beijo toda a carga dos sentimentos que cantam, desde a praia até ao alto da cidade
Os sentidos (con)fudem-se numa mistura de odores húmidos que se concentram nas quatro paredes sem pudor do espelho
E a respiração, ignorando o compasso, deixa-se levar pelas marés vivas que cobrem a praia e escondem a areia

O tempo pára. De verdade. E na rua todos se recolhem, respeitando o amor que ali se vive

Os corpos mantêm-se juntos, sem pressa, enquanto as ondas acalmam e se abafam na areia e a agulha chega ao fim do disco e o tempo retoma onde tinha parado
O Sol despede-se num longo abraço laranja e a cidade adormece em paz

Liliana Lima






Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
Composição: Chico Buarque / Vinícius de Moraes

sexta-feira, outubro 26, 2018

vem VER o horiZONTE, Judy

Há um sítio, mágico, onde o mar mergulha no céu. E as nuvens se espalham para deixar passar o azul.

Há um sítio, mágico, onde o sal se dilui nas manhãs. E as ondas se afastam para recortar o horizonte.

Há um sítio, mágico, onde o vento desenha sonhos. E cada vontade se transforma numa branca gravura no firmamento.

Há um sítio, mágico, na minha janela...


Liliana Lima



When all the world is a hopeless jumble
And the raindrops tumble all around
Heaven opens a magic lane


When all the clouds darken up the sky way
There's a rainbow highway to be found
Leading from your windowpane to a place behind the sun
Just a step beyond the rain


Somewhere over the rainbow way up high

There's a land that I heard of once in a lullaby

Somewhere over the rainbow skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true


Some day I'll wish upon a star and
Wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me


Somewhere over the rainbow bluebirds fly
Birds fly over the rai
nbow, why then, oh why can't I?

Judy Garland 

terça-feira, outubro 23, 2018

E.stás A.trás da PORTA, Eugénio?

Saber a paz tão perto, ali já, atrás da porta
Sentir o mar, lá ao fundo, a cantar cá dentro
Descobrir o sorriso, sempre novo, a cada dia
Aprender a tranquilidade no final de cada espera

E... saber-te na paz de estar, aqui mesmo, atrás da porta

Deixar cair as barreiras, uma a uma, aproveitando todos os espaços novos para suspirar
Acreditar que o castelo de areia se desfaz, apenas para se refazer a cada madrugada
Encontrar a surpresa duma harmonia que respira, viva, em mim

E... saber-me na paz de deixar a inquietação, enfim, atrás da porta

Liliana



Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade 

sábado, outubro 20, 2018

papeLAria

Lembro-me de ti sempre na papelaria, por entre os livros que chegavam em grandes caixas e faziam parte de grandes listas de pais e mães que esperavam em grandes filas que circundavam o balcão e acabavam no passeio de onde via o café com mesas redondas à volta das quais corria e brincava com a minha prima

Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou na sala mesmo por cima sentada com a manta nas pernas ao lado da "avó uma" que sem sucesso me tentava ensinar o ponto de meia com o qual deveria tricotar um cachecolpara um cuco que nunca entendi de onde apareceria mas que o levaria algures para um ninho 

Lembro-me de ti sempre na papelaria, onde me apaixonei pelo cheiro dos lápis de carvão todos do mesmo tamanho perfeitamente afiados e as sebentas e os cadernos embalados em papel creme que como prendas desembrulhavamos e guardavamos nas prateleiras do fundo

Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou em tua casa no cimo das escadas íngremes nas noites quentes e nas trovoadas secas de Verão onde aprendi a medir a distância da trovoada pelo número de segundos que cabem entre o relâmpago e o trovão 

Passei há pouco pela papelaria e apenas porta e montra, tapadas, fechadas 
sem o cheiro a livros e a lápis 
nem o toque do relógio dos avós que rivalizava com o da igreja 
nem as janelas da frente abertas por onde o acaso uma noite deixou entrar o caos nas asas de um morcego 
nem a mesa encostada à parede vestida de branco e coberta de festa onde não podíamos tocar até à visita do Sr Padre 
nem o cheiro a livros e a lápis 

Não sei qual é agora a tua morada. Sei que não estás onde te deixei

Suspeito que já chegaste algures a uma papelaria 

Acredito que vais organizar lápis e embrulhar cadernos

Espero que um dia, outro dia, te encontre assim,  numa papelaria 


Liliana Lima 




quinta-feira, outubro 18, 2018

que NÃO

Que não penses que, por não falar, não sinto
                                       por não dizer, não questiono
                                       por não escrever, não temo

Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala

Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve


Liliana Lima



sábado, outubro 06, 2018

Do La.Do esquerdo

às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito

às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo 
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação 

às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera

às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito

Liliana Lima