segunda-feira, novembro 26, 2018

AMAnhecer

Mais um dia que amanhece
Numa luta contra o inevitavelmente inevitável
Mais uma noite velada
Entre dúvidas e sobressaltos mas sobretudo admiração

Sei que tudo vai correr bem
E repito-o repetidamente até que confies
Não precisas acreditar
Eu acredito por mim e por ti

Mais um dia?
Mais uma hora?

Sei que o tempo virá quando tiver de vir
Queria-te calma e serena
Procuro dar-te esse aconchego na voz
Mas já não estás cá todas as vezes que falo contigo

Mais um dia que amanhece
Porquê?...

Sempre tua
Liliana Lima


quarta-feira, novembro 14, 2018

PROmete

Promete, que vais sem dor e sofrimento
     Que levas apenas as histórias bonitas de contar
     Que sabes que não precisas dizer adeus, entre nós há mesmo só Deus
     Que olhas para ti e não te reconheces neste corpo frágil, e isso não te incomoda
     Que me deixas tudo o que preciso para continuar, que é "apenas" o tanto de ti que há em mim
     Que não perdes a esperança, mesmo no que não acreditas, eu creio por nós duas juntas
     Que pedes para te deixarem confortável, mesmo quando eu não estou
     Que me perdoas por cada hora, por todas as noites que não fico aqui, ao teu lado

Mas
     Promete
     Que vais sem dor e sofrimento


Liliana Lima



segunda-feira, novembro 12, 2018

aVÓ

Entro de mansinho e volto atrás
Há protocolos, aventais, luvas, máscaras...
Na porta um aviso "Isolamento de contacto"

Podia jurar que virei apenas os olhos
Adormeci?
E de repente um frasco de plástico que borbulha incessantemente
Uma panela de água a ferver?
Um sem número de tubos
E tu não aqui
Ou tanto quanto possível aqui

Entro de mansinho e volto atrás
Volto atrás nos anos
Volto atrás nas memórias
Volto atrás em nós

Na porta um aviso "Isolamento de contacto"
Então visto o avental, ponho as luvas, mas recuso a máscara
As auxiliares ficam à porta...
As enfermeiras entram de escafandro

Na porta um aviso "Isolamento de contacto"
És a minha avó, porra!
Não há isolamento,
nem luvas
nem máscara
nem mesmo a morte vestida de avental, se entrar de mansinho
Que me separe de ti!

Liliana Lima


sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

terça-feira, novembro 06, 2018

lá FORA está frio, Adelaide!

Está frio, lá fora
Embrulho-me numa folha de papel e procuro o aconchego do bico do lápis de carvão
Procuro, revolto, despejo todas as narrativas que guardo na mala, mas não encontro o apoio incondicional do bico do lápis ao riscar o papel

Está frio, lá fora
Sem alternativas peço ao ecrã do telemóvel que aceite acolher as minhas palavras
Elas procuram-me,as palavras, costumo dizer. Mas quando me sinto perdida, são elas que me encontram e pedem para ser escritas.

Está frio, lá fora
Mas, sei-o, tenho já toda a história contada e resolvida
Ainda que sem o lápis de carvão, mesmo tendo de recorrer ao écran frio do telemóvel. Sinto as palavras coladas ao corpo, como uma manta quente e macia, aconchegando e traçando o caminho de volta, a mim

Lá fora, está frio...

Liliana Lima





Eu sei,
Lá fora a chuva cai
O sono já lá vai
e outra vez eu te amei
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
quando o sol nascer
(penso em ti, penso em ti)
vou ter que perder
o medo de te dizer
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei,
o que estará para vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
que a tristeza vem
(penso em ti, penso em ti)
ao deixar alguém
a quem tanto me dei
eu sei,
(penso em ti, penso em ti)
talvez vá perder
(penso em ti, penso em ti)
doa a quem doer
vou ter que te dizer não
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei,
o que estará pra vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei
sou eu quem vai mudar
sou eu quem vai sair
talvez até chorar
não sei
o que estará pra vir
talvez eu vá mentir
o que lá vai, lá vai
lá fora a chuva cai
eu sei... penso em ti

Letra de Adelaide Ferreira e Luís Fernando, música de Tozé Brito e orquestração de José Calvário.