quinta-feira, dezembro 27, 2018

O sim foi dado há muito tempo, Haden?

O sim já foi dado há muito tempo

O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência

O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um

O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros

Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.


Liliana Lima



sábado, dezembro 15, 2018

cruzAMEnto

Não há receitas.

Há que estar 
no cruzamento 
certo, 
à hora 
certa.

Depois é preciso 
que o olhar
se cruze
o.l.h.o.s.
n.o.s.
o.l.h.o.s.

Mas é só com
os corações abertos 
que se cria 
ESPAÇO
para a 
NARRAtiva.

E sem NARRAtivas
por muito que nos
cruzemos

olhemos,
não há ESPAÇO 
para o 
novo
para a 
tentativa
para a 
curiosidade
para o 
impulso de saltar.

Só de corações abertos 
podemos 
sentir a vontade 
de nos darmos
n.ú.s.
das camadas de tinta
com que nos pintamos.

Não há receitas.

É estar no cruzamento
certo na hora
certa
e olhar
c.o.r.a.ç.ã.o.
a.
c.o.r.a.ç.ã.o. 
e deixar 
que a NARRAtiva 
se instale e
escreva a história
p.o.r. 
s.i.
m.e.s.m.a.

Não há receitas.


Liliana Lima


sexta-feira, dezembro 14, 2018

ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?

O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é

Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou

Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras

Sei escrever 

A L E G R I A 
ou 
F E L I C I D A D E

Porque também as sei sentir

Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa 
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre   

Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu

Liliana Lima


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
in Ser Solidário 1982

sábado, dezembro 08, 2018

SEMpre TUA, Sérgio

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar te ouvi sussurrar, quando saíste
Foram os dias da tua vida todos juntos num quase mês
que se fizeram tardes e manhãs e noites, algumas 

Foram duas mais duas que se fizeram quatro
na cumplicidade de quem se sente 
igualmente despida, igualmente forte
igualmente fraca sem o mostrar, mostrando

Foram as chuvas que se seguiram ao Sol
que em Lua se fez e a céu cinzento voltou
numa sequência no centro do palco principal
sem intervalos nem cenas fora de cena

Foram as lágrimas, as que ali se choveram 
e as que precisaram da nuvem certa para cair
Os sorrisos e os disparates que dissemos e pensámos
partilhados a oito mãos no piano do teu corpo

Foram as dores e a dormência do nada sentir
enquanto lutavas, uma guerra perdida, até ao último suspiro
Foram as horas que demoraram muitos dias a passar
e o repetir do apitar da morfina a acabar

Foram duas filhas e duas netas 
que em quatro mães se tornaram
à força dum adeus que as fez nascer
e nem a vida jamais irá desfazer 

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar ouvir-te sussurrar, quando saíste

É verdade, vó...
"Este foi o primeiro dia do resto das nossas vidas"

Vês como correu tudo bem?!
Descansa em paz, sem medo
Até logo! 

Beijo com saudade,
Sempre tua,
Liliana



A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida 

Sérgio Godinho
in Pano Cru (1978)

sábado, dezembro 01, 2018

LImbo

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?

Não queres ir?
Ou não sabes como sair?

Seja como for já não te posso ajudar...
Seja como for já não há ajuda que te pudesse dar...

Sento-me aqui, ao fundo da cama, todos os dias
ao entrar arranjo-te o (pouco) cabelo
E lembro-te que não precisas acreditar
   eu acredito por nós duas
   e,sei, podes seguir em paz

Ficas imóvel
olhando o tecto 
ou de olhos cemi-cerrados

Inspiras
Expiras

E continuas imóvel
sem me ver

Falo contigo, digo disparates...
Entramos e saímos 
e todas fazemos o mesmo..

Nada

Velamos a tua luta, estóica,
com um final à vista
e um porto pronto a aportar

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?


Liliana Lima