sexta-feira, outubro 26, 2018

vem VER o horiZONTE, Judy

Há um sítio, mágico, onde o mar mergulha no céu. E as nuvens se espalham para deixar passar o azul.

Há um sítio, mágico, onde o sal se dilui nas manhãs. E as ondas se afastam para recortar o horizonte.

Há um sítio, mágico, onde o vento desenha sonhos. E cada vontade se transforma numa branca gravura no firmamento.

Há um sítio, mágico, na minha janela...


Liliana Lima



When all the world is a hopeless jumble
And the raindrops tumble all around
Heaven opens a magic lane


When all the clouds darken up the sky way
There's a rainbow highway to be found
Leading from your windowpane to a place behind the sun
Just a step beyond the rain


Somewhere over the rainbow way up high

There's a land that I heard of once in a lullaby

Somewhere over the rainbow skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true


Some day I'll wish upon a star and
Wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me


Somewhere over the rainbow bluebirds fly
Birds fly over the rai
nbow, why then, oh why can't I?

Judy Garland 

terça-feira, outubro 23, 2018

E.stás A.trás da PORTA, Eugénio?

Saber a paz tão perto, ali já, atrás da porta
Sentir o mar, lá ao fundo, a cantar cá dentro
Descobrir o sorriso, sempre novo, a cada dia
Aprender a tranquilidade no final de cada espera

E... saber-te na paz de estar, aqui mesmo, atrás da porta

Deixar cair as barreiras, uma a uma, aproveitando todos os espaços novos para suspirar
Acreditar que o castelo de areia se desfaz, apenas para se refazer a cada madrugada
Encontrar a surpresa duma harmonia que respira, viva, em mim

E... saber-me na paz de deixar a inquietação, enfim, atrás da porta

Liliana



Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade 

sábado, outubro 20, 2018

papeLAria

Lembro-me de ti sempre na papelaria, por entre os livros que chegavam em grandes caixas e faziam parte de grandes listas de pais e mães que esperavam em grandes filas que circundavam o balcão e acabavam no passeio de onde via o café com mesas redondas à volta das quais corria e brincava com a minha prima

Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou na sala mesmo por cima sentada com a manta nas pernas ao lado da "avó uma" que sem sucesso me tentava ensinar o ponto de meia com o qual deveria tricotar um cachecolpara um cuco que nunca entendi de onde apareceria mas que o levaria algures para um ninho 

Lembro-me de ti sempre na papelaria, onde me apaixonei pelo cheiro dos lápis de carvão todos do mesmo tamanho perfeitamente afiados e as sebentas e os cadernos embalados em papel creme que como prendas desembrulhavamos e guardavamos nas prateleiras do fundo

Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou em tua casa no cimo das escadas íngremes nas noites quentes e nas trovoadas secas de Verão onde aprendi a medir a distância da trovoada pelo número de segundos que cabem entre o relâmpago e o trovão 

Passei há pouco pela papelaria e apenas porta e montra, tapadas, fechadas 
sem o cheiro a livros e a lápis 
nem o toque do relógio dos avós que rivalizava com o da igreja 
nem as janelas da frente abertas por onde o acaso uma noite deixou entrar o caos nas asas de um morcego 
nem a mesa encostada à parede vestida de branco e coberta de festa onde não podíamos tocar até à visita do Sr Padre 
nem o cheiro a livros e a lápis 

Não sei qual é agora a tua morada. Sei que não estás onde te deixei

Suspeito que já chegaste algures a uma papelaria 

Acredito que vais organizar lápis e embrulhar cadernos

Espero que um dia, outro dia, te encontre assim,  numa papelaria 


Liliana Lima 




quinta-feira, outubro 18, 2018

que NÃO

Que não penses que, por não falar, não sinto
                                       por não dizer, não questiono
                                       por não escrever, não temo

Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala

Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve


Liliana Lima



sábado, outubro 06, 2018

Do La.Do esquerdo

às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito

às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo 
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação 

às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera

às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito

Liliana Lima