segunda-feira, setembro 30, 2019

Crónicas duma separação consumada V

Conheces aquele aperto no estômago e a vontade de fugir e a sensação de que tudo está muito mais lento do que o teu tempo interno, que antecede uma discussão anunciada?

Respiras fundo e, durante aquele breve instante, fazes conjecturas, ensaias respostas e imaginas acusações.

No momento seguinte apercebes-te que já comprometeste a promessa de não os envolver. Porque o mal-estar te levou a querer atalhar e perceber em primeira mão a onda prestes a cair sobre ti. Ou simplesmente porque, na verdade, é mesmo mais fácil perguntar.

Depois tentas compor a situação com pensos-rápidos e os "não te preocupes" vêm acompanhados dos "está tudo bem", mesmo quando não está.

E o aperto que não desaperta até saberes exactamente o que se está/vai passar que te continua a atordoar. 

Feitas as contas, o importante é mesmo o como não te deixares imergir neste estado que leva ao incumprimento dum acordo feito de ti para ti. Ou assim o devia ser. E para isso, o que se passará, ou não passará a seguir, não deve ser o epicentro da atenção interna.

Conheces aquele aperto no estômago que antecede uma discussão anunciada e, sem quereres (ou querendo, apenas para o aliviar) acabas por fazer, mais uma vez, aquela pergunta que devia estar bloqueada?

Um dia...

Um dia algures na tua, ou na tua, ou na tua vida, vão sentir, pressentir, ou em última (e pior) análise fazer sentir, esse aperto.

Nessa altura concentrem-se nos pensos-rápidos (tentando que sejam cada vez mais lentos) e desviem o futuro da vossa atenção. 

Peçam desculpa (é verdade, as desculpas podem evitar-se mas, mais cedo ou mais tarde, devem ser pedidas sem vergonhas) e concentrem todas as forças para o aqui e o agora. Mais tarde terão tempo, por muito que tenham vontade de fugir, de lidar com a crónica que se segue.

Por agora, desculpa. Tentarei mudar o penso não muito rapidamente.


Com muito amor,
Mãe


  
  



sábado, setembro 28, 2019

Crónicas duma separação consumada IV

As semanas em que não estão, são feitas de dias normais. Dias que nascem e põem-se ligeiramente mais para a esquerda, que vão ficando mais húmidos e frios e, de acordo com a dança do Sol em volta da Terra, são cada vez mais pequenos. Mas essas diferenças só se notam depois de passadas algumas semanas.

Na verdade, nas semanas em que não estão, alguns dias são programados com afazeres que conjugam melhor com a vossa ausência, trabalhos, deslocações, almoços ou jantares a que torceriam o nariz e a que não quereriam ir. Depois há os outros, em que "o rio corre, bem ou mal, sem edição original"(*).

Na verdade, nas semanas em que não estão, em cada dia há uma ausência que me acompanha, desde que o Sol nasce até que se põe. Que viaja comigo, que escreve comigo, que come comigo, que respira comigo, que sorri, conversa e abraça comigo. Dias há, em que só eu própria vejo esse silêncio de luz. Noutros, mostra-se sem timidez a quem está ao meu lado.

Na verdade, acho que posso dizer que essa ausência nasce dentro de mim, e que de dentro mim parece sair, como alguém que "tem tempo, não tem pressa"(*) e vai pintando as minhas horas cada vez mais claras até todo o relógio estar cinzento.

Na verdade, há dias, nas semanas em que não estão, que correm ao sabor da "brisa ... tão naturalmente matinal"(*) que os deixa alegres, tranquilos e felizes. Como é de esperar. Como é natural. 

Na verdade, há dias, nas semanas em que estão, que nascem no caos dos minutos que seguem mais rápidos que os segundos, nas manhãs que se tornam madrugadas e nas almofadas que, comigo, vêm e vão ora ocupadas convosco ora à espera de vós.

Na verdade, nas semanas em que estão, há lanche ao sair da escola, pizza como jantar obrigatório de pelo menos um dia, filme que se divide por vários serões para ninguém se deitar tarde e beijinhos de boas noites.
  
As semanas em que não estão, são feitas de dias bons e dias menos bons, como as outras. A meteorologia depende de forças que nos são completamente alheias. Os acasos atropelam-se sem qualquer intervenção da nossa parte. E as obrigações são tão obrigatórias como em qualquer outra altura.

Mesmo assim. As semanas em que não estão (ainda) custam um bocadinho mais a passar do que as outras.

Com muito amor,
Mãe


(*)in Liberdade
de Fernando Pessoa
Poesias, Ática 1996


sexta-feira, setembro 27, 2019

Crónicas duma separação consumada III

E quando acordamos para o facto de estarmos a ser/fazer grande parte das coisas que tão convicta e repetidamente dissemos, noutras ocasiões e representando outras personagens, para os nossos amigos não fazerem... 

Comunicar com o que, de um dia para o outro, parece ter-se transformado no "outro lado da barricada", não é fácil. E pouco se pode fazer para mudar. Resta-nos a esperança que o tempo, a seu tempo, lime as arestas e deixe correr o ar. 

Do alto da minha alta janela, a vontade que sinto crescer dentro de mim, é de escrever pequenos papéis coloridos, enrolar cada frase e lançá-las ao vento. E não ter, tão cedo, que confrontar esse conflito latente que (ainda) não se pode amainar. 

E o mais engraçado é que acredito mesmo que, pelo menos algumas das frases, chegariam, ao destino. Amachucadas claro, mas menos confusas e quem sabe menos sujas das interpretações e subjectividades de cada um, tanto emissor como receptor. 

Sei também que te tiraria a responsabilidade de acartar com o peso que cada recado acarreta. E te tiraria do meio deste diálogo mudo, onde o teu e os vossos personagens devem ser o mais omissos possível. 

Não te aceno com uma perfeição que sei não conseguir encontrar dentro de mim. Mas prometo que tentarei arranjar a forma certa, ou pelo menos a mais eficaz, de comunicar com "esse lado" que durante tantos anos foi também o "meu" lado. E que, por acaso do destino, hoje é onde tu estás. 

Se acaso algum dia me esquecer e tentar, fugindo ao confronto, entregar-te correspondência alheia, devolve sem medos ou hesitações, ao remetente. E lembra-me o que te contei: "as palavras estão gastas"(*). 

Com muito amor, 
Mãe 



(*) "Adeus" 
de Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa

quarta-feira, setembro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada II

Não sei se tenho de vos pedir desculpa por não ser "só" vossa, por completamente impossível que seja deixar de ser.
Não pedirei, com certeza, por decidir seguir o caminho que me leva de volta a mim (e por consequência a vocês).

Talvez devesse, a seu tempo, ter pedido desculpa, a cada um. Por não seres único. Por não seres o mais novo. Por não seres para sempre bebé. 
Não pedirei, com certeza, por vos saber meus desde que vos soube parte de mim, por dentro mesmo, a crescer.

Não sei se vos devia pedir perdão pelos meus dias de lua nova que, por muito que não queira, acabam por encobrir os vossos céus. 
Não pedirei, com certeza, pela natureza que se me entranha, ora Primavera com os sonhos brotando em flor, ora Inverno com cheias e tremores de terra.

Não sei se preciso pedir desculpa pelo espaço, mais escasso, menos largo, que tenho comigo para partilhar. 
Não pedirei, com certeza, pelas tentativas e erros da vontade de o tornar mais nosso. 

Ainda assim, continuo sem saber se devo esperar algum tipo de resposta, mesmo que embrulhada num qualquer "maqueique" depois dos meus 'bons dias' a piscar nos visores dos telemóveis.
Não espero, com certeza, grandes conversas sobre lágrimas que nem deixo que vos humedeçam os dedos. 

Sei, por pouco que seja, que tudo farei para não vos cobrar nem culpabilizar das curvas apertadas do caminho. E que não posso, tão pouco, deixar martirizar-me pelas geadas das manhãs.

Mas... Será que posso pedir que não fechem o mundo em dois universos infinitamente paralelos, onde vivo de acordo com as semanas, alternando entre o estar e o vazio?
Fica a ideia no ar...

Com muito amor, 
Mãe 



terça-feira, setembro 24, 2019

Crónicas duma separação consumada I

Sei-vos meus, sabendo-vos de tantos outros. De muitas maneiras e de inúmeras intensidades. 
Mas como meus que são, foram e serão, tenho a certeza que o são no singular.

Sei que o amor não se mede em dias, e que o tempo tudo esclarece (a não ser quando piora e teima em transformar aguaceiros em tempestades). 
Mas há dias em que o tempo parece rarear e o amor decide chegar atrasado.

Sei dos manuais, dos conselhos e do senso-comum que tem sempre mais de comum do que de senso. E prefiro os académicos aos que nunca se escusam de dar, conselhos. 
Mas aqui, no dia-a-dia, na realidade nua e crua, e bruta (como o é igualmente a verdade), a vontade nem sempre parece querer seguir as técnicas comprovadas há anos de terapias e análises. 

Sei da mágoa, da raiva escondida por baixo da roupa suja, que salta mesmo antes de abrirmos o cesto, pese embora o número incontável de vezes que a tapámos e escondemos debaixo das meias e dos calções de ginástica. E sei o quanto nos arrependemos por não poder arrepiar caminho depois de lançadas as palavras ao vento. 
Mas, dizem, quem não sente não é filho de boa gente e nem sempre conseguimos calar o que cá dentro tanto grita. 

Sei do caminho e dos anos e das histórias, que nos fazem ser quem, e como, somos. E sei que não sou só eu a sabê-lo. 
Mas "por vezes num segundo se evolam tantos anos"(*)...


Com muito amor, 
Mãe 



(*) David Mourão Ferreira 
in "E por vezes" 

segunda-feira, setembro 02, 2019

iLHa

O Sol entra,
Deita-se
Na cama
E conta-me
Do mar e das ondas
Que oiço
Desaguar na areia.
Tu cantas
Com o vento
Que faz abanar as canas.
Procuro
As palavras
Certas
Para espelhar
O tanto que quero contar.
Tu cantas,
Com a gaivota
Que rasga o céu,
Uma canção
De embalar.
E eu deito-me
Com o Sol
Que vejo entrar, invadindo
A cama,
Onde te vou encontrar
Também.
E, nesta tarde calma,
Deixo-nos
Ficar.

Liliana Lima