segunda-feira, novembro 27, 2017

CORpo

Do sentimento de dever cumprido 

Da tranquilidade de todas as mãos que se deram em comunhão e amizade
Da alegre surpresa ao ouvir as minhas palavras noutro corpo

Da paz de dizer até já a quem já está noutro tempo

Do orgulho dos dedos que soltam as notas do piano
Do prazer de ver tantos olhos conhecidos a descobrir o Corpo, que afinal já não é meu

Do agradecimento sincero, puro, às mãos que me ensinaram a andar

Da procura da palavra certa para dedicar a cada um em particular
Do cansaço do corpo que já espera outro amanhã 

Do sorriso grato a todos os que fizeram deste dia, este dia

Do sentimento de dever cumprido

Obrigada!

Liliana Lima



'Corpo'
de Liliana Lima
com ilustrações de José Pádua 
Editora: CEMD
10,00€ (portes de envio grátis)
Pedidos por mensagem / Facebook
www.facebook.com/LilianaLimaCorpo/

sexta-feira, novembro 10, 2017

pA.cI.êN.cI.A


pa·ci·ên·ci·a
(latim patientia, -ae)

substantivo feminino

1. Capacidade de tolerar contrariedades, dissabores, infelicidades.

2. Sossego com que se espera uma coisa desejada.

3. Perseverança.

4. Demora nas coisas que se deviam executar prontamente.

5. Sofrimento em pontos de honra.

6. Passatempo ou jogo de uma pessoa .

7. [Botânica]  Labaça.

interjeição

8. Designativa de resignação, conformidade.
____________________________________ 

pA.cI.êN.cI.a

Paciência, pedes-me tu.
Outra vez. Mais uma vez.
Toda a do mundo
digo-te eu. Repito eu.

Quanta paciência o mundo tem?
Pergunto eu a Jó
que me olha com desdém
ao cimo de uma nova subida.

Jogo de cartas, diz minha mãe
sorrindo debaixo de uma libelinha.

Sofrimento, sofrimento, sofrimento...

Procuro o sossego da espera.
Debaixo da almofada
não encontro nada.
  As bolinhas brancas  
  deste frasco fechado na gaveta
recusam-se a tolerar
a dor de cabeça que se demora
debaixo de uma libelinha.

Sofrimento, sofrimento, sofrimento...

Paciência, dizes-me tu.
Jogo de cartas, sorri minha mãe.

Peço a Jó que me deixe jogar 
a sua resignação
no tabuleiro do meu tempo.
Olha-me com desdém 
ao fundo de mais uma hora
que passa a ser dia
e se repete em semanas
que se demoram
nas Damas de copas 
que conversam debaixo de uma libelinha.

Resignação, resignação, resignação
Jogo de cartas, repete minha mãe


Liliana Lima
 

domingo, novembro 05, 2017

chuVA

Não te vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que seguram as palavras que repito.
Lê!

Não te sinto por entre as letras que formam as palavras que repetidamente te explico.
Ouve!

Não te oiço por entre os vocábulos, vazios de tantas vezes repetidos, que me esforço por escrever.
Sente!

Não te encontro por entre os sentimentos que se repetem como a chuva que já me banha muito para além dos olhos.
Entende!

Não te peço outra vez que me entendas, se já to repeti vezes sem conta.
Vê!

Não te explico nem mais uma palavra, destas linhas em que me repito letra após letra após dia após ano (já lá vão quantos?!)
Pára!

Não me vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que, repetidamente, seguram as mesmas palavras que novamente te dirijo. 
Olha!


Não me deixa o cansaço desta repetição

Não encontro a saída de outra repetida discussão 

Não consigo fugir ao repetir deste sentimento de frustração

Não me deixa o cansaço doutra repetição

Não te encontro no final desta repetida frustração 


Não nos vejo por entre a chuva que cai...


Liliana